Postais do Exílio (134): À Palavra Desconhecida

O monumento é uma escultura. Ela representa algo que já teve um nome na língua local, que porém caiu em desuso há tanto tempo que ninguém mais dela se lembra.

Na falta de um nome, não se sabe o que o monumento homenageia, sequer se é algo que existe (mas que hoje se chama de outra forma) ou se deixou de existir há ainda mais tempo que a palavra esquecida. Críticos de arte, pelo mesmo motivo, não chegam a um consenso sobre o caráter da obra – se abstrata ou figurativa. Políticos discutem se não seria mais prudente derrubá-la. Pombos, indiferentes, emporcalham-na do mesmo jeito.

Biblioteca de Babel (126): Uma Carteira

A segunda carteira da terceira fileira da última sala do terceiro andar do Colégio Ada Lovelace não parece diferente de todas as outras da mesma fileira, da mesma sala, de todo o terceiro andar e de todo o colégio, e nem mesmo de todas as carteiras do mesmo modelo produzidas em série como instrumentos para a reprodução de estudantes em série.

Banal, portanto.

Sendo, porém, o Acaso aquilo que é, nesta carteira específica as palavras, frases e desenhos rabiscados ao longo de anos de aulas tediosas acabaram por formar um romance. Em vão zeladores esfregaram panos com álcool no tampo de fórmica. A sombra dos grafitos ficou, somando-se a outros mais novos, numa espécie de palimpsesto, adicionando camadas a uma narrativa já de início carregada de pathos adolescente.

Há uma maldição na segunda carteira da terceira fileira da última sala do terceiro andar do Colégio Ada Lovelace. Quem se senta nela jamais se encaixa novamente na produção em série.

Biblioteca de Babel (125): O Autômato

O primeiro capítulo descreve como José Q., o protagonista, acorda, levanta-se da cama, toma café, arruma-se, vai ao trabalho, sai para almoçar, volta ao trabalho, pega o ônibus de volta para casa, toma banho, janta e vê televisão até a hora de dormir.

O segundo capítulo descreve como José Q., o protagonista, acorda, levanta-se da cama, toma café, arruma-se, vai ao trabalho, sai para almoçar, volta ao trabalho, pega o ônibus de volta para casa, toma banho, janta e vê televisão até a hora de dormir.

O terceiro descreve como José Q., o protagonista, acorda, levanta-se da cama, toma café, arruma-se, vai ao trabalho, sai para almoçar, volta ao trabalho, pega o ônibus de volta para casa, toma banho, janta e vê televisão até a hora de dormir.

O quarto, o quinto… Não é preciso descrever.

“O Autômato” é um anti-romance, cujo personagem principal não vive qualquer tipo de narrativa. Não há conflito, não há fluxo de consciência, não há perfil psicológico, não há nada. Apenas a repetição vazia e inócua de cada dia.

Postais do Exílio (133): Vale de Uran

Todos os dias centenas de pessoas gritam da beira do penhasco, mas jamais alguém ouviu a própria voz ecoar. Em vez disso, o que se ouve são os ecos de outras vozes. Vozes estranhas, distantes. Às vezes em línguas desconhecidas.

Existem duas explicações para o fenômeno. A primeira é de que a configuração rochosa singular do Vale de Uran distorce as vibrações de tal forma que torna os ecos irreconhecíveis.  Pode ser. Mas isso não explica muito bem por que diversas vezes, na calada da noite, o vale reverbera sem ser provocado. É por isso que acredita-se que os ecos de Uran são retardados, e só agora estamos ouvindo a repetição de gritos que foram dados ali há anos, talvez séculos.

Uma variação desta hipótese sugere que Uran ecoa sons do futuro, sendo na verdade um oráculo. Houve mesmo quem garantisse ter escutado ali pela primeira vez uma declaração de amor que voltaria, anos depois, a ouvir – desta vez de lábios humanos.

Dramatis Personæ (203): Eulália

Eulália sofre de uma raríssima condição, conhecida como daltonismo auditivo.

Assim como as pessoas daltônicas,  em diferentes níveis,  são incapazes de distinguir entre as cores, Eulália é insensível a certas variações de timbre. Não todas: sabe, por exemplo, distinguir o toque do fagote do de um oboé, e reconhecer o canto do curimango ou o da cotovia no meio de diversos outros pássaros.

Sua dificuldade é mesmo com vozes humanas. Para ela, o chamado de um amigo íntimo soa exatamente como o da mãe, de um vizinho ou de Elvis, estivesse Elvis vivo e a chamasse.

Durante anos os médicos examinaram Eulália, para no fim concluir que seu problema tem origem emocional. Para ela, todas as vozes alheias são de completos estranhos.

Bestiário (156): Gato-agrícola

O gato-agrícola é o único animal conhecido (além do homem) a cultivar plantas. Não para a sua alimentação, porém, já que, como todos os outros felinos, esse gato selvagem é exclusivamente carnívoro. O seu objetivo é outro.

No território de todo gato-agrícola há um pequeno trecho dedicado à plantação de erva-de-gato (Nepeta catharia), cujas folhas e flores tem efeito alucinógeno sobre gatos em geral. O controle das plantas, inclusive, é fator determinante nas suas disputas territoriais e nos seus rituais de acasalamento.

No outono, o gato-agrícola recolhe cuidadosamente as sementes caídas e as enterra, garantindo a continuidade do seu suprimento. Além disso, defende ferozmente as mudas, às quais parece dar mais valor até do que ao próprio território de caça.

Postais do Exílio (132): Zoológico de Mambilena

Em Mambilena os protestos contra a manutenção de animais selvagens trancafiados chocaram-se com a popularidade de seu jardim zoológico. Foi preciso encontrar uma solução que agradasse a todos. E assim os animais foram gradualmente substituídos por robôs. São réplicas perfeitas de tigres, leões, escaravelhos, raposas, mantícoras, elefantes, harpias, dodôs, jacarés e outros bichos, não apenas indistinguíveis na forma como também programados para imitar o comportamento e os sons dos originais. Até os cheiros sintéticos que exalam são idênticos aos naturais.

Metade da população, porém, não acredita que zoóides tão perfeitos possam existir, e acusam o Zôo de manter animais reais em cativeiro. A outra metade diz que, mesmo com tanta perfeição, não é a mesma coisa olhar para uma jaula sabendo que do outro lado está um robô. Desta forma, todos permanecem insatisfeitos.