Biblioteca de Babel (128): Tulcaze

Tulcaze é, ao mesmo tempo, o nome de um povo, de uma língua, um nome próprio e o título de um livro. O único livro escrito em tulcaze, que conta a história de Tulcaze, que fundou a civilização tulcaze.

No auge da civilização (ouso dizer do império) tulcaze, o livro era um extenso tratado que cobria quase todos os aspectos do conhecimento humano. Porém, a cada tulcaze que morria, uma ou mais palavras eram eliminadas da língua (e do livro). Hoje, no último povoado tulcaze, restam pouco mais de cinquenta almas que mal conseguem usar o idioma materno para se comunicar, reservando-o apenas para usos rituais.

Há 13 anos não nascem crianças tulcazes. Acredita-se que Tulcaze, hoje adolescente, será a última testemunha dessa história. Quando morrer, morrerão igualmente o povo, a língua e o livro, que perderá sua última palavra — “Tulcaze”, naturalmente.

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Dramatis Personæ (205): Ernesto

Existem dois tipos de relojoeiros: os comuns e Ernesto.

Os comuns fazem o que se espera de um relojoeiro: consertam relógios que estão andando muito rápido ou devagar demais, ajustando-os à marcha correta do tempo. Ernesto não. Ernesto faz o tempo das pessoas se adequar ao relógio que usam.

Mitolorgias (3): Medusa e Narciso

Algumas fontes narram que não foi Perseu, e sim Narciso, o herói enviado para enfrentar Medusa. Com sucesso, de certa forma: pois a górgona, ao ver o mais belo dos mortais, ficou paralisada de emoção; Narciso, porém, ao olhar no fundo dos olhos dela, viu a si mesmo refletido neles (como não poderia deixar de ser) e ficou igualmente petrificado.

Biblioteca de Babel (127): Doze Contos Inacabados

O que há de mais intrigante nesta coletânea é que todos os contos parecem perfeitamente acabados. Seguem, quase todos, uma estrutura linear, com começo, meio e fim (três deles terminam com a morte do protagonista, outros com alguma forma convincente de fim de jornada). Mesmo os que são menos convencionais levam a algum tipo de conclusão.

Poderia se argumentar que, os fins estando sempre corretos, o que há de inacabado são os inícios. Pelo contrário, cada conto abre com uma frase magistral que já desencadeia a narrativa. Os meios também são primorosos. Seria a escrita? Também não. Cada palavra parece ter sido esculpida com todo o cuidado para encontrar seu lugar no texto.

Ao que parece, os contos foram dados como inacabados porque estão até hoje à espera de uma leitura que os complete.

Biografemas (13): Robert Johnson

Sim, o pacto existiu. Mas não da forma como se conta. Na verdade, foi exatamente ao contrário.

Quando chegou àquela encruzilhada, Robert Johnson já era o melhor guitarrista da história do blues. E foi justamente para aprender seus segredos que o diabo lhe propôs um acordo. Em troca, oferecia o sucesso. Não como músico, que já estava assegurado, mas com as mulheres.

Johnson aceitou. Pouco depois, foi morto por um marido traído e ciumento. Porque esses pactos sempre terminam assim.

O diabo, dizem, aprendeu a tocar o blues, e usou o domínio que teve sobre o gênero para garantir que nunca mais ninguém tocasse como Robert Johnson.

Postais do Exílio (136): Delta do Arunã

O rio Arunã sempre foi considerado uma divindade. Uma deusa da fertilidade. E seu delta tem a forma do púbis divino, que intumesce na temporada de chuvas. Cada um dos incontáveis canais do delta é um dos pentelhos sagrados de Arunã.

São comuns os casos de desaparecimento no delta. E também os afogamentos.

 

Bestiário (158): Onça imprecisa

Quem vê a onça imprecisa nunca tem muita certeza do que viu. Seus contornos são indefinidos: às vezes parece que acaba aqui, às vezes parece que continua lá. Não é surpresa que poucos caçadores possam se gabar de algum dia ter conseguido acertar uma delas (e os que o fazem, em geral passam por mentirosos).

Em certas ocasiões, a onça imprecisa milagrosamente perde a sua fluidez e surge sólida, insofismável. Mas então, quando a gente chega perto para conferir, descobre que já não é mais onça, é tamanduá, capivara ou até teiú.

A verdade é que da onça imprecisa ninguém escapa se ela não quiser. Por sorte, seus desejos também são inconstantes.