Biografemas (13): Robert Johnson

Sim, o pacto existiu. Mas não da forma como se conta. Na verdade, foi exatamente ao contrário.

Quando chegou àquela encruzilhada, Robert Johnson já era o melhor guitarrista da história do blues. E foi justamente para aprender seus segredos que o diabo lhe propôs um acordo. Em troca, oferecia o sucesso. Não como músico, que já estava assegurado, mas com as mulheres.

Johnson aceitou. Pouco depois, foi morto por um marido traído e ciumento. Porque esses pactos sempre terminam assim.

O diabo, dizem, aprendeu a tocar o blues, e usou o domínio que teve sobre o gênero para garantir que nunca mais ninguém tocasse como Robert Johnson.

Postais do Exílio (136): Delta do Arunã

O rio Arunã sempre foi considerado uma divindade. Uma deusa da fertilidade. E seu delta tem a forma do púbis divino, que intumesce na temporada de chuvas. Cada um dos incontáveis canais do delta é um dos pentelhos sagrados de Arunã.

São comuns os casos de desaparecimento no delta. E também os afogamentos.

 

Bestiário (158): Onça imprecisa

Quem vê a onça imprecisa nunca tem muita certeza do que viu. Seus contornos são indefinidos: às vezes parece que acaba aqui, às vezes parece que continua lá. Não é surpresa que poucos caçadores possam se gabar de algum dia ter conseguido acertar uma delas (e os que o fazem, em geral passam por mentirosos).

Em certas ocasiões, a onça imprecisa milagrosamente perde a sua fluidez e surge sólida, insofismável. Mas então, quando a gente chega perto para conferir, descobre que já não é mais onça, é tamanduá, capivara ou até teiú.

A verdade é que da onça imprecisa ninguém escapa se ela não quiser. Por sorte, seus desejos também são inconstantes.

Bestiário (157): Zuctlan

Da mesma forma que o papagaio, a cacatua e algumas variedades de morcegos imitam a voz humana, o zuctlan é capaz de imitar pensamentos.

Husserl, ao que parece, tinha um zuctlan, que de tanto emular a lógica transcendental do seu dono, chegou a ser melhor que o original. Mas de forma geral o zuctlan prefere imitar pensamentos mais simples, adaptando-se muito bem a think tanks liberais, por exemplo.

Conta-se que no reinado do imperador Huītzilihhuitl (1396-1417), para estimular a diversidade de opiniões no Grande Conselho, havia sempre um zuctlan nas reuniões. Se o animal, exposto a ideias divergentes e conflitantes, apresentasse sinais de sofrimento interno, tudo estava bem. Se, reforçado por uma unanimidade cega, se mostrasse forte e bem disposto, os conselheiros eram castigados.

Postais do Exílio (135): Farol de Mussar

O Farol de Mussar jamais teve uma lâmpada. Seria inútil. Por mais potente que fosse, nenhuma fonte de luz seria capaz de atravessar o nevoeiro que cobre aquela região quase permanentemente. Em vez disso, é um farol sonoro. A cada meia hora, emite uma sirene que alerta os navegantes para a proximidade da costa.

Atualmente, o serviço é feito com auxílio de alto-falantes e um sistema de som programado eletronicamente. Quando o farol foi construído, porém, era preciso soprar um corne que subia em espiral da base da construção até o seu topo, a 22 metros. Os faroleiros, então, eram escolhidos especialmente pelo seu fôlego.

Dramatis Personæ (204): Augusto, o metamante

Começou pela cartomancia, mas em pouco tempo aprendeu diversas outras artes divinatórias. Aprendeu a ler o futuro nos astros, nas folhas de chá, no voo dos pássaros, nas entranhas dos animais, nas linhas da mão, nas varetas do I Ching, nos búzios, no movimento das formigas, no Tarô, na bola de cristal. Jamais conseguiu encontrar, porém, uma técnica que fosse inteiramente confiável.

Hoje, lê o futuro pelas suas próprias escolhas. Se em dada situação opta pela aurospicina seguida de rabdomancia, por exemplo, isso é um claro indício de que o momento é favorável a rupturas radicais, e provavelmente também de que vai chover. Cor: turquesa; número: 17.

Postais do Exílio (134): À Palavra Desconhecida

O monumento é uma escultura. Ela representa algo que já teve um nome na língua local, que porém caiu em desuso há tanto tempo que ninguém mais dela se lembra.

Na falta de um nome, não se sabe o que o monumento homenageia, sequer se é algo que existe (mas que hoje se chama de outra forma) ou se deixou de existir há ainda mais tempo que a palavra esquecida. Críticos de arte, pelo mesmo motivo, não chegam a um consenso sobre o caráter da obra – se abstrata ou figurativa. Políticos discutem se não seria mais prudente derrubá-la. Pombos, indiferentes, emporcalham-na do mesmo jeito.