Domingadas

De 19 de dezembro de 2005 a 5 de junho de 2006, assinei no Jornal dos Sports uma coluna semanal chamada Domingada. Era, claro, uma referência a Domingos da Guia, mas também ao dia da semana em que era publicada.

A coluna foi “descontinuada”, como se diz hoje, pouco antes de eu também ser “descontinuado” do jornal. Foi divertido enquanto durou.

Carcará

Essa conversa de rebaixamento me lembra o que aconteceu a um clube paraibano. O nome, esqueci; era conhecido como o Carcará da Serra. Pois houve um ano em que o Carcará apanhou mais que um galo do Duda Mendonça e chegou à última rodada precisando ganhar para não ser rebaixado. Ainda por cima, enfrentava logo o Treze, líder invicto, em Campina Grande.

Para piorar a situação, ali reinava ainda a lei do cangaço. O coronel Ferreira, prefeito da cidade e dono do clube (ou prefeito do clube e dono da cidade, tanto faz) mandou seus jagunços acompanharem o time e, houvesse o que houvesse, trazer todos de volta depois. Para o bem ou para o mal.

A tragédia era iminente. Mas, no vestiário, o treinador combinou a estratégia com os jogadores. E antes mesmo de começar o jogo um dos reservas chamou os jagunços para um canto, com uma garrafa de pinga. Quando a bola rolou, já nem sabiam quem era a bola. E houve o massacre esperado: o Treze quase virou Quatorze, tantos gols enfiou no pobre lanterninha. E os jagunços, tortos de cachaça, nem  percebiam o que estava acontecendo. Só viram um monte de gente comemorando e aderiram à alegria geral, estimulados pelos bravos heróis do Carcará  da Serra.

Telefone e rádio, se havia, eram precários. Por isso, quando o caminhão chegou de volta, trazendo a delegação, os tiros para o alto disparados pelos jagunços anunciaram a festa. Os jogadores desceram comemorando e o coronel Ferreira mandou logo matar  e assar  não sei quantos cabritos. Ninguém perguntou quanto tinha sido o jogo, ninguém respondeu também. E a festa entrou pela noite. Ali mesmo o coronel pagou o bicho prometido e nem percebeu que técnico e jogadores saíram de fininho, um de cada vez para não despertar suspeitas.

No dia seguinte, quando a notícia do resultado chegou à cidade, todos eles já tinham picado a mula para bem longe. Nunca mais apareceram por aquelas bandas. O coronel chegou a pensar em acabar de vez com o clube. Passadas a raiva e a ressaca, entretanto, admitiu que a festa tinha sido das boas. E tratou de montar outro time para voltar à primeira divisão, mas essa é outra história. Qualquer dia eu conto.

Pois é. Cair, subir, tudo isso é do jogo. O importante é manter a pose. E o amor à camisa — porque, na primeira ou na segunda divisão, o Carcará é sempre Carcará.

*

Mario Filho (o maior de todos), Nelson Rodrigues, João Saldanha, José Lins do Rego… a dinastia de cronistas do JS é imensa. A eles (e ao vizinho de página Marcos de Castro), por quem eu sinto orgulho de trabalhar neste jornal, minha homenagem e o pedido de licença para ocupar este espaço. 

19/12/2005. Última rodada do Campeonato Brasileiro, com Flamengo e Botafogo ameaçados de rebaixamento para a segunda divisão.

O casamento do Juvenal

Muita bobagem se fala a respeito de Felipe e de outros jogadores, chamados de mercenários. Ainda mais nesta época em que todos estão trocando de clube e jurando amores eternos. Quem fala de amor à camisa raramente sabe o que é isso. Pelo menos não tanto quanto o Juvenal, torcedor do América.

Chiquinho, aqui do Arquivo do JS, deve ter conhecido o Juvenal. Um americano tão fanático que usava vermelho o tempo todo. Do pijama à sunga de praia, não conhecia outra cor. Enfrentou problemas durante o regime militar, acusado de subversão. Na sua loja, atendia os clientes com o uniforme rubro. E cismou que, no dia do casamento (com Angélica, uma vascaína, o que prometia fazer da cerimônia um Clássico da Paz), entraria na igreja com um terno cor de sangue.

— De jeito nenhum! — protestou a noiva.

E ela contava com o apoio dos pais, dos sogros, dos padrinhos, até do padre, que se recusava a celebrar o casamento se Juvenal insistisse naquela aberração. Tentaram convencê-lo a se contentar com a camisa do clube por baixo do terno preto. Chegaram a lembrar que preto era a cor original do América, no tempo da fundação. Mas ele batia o pé. Estava criado o impasse.

Angélica pressionou o noivo. Não chegou a dizer “ou o América ou eu”, pois não queria correr o risco. Mas mostrou que a situação daquele jeito não podia continuar. Ele pensou um bocado e concordou.

— Mas pelo menos a gravata vai ter que ser vermelha -— exigiu.

Gravata podia. Então foi com ela — e o terno preto — que Juvenal ia entrando na igreja para se casar. E jurou que foi acidente quando um amigo, por coincidência também americano, o desequilibrou. Ele caiu, uma queda exagerada, é verdade, daquelas de mercer cartão amarelo se fosse dentro da área. E caiu de costas sobre uma poça de água suja na calçada.

Correram a ajudar o noivo a se limpar, mas o estrago estava feito, com aquela mancha enorme nas costas. Arrumar um paletó emprestado era inviável: Juvenal tinha quase dois metros de altura, e ninguém na igreja tinha roupa que coubesse nele.

— Não tem problema! — disse, porém. E, tirando o paletó, virou-o pelo avesso, exibindo o forro de reluzente cetim vermelho, perfeitamente alinhavado. Antes que noiva, pais, sogros, padrinhos e padre esboçassem uma reação, caminhou resoluto em direção ao altar. De vermelho, como queria.

26/12/2005. No domingo anterior, Felipe, do Flamengo, comemorara um gol pisando na camisa rubro-negra.

Aureawilson

Tocou o telefone na redação, atendi e era Santana, o homem que não se engana. Um dos maiores olheiros do país, ele garante que foi o primeiro a ver em Ronaldinho Gaúcho, ainda um garoto de 12 anos numa pelada em Porto Alegre, o craque que seria eleito o melhor do mundo. Chegou a indicá-lo aos clubes do Rio, que no entanto o ignoraram. Acontece.

Santana estava na estrada, em algum lugar misterioso entre Tupã e Catanduva, tentando acompanhar a maratona de jogos da inchadíssima Copa São Paulo de Futebol Júnior. E reclamava que as coisas não são mais como antes. “Hoje só tem time de empresário. Você vai conversar com um garoto qualquer e ele já está cercado de procurador, assessor de imprensa, personal trainer, astrólogo, massagista, o escambau”, reclamava.

Perguntei então, para tentar animá-lo, qual tinha sido na sua opinião a maior revelação nos tempos em que ainda havia oportunidades para um olheiro na Copa São Paulo. Ele respondeu na bucha: Aureawilson. Quem? Aureawilson, filho de dona Áurea e seu Wilson, mais um daqueles milhões de garotos que recebem um nome estranho, híbrido, que acabou decidindo o seu destino.

Vinha do Norte, parece que do Rio Negro, e era lateral-direito. Quando Santana o viu em ação, encaixando a bola no peito e cruzando na medida para o centroavante, não teve dúvidas: estava ali um novo Leandro, um novo Carlos Alberto. O que atrapalhava era o nome.

Como bom profissional, Santana tentou orientá-lo. Podia usar o sobrenome. Ou um apelido. Mas o garoto era inflexível, e tinha lá os seus motivos. O pai havia morrido no parto — sim, de emoção. Dona Áurea, por sua vez, trabalhara muito para realizar o maior desejo do saudoso marido, que era ver o filho se tornar um jogador de futebol. Ela mesma o treinava. Ensinara-o a chutar uma bola quando ainda mal se sustentava de pé. Agora, prestes a realizar o sonho, o menino não podia deixar de homenagear a mãe nem o pai. Era Aureawilson ou nada.

E, como Santana não se engana, o resultado foi nada. Os companheiros se cansaram daquele sujeito de nome complicado, que não atendia se alguém pedisse dizendo simplesmente “Toca, Wilson”; o técnico, irritado, acabou barrando-o. O olheiro ainda tentou encaixá-lo em outros clubes, mas nem no Bonsucesso conseguiu vaga. Não como Aureawilson, que era a sua única exigência.

E por isso, só por isso, ainda hoje somos obrigados a aturar Cafu e Belletti com a camisa 2 da Seleção Brasileira. Assim garante Santana, o homem que não se engana.

9/1/2005.

O Trumão

Está com cara de que vai ficar bonito o estádio do Pan-Americano, no Engenho de Dentro. Eu, como ex-morador do Méier, sei a importância de algo assim na região. E, como jornalista, torço pelo seu sucesso, para que não tenha o mesmo triste fim do Trumão. Os mais novos podem não ter nem ouvido falar, mas vale a pena lembrar o que aconteceu naquela época.

A época, diga-se logo, era o ano de 1972. Sesquicentenário da Independência, milagre econômico, Brasil tricampeão. Dominava o país uma euforia pela construção de estádios. E, em Itamandaia do Oeste, interior de Minas, próspera criadora de gado, o prefeito Altamirando Costa resolveu que a cidade precisava de um.

Faraônica é pouco para descrever a obra. Um colosso do sertão. Altamirando não mediu esforços para erguer um monumento ao futebol brasileiro, mineiro e itamandaiense. Admirador do ex-presidente americano Harry Truman (seu filho, para dar uma idéia, chamava-se Altamirando Truman), batizou a obra com o nome do ídolo. Nascia o Estádio Presidente Truman, o Trumão.

Para o jogo de abertura, no dia do aniversário da cidade, o sonho do prefeito era trazer a Seleção Brasileira para jogar contra o Itamandaia. Não foi possível; Atlético, América e Cruzeiro também recusaram os convites, apesar de todo o cacife político de Altamirando ter sido empenhado nas tentativas. Acabou tendo de se contentar com um combinado de ex-jogadores, um ou outro com passagem pela Seleção.

Era o que bastava, imaginou nosso homem de visão, para atrair multidões à arquibancada. Para sua frustração, porém, no dia da inauguração quase ninguém compareceu. Mesmo o jogo sendo com portões abertos. Um assessor ponderou que era assim mesmo. Afinal, o Trumão tinha capacidade para sessenta mil pessoas, e a população da cidade não chegava a vinte mil. “Lotação máxima, só se entrarem as vacas e os bois”, acrescentou.

Pois o prefeito, que era criador de gado, não esperava outra coisa. “O importante é lotar essa porcaria. Manda entrar a boiada”, determinou. E assim foi feito. O rebanho ocupou primeiro a arquibancada, depois o gramado, que lhe pareceu mais interessante. Quando conseguiram tirar as vacas todas dali, o campo estava impraticável, e ainda por cima com um fedor insuportável.

Não demorou para a piada ganhar as ruas: o Trumão ia mudar de nome e virar Ex-trumão. E Altamirando, revoltado, acabou mandando derrubar tudo. 

16/1/2005.

Vasco x Portuguesa

Joaquim fechou mais cedo a padaria; Manoel nem sequer abriu o botequim. Mandou a flamengada toda ir torrar a paciência de outro. Dia de clássico é assim. Já na véspera tinham ido os dois ao Viseu, para tomar umas bagaceiras, olhar as raparigas e dançar o vira. Domingo de manhã, missa na igreja de Nossa Senhora de Fátima. No almoço, bacalhau e vinho do porto, ouvindo Amália Rodrigues.

Os amigos aprontaram-se e foram em direção à Colina. Não levavam o tradicional lápis atrás da orelha, pois não precisariam fazer contas de cabeça. Tirando esse detalhe, poderia dizer que estavam iguaizinhos ao Bacalhau, personagem do nosso Alviño.

Entraram em São Januário na expectativa de mais um espetáculo. Joaquim não segurou uma lágrima ao passar diante do busto em bronze do Almirante. “Casaca! Casaca!” era o grito da torcida, e eles entraram no coro. Logo, porém, ouviram um fraco “Luuuusaaaa” vindo do outro lado do estádio. E comoveram-se com a pequena, porém fiel, valorosa e principalmente lusitaníssima torcida da Portuguesa. Eram seus irmãos, sem dúvida alguma.

Aproximaram-se e puxaram conversa, falando da terrinha. Joaquim era do Porto, Manuel, alfacinha. Comentaram os jogos de sábado pelo Campeonato Português. Repartiram tremoços que haviam trazido para beliscar durante o jogo. Enfim, uma festa.

Mas logo a confraternização teria de ceder lugar à disputa. Os dois times já estavam em campo, o árbitro em breve apitaria o início do jogo. Manuel e Joaquim sentiram o coração dividido. Não havia condições de torcerem contra os seus patrícios. E agora, o que poderiam fazer?

Quem resolveu o problema foi um gaiato que passou por ali vendendo mate e ouviu a conversa entre os dois:

— No primeiro tempo, vocês torcem pelo time que atacar para este lado; no segundo, mudam e torcem por quem atacar para o outro lado.

Joaquim espantou-se.

— Ora, pois! Vinda de um brasileiro, não deixa de ser uma boa idéia!

E assim fizeram. A Portuguesa, que não ganhava nem cara-ou-coroa, foi para o lado de lá. E nossos dois amigos se juntaram aos seus novos companheiros. Veio o intervalo e, no segundo tempo, fiéis ao que haviam combinado, torceram novamente pelo clube da Ilha.

Ao fim do jogo, os dois deixaram São Januário ainda confusos.

— Ó Manuel, diga-me cá uma coisa: como foi que nós, que somos vascaínos, viemos ao estádio e torcemos o tempo todo contra o Vasco?

— Joaquim, o pior não é isso. O pior é que perdemos!

Ora, pois.

23/1/2005. Vasco e Portuguesa jogam pelo campeonato carioca.

Crítica da razão pura

E tem o caso do Valente. João Carlos Valente, que um dia apareceu no clube como técnico de futebol. Pelo menos era o que ele dizia ser, e a pose era tão convincente que ele acabou sendo efetivado no comando do time. Vieram as primeiras derrotas, porém. E os dirigentes, acreditando talvez que os jogadores estivessem de má vontade, foram ver o que acontecia nos treinos.

Chegaram e encontraram o técnico distribuindo ordens. “Vamos lá! Vamos potencializar a agudização ofensiva!”, dizia. Os jogadores, sem entender nada, corriam de um lugar para o outro. “Assim não! Sinergia! Sinergia!”, ele reclamava.

Os diretores se entreolharam. E o Anselmo, ex-jogador que estava por ali acompanhando tudo, matou a charada:

— Ele mandou abrir o jogo pelas pontas, com os laterais passando para receber. Está na cara.

E assim o Anselmo passou a intérprete oficial do treinador, cuja língua enrolada só ele se mostrava capaz de entender. “Diferenciar a progressão longitudinal” era inverter a jogada; “implementar o intercâmbio proativo” era tabelar; “otimização das dinâmicas de funcionamento basal” era recuar para ajudar na marcação.

Um dia, Valente abusou. No vestiário, o time pronto para entrar em campo, saiu-se na preleção com uma pérola de fazer corar o Lazaroni:

— A síntese ou ligação do múltiplo nos mesmos refere-se apenas à unidade da apercepção.

Olharam todos para Anselmo, que coçou a cabeça e traduziu:

— Muda tudo. Você entra na lateral esquerda. Você vai para o banco e entra no segundo tempo, descansado, para puxar o contra-ataque.

O time ganhou e no dia seguinte os jornais destacaram o nó tático (expressãozinha que caiu no goto dos cronistas) aplicado pelo Valente. Mas o presidente do clube sacou enfim que o Anselmo não era exatamente um perito na língua enrolada do técnico, e usava muito mais a sua sensibilidade de boleiro para ver o que o time precisava fazer. Deu um jeito de promover o técnico a coordenador e efetivou o intérprete como técnico. Semanas depois, o time conquistava o título e os jogadores dedicavam a taça ao Valente, acredito que com uma pitada de ironia.

Depois disso, sumiu. Da última vez que ouvi falar dele, estava no Pinel. Treinando o time de lá, assim me garantiu. E falava dos seus avanços:

— Já conseguimos dialetizar a pulsão de morte!

Liguei para o Anselmo e perguntei o que isso poderia significar. “Devem ter parado de fazer gol contra. No campeonato do hospício, deve ser uma tremenda vantagem”, ele arriscou.

Apesar de tudo, João Carlos Valente era um homem de muitas qualidades. Leal, por exemplo, ele sempre foi.

30/1/2005. Júlio César Leal, técnico do Flamengo, irrita por seu estilo empolado, tendo o ex-jogador Andrade como seu auxiliar.

Acadêmicos do Largo

Cumpro o doloroso dever de informar que este ano, pela primeira vez, a nossa escola não vai desfilar. Uma pena, porque tudo indica que este carnaval, como o campeonato, será dos pequenos. Era a grande chance de a rosa e branco da Zona Sul finalmente brilhar.

Samba para isso não faltava. Nossos compositores, Joel Cachaça e Felipe Chinelo (que, como todos sabem, ganhou o apelido porque costuma marcar o ritmo batendo com o chinelinho no surdo), acertaram a mão na parceria. A comunidade toda estava animada nos ensaios, cantando o samba-enredo:

Minha escola adentra o gramado
Tocando de primeira, pé em pé
Acadêmicos do Largo do Machado
É show de bola, goleia e dá olé
Futebol-arte é o tesouro desse povo
Driblando a vida com malícia e vibração
É a arte de um bamba
Na cadência do samba
Explodindo no grito de campeão
Oi, me leva, torcida que eu vou
Cruzamento na área é gol!
Oi, me leva, torcida que eu sou
O maior craque desse carnaval!

A velha guarda, liderada por Vovozinho e Peito de Aço, implicou, dizendo que bom era o carnaval dos tempos antigos. Mas acabou admitindo que o samba era de primeira.

Estava tudo pronto. O mestre-sala Baixinho, cheio de disposição, prometeu que não ia ficar parado como fez no ano passado. Nem a saída de um dos nossos melhores jovens ritmistas diminuiu a empolgação, já que craques o Largo do Machado sempre fez em casa.

Mas, como disse, a escola não vai sair. Não por crise financeira, que já foi muito pior em outros tempos mas isso nunca nos impediu de sambar. Nem por falta de gente, já que o projeto Fantasia a Um Real encheu de foliões as nossas alas.

A culpa, esclareço, é do presidente. Tudo começou com a falta de luz no meio do nosso último desfile. Ele chegou a ameaçar se jogar do viaduto da Ipiranga (em dia de feira!) e botou a boca no mundo para reclamar dos jurados. Foi quando começaram a correr os boatos de que não íamos desfilar. A comunidade chiou. Então, o presidente bateu o pé e prometeu:

— O Largo do Machado só deixa de sair no dia em que Americano e Cabofriense eliminarem Fla e Flu no Carioca.

Deu nisso. Pensando bem, a culpa não é do presidente. É desses timecos que andaram montando. Como dizia Jorge Aragão, foi um dez em fantasia mas perdeu em harmonia.

6/2/2005. Domingo de carnaval. Flamengo e Fluminense eliminados da Taça Guanabara.

Aranha Branca

Os alvinegros me perdoem, mas o grande ausente das semifinais de hoje é o Friburguense, que esteve bem perto de terminar a Taça Guanabara entre os quatro primeiros. A sua animada torcida (meu amigo Alysson jura que viu no Eduardo Guinle a faixa “Frizão rumo a Tóquio”) até agora não entendeu aquele segundo gol do Vasco. Pelo menos, o goleiro Zé Romário tem bons serviços prestados e por isso a galera até aceita. Como a do São Paulo já deve ter esquecido a falha ridícula de Rogério Ceni no gol do São Caetano.

Quem não conseguiu perdão até hoje foi Amadeu, o Aranha Branca. Ao contrário de seu ídolo Yashin, o Aranha Negra, Amadeu era negro e usava um uniforme todo branco, daí o apelido.

Ágil, inteligente, de bons reflexos, Amadeu logo viu a sua fama crescer. O problema foi quando o apelido lhe subiu à cabeça. E tão convencido ficou de ser de fato o Aranha Branca que resolveu fazer da rede a sua teia. Isso mesmo: passava os jogos pendurado na rede, saindo dela apenas para saltar como… ia dizer como um gato, mas saltava mesmo era como uma aranha, num bote certeiro. Depois de repor a bola em jogo, voltava para a sua posição, aguardando que a presa se aproximasse outra vez.

Os árbitros reclamavam. Dentro do gol ele não podia ficar, que estava fora de campo. O Aranha Branca, irredutível, vinha para a pequena área mas era só o árbitro se afastar que lá estava ele pendurado de novo.

Quem acabou com a brincadeira foi Mosquito, atacante que um dia o enfrentou. Conhecendo a fama do adversário, tratou de evitar o confronto. Nem mesmo se esforçava, fazia questão de que Amadeu praticasse suas defesas com a maior facilidade. E mostrava toda a sua admiração. “Nossa, que reflexo!”, gritava. “Que agilidade”, elogiava depois.

Num cruzamento que o goleiro saiu para cortar, Mosquito sequer pulou. Os companheiros o encararam, irritados com aquele comportamento de chupa-sangue. Mas ele explicou:

— Fazer o quê? O cara é uma aranha! Só falta botar ovo…

Amadeu ouviu. E, para provar que era mesmo o Aranha Branca, largou a bola no chão. Era só o que Mosquito estava esperando para se jogar e, de bico, mandar para o fundo do gol.

Nunca mais Amadeu quis saber de ser o Aranha. Mas também sua carreira acabou depois disso.

13/2/2005. Semifinais do campeonato carioca.

Confúcio disse

Flamengo, Fluminense e Vasco desembarcaram esta semana com a desculpa na ponta da língua. Não venceram na Copa do Brasil por causa das viagens. É verdade que os embarques e escalas são desgastantes. Mas time que é bom vai lá e vence.

Se eu fosse um saudosista poderia lembrar os tempos em que os mesmos Flamengo, Fluminense e Vasco surravam os apadrinhados da Arena no Brasileirão abarrotado de clubes. Mas não sou um saudosista, então os exemplos são presentes. Mas distantes.

Vejam o campeonato chinês, por exemplo. Quem reclama da Copa do Brasil não sabe o que é ir de Xangai a Kashi, quase na fronteira com o Paquistão. São mais de cinco mil quilômetros, coisa de fazer a viagem Rio-Teresina parecer um passeio de fim de tarde.

Pois da última vez que o Shenhua de Xangai (nada a ver com o parque de diversões na Penha, é bom deixar claro) foi enfrentar o Dragão de Kashi foi aquela maratona. Não sei quantas horas de avião, mais um trem, ônibus até a entrada da cidade e bicicleta para entrar no centro histórico. E alguém se abalou? Coisa nenhuma! Pelo contrário: foi só entrar em campo que o Shenhua jogou como todo grande deveria: partiu para cima, dominou as ações, sufocou o adversário.

Faltava fazer o gol. Porque o time da casa tinha uma defesa formidável: Ling, Ching, Ming e Ping, quatro gigantes que ganharam o apelido óbvio de Grande Muralha. E, por mais que tentasse, o ataque de Xangai não passava por ali. Se passava a bola, o jogador ficava.

Quem rompeu o bloqueio foi o lateral-esquerdo. Avançou pela ponta e, quando encontrou Ling, parou, fez uma reverência e disse:

— Quando se aponta para a lua, o tolo olha para o dedo.

Sabem como é chinês: você cita um provérbio de Confúcio e ele tem de responder com outro. E Ling não se fez de rogado:

— Suba a montanha como um velho para chegar ao cume como um jovem.

Ching, que vinha na cobertura, emendou:

— Sabedoria sem conhecimento é inútil, e conhecimento sem sabedoria é perigoso.

E assim ficariam a noite inteira se o lateral não tocasse para o centroavante entrar livre na área e fazer o gol da vitória. Dizem por aí que não tem mais bobo no futebol. Pois por isso mesmo é que é preciso ser mais esperto que antes.

20/2. Nos jogos da semana, cariocas têm maus resultados em seus jogos pela Copa do Brasil.

Na passarela

Prevaleceram o bom senso e a vontade do patrocinador no caso dos uniformes da Seleção Brasileira de vôlei. Quase sempre, na ânsia de invenbtar, dirigentes e estilistas que não entendem muito do assunto — e o assunto aqui é paixão — metem os pés pelas mãos. Como naquele uniforme do centenário do Boca, que mais parece camisa do River.

Mas é meio óbvio que isso aconteça. Experimente o leitor ir a um desfile de moda e jogar uma bola para o alto. Vai todo mundo correr, com medo de que aquilo morda. Fico imaginando, então, um desses figurões da Fashion Rio redesenhando os uniformes dos clubes.

— Vermelho e preto estão definitivamente out. O Flamengo é da Gávea, não é? Gávea é coisa de navio. Então, vai ser uma blusa toda azul, azul da cor do mar. E com uma faixa branca diagonal.

— Azul marinho com faixa branca? Mas não pode! Vai ficar parecendo o Vasco!

— Nananinanão, tolinho! O Vasco vai ser com-ple-ta-men-te diferente. Vamos explorar essa imagem de virilidade, vai ser uma roupa desconstruída, inspirada naqueles mendigos fashion dos subterrâneos de Paris. Um luxo.

— Espera. Camisa rasgada?

— Não é rasgada, querido, é desconstruída! Customizada, entendeu?

— Acho que não… mas o Botafogo pode ficar como está, não pode?

— Tudo bem, aquelas listas dão um certo charme vintage, mas…

— Vintage?

— É, retrô, antiguinho! Eu acho o Botafogo tão vintage… Precisa se modernizar. Vou pegar aquela estrela e espalhar pela camisa. Vão ser estrelas bordô, fúcsia, malva, turquesa e verde-amazonas. Tudo em fundo branco, pra manterum pé na tradição, claro.

— Fico só imaginando o que você vai fazer com o Fluminense.

— Ah, mas nem imagina. Um macacão com um cinto martingale afivelado para marcar a cintura. A cor eu ainda não decidi mas vai ser uma coisa meio changeant, furta-cor, sabe?

— Macacão? Não vai atrapalhar os movimentos?

— Um pouquinho só. Mais ou menos como as calças pantalonas  que eu estou desenhando para os outros. Bem largas.

— Mas assim não vai dar! Vai ser impossível jogar futebol!

— Ué, e que diferença vai fazer?

*

Melhor parar por aqui antes que algum cartola goste da sugestão.

27/2. Confederação Brasileira de Vôlei desiste dos uniformes cor-de-rosa apresentados dias antes por estilistas contratados.

Da Távola Redonda

O mundo seria um lugar bem melhor para se viver se, cada vez que dois ou mais países tivessem uma pendência, ela fosse resolvida não com uma guerra mas dentro de campo. Infelizmente é mais provável acontecer o contrário — como no fim dos anos 60, quando um jogo pelas Eliminatórias da Copa serviu de pretexto a uma guerra suja entre El Salvador e Honduras. Mas os diplomatas do mundo inteiro poderiam estudar essa possibilidade. Afinal, há um precedente.

Foi na Inglaterra, nos tempos do rei Artur. Um belo dia, estava ele reunido com seus cavaleiros em torno da famosa távola redonda quando chegou um emissário do rei da França, trazendo uma declaração de guerra. Artur, rei com nome de craque, alegou que sua nação estava cansada de mortandades e propôs que tudo fosse decidido em uma partida daquele novo esporte, o tal do futebol. Os franceses já achavam que eram os melhores do mundo, e aceitaram. Algumas semanas depois acontecia o primeiro jogo da História entre duas seleções.

Naquele tempo não havia estádios; o jogo foi disputado num campo improvisado, que a maior parte do tempo era usado para torneios de cavalaria. As regras também eram muito diferentes — isso foi antes da Fifa, da International Board e do Arnaldo César Coelho. Para se ter uma idéia, enquanto o adversário ainda estivesse respirando, com duas pernas e dois braços, juiz nenhum marcava falta. Por isso o equipamento era parecido com o do futebol americano de hoje: os jogadores entraram em campo com armaduras, capacetes, escudos, espadas, punhais, lanças, toda aquela parafernália.

Valia tudo na batalha pela posse de bola. E nada de gol, até porque depois de algum tempo ninguém mais se lembrava da bola. O tempo normal já estava quase acabando, quando um atacante francês, um dos poucos jogadores que ainda permaneciam de pé, chutou no canto. Seria o gol da vitória, se o goleiro inglês não tivesse a presença de espírito de, armando seu arco, disparar uma flechada certeira e furar a bola, que parou, murcha, a milímetros da linha.

Foi então que surgiu o bravo Lancelote. Espetou a bola na sua lança e arremessou-a contra a meta francesa. O goleiro francês ainda ergueu seu escudo, mas caiu dentro do gol com lança, bola e tudo. Inglaterra campeã.

Isso explica muita coisa. Por exemplo, por que os goleiros são chamados de arqueiros. Lancelote, provavelmente, foi o primeiro ponta-de-lança da História. E desde então o futebol é conhecido como violento esporte bretão. Mas nem por isso o Felipe precisava ter exagerado daquele jeito.

6/3. Dias antes, Felipe, do Fluminense, agredira com um soco um jogador adversário numa partida pela Copa do Brasil.

Parabéns, Mario

Aconteceu numa dessas noites em que fui o último a sair da redação. Já havia desligado meu terminal e estava apagando as luzes quando dei de cara com ele. A princípio, duvidei. Achei que era o busto de bronze, homenagem “dos desportistas do Brasil”. Mas logo lembrei que o busto não fica na redação, e sim no andar de cima. Sem contar que além do busto estavam ali o tronco, os braços e as pernas. Era ele mesmo, Mario Filho.

Confesso que engasguei. Jornalista está acostumado a falar com ídolos, mas era a primeira vez que um deles — um fantasma, ainda por cima! — vinha me procurar no jornal, e àquela hora.

— E então? Como está o nosso jornal? — ele perguntou.

— A situação está difícil. A gente tenta publicar boas notícias, mas para onde olha só vê escândalos de dirigentes, pernas-de-pau posando de craques… Não é mais como no seu tempo — resmunguei.

— Meu tempo? O meu tempo é hoje, garoto!

— Mas o senhor…

— Em primeiro lugar, pode usar “você”, porque eu sempre quis que o JORNAL DOS SPORTS fosse uma grande família.

— Está certo.

— E depois, não é só porque eu deixei o mundo dos vivos que não acompanho mais o futebol. Principalmente o do Rio.

— Então o senh… quer dizer, você vê que não é mais a mesma coisa. Não tem um Leônidas, um Zizinho.

— E daí? Leônidas, em 58, ficava o tempo todo criticando a Seleção. E naquela época muita gente achava que futebol bom era o antigo, o romântico, que havia acabado a graça. Pois eu digo que o romantismo pode ter acabado mas a graça do futebol não vai morrer nunca. Não enquanto existir o JORNAL DOS SPORTS para a torcida celebrar os seus heróis.

— Mas que heróis, mestre? Craque mesmo não sobrou um.

— Herói é mais do que isso. Veja esse menino do Flamengo, já vestindo a camisa 10. Veja as torcidas acreditando, enchendo o estádio do Maracanã…

— Estádio Jornalista Mario Filho — interrompi.

— …e gritando, cantando. Olha, este jornal só existe porque houve quem acreditasse no futebol brasileiro mesmo quando os críticos diziam que nós nunca seríamos campeões do mundo. Entendeu?

Fiz que sim com a cabeça. E depois disso ele sumiu, sem me ouvir dando os parabéns por esses 74 anos.

13/3. Jornal dos Sports completa 74 anos.

A Djanira

Dizia o filósofo que o coração tem razões que a própria razão desconhece. O filósofo, claro, não conhecia o futebol. Como acabou descobrindo certa vez o vascaíno Eduardo, quando se apaixonou pela Djanira.

E não era para menos. Afinal, Djanira era a morena mais bonita de Vicente de Carvalho. Talvez até de todo o Rio de Janeiro. Se bem que tinha também a Paulinha, de Coelho da Rocha. O quê? Ah, é verdade, Coelho da Rocha fica em Meriti. Então pronto: Djanira era a morena mais bonita da cidade. Mas Eduardo esbarrou num problema: a morena era rubro-negra. E para sair com ele exigia uma condição: que fosse com ela assistir a um jogo vestido com o sagrado manto rubro-negro.

Era crueldade. Mas a rubro-negra estava no seu direito ao exigir o máximo. Pensem em Romeu e Julieta, os amantes de Verona, que se mataram por amor. O máximo que enfrentaram foi a briga entre as suas famílias. Mata-se um Capuleto aqui, um Montéquio acolá, o que tem de mais? Mas imagine se isso acontecesse nos dias de hoje. Se Romeu fosse torcedor do Verona, e Julieta, do Chievo. Não haveria jeito.

Eduardo resistiu. Fez milhões de promessas, apresentou alternativas. Mas Djanira era inflexível. Até que o pobre vascaíno, lembrando-se com uma ponta de mágoa dos ex-ídolos que acabaram um dia beijando o escudo rival, capitulou. Num belo sábado encontrou Djanira e lhe mostrou um embrulho:

– Comprei. Vamos ao Maracanã amanhã mesmo. Qual é o jogo?

– Ué, você não sabe? Flamengo e Vasco!

A alma vascaína de Eduardo gelou. Ainda por cima, ter que torcer contra? Mas Djanira ria. Ele olhou a morena de alto a baixo. Valia a pena.

No dia seguinte, o vascaíno atrasou a ida ao estádio o quanto pôde. Fez questão de só chegar em cima da hora, com medo de que algum amigo o reconhecesse. Apesar do calor, vestiu uma jaqueta por cima da camisa do Flamengo, mas Djanira o obrigou a tirá-la quando entraram no estádio. Foi difícil vencer o velho hábito e ir para o outro lado. Mais duro ainda foi se acomodar no meio da nação rubro-negr.

Rolou a bola, o Flamengo atacou com perigo. Eduardo fez um “uh”, sem saber se aliviado ou frustrado por não ter sido gol. Mas o Vasco respondeu. Fez um a zero. Dois. Djanira se encolhia, ele a abraçava. Três a zero. Eduardo já nem olhava mais para o campo. Naquela noite, Djanira ficou morrendo de dor de cabeça. Mas Eduardo não reclamou.

20/3. Flamengo x Vasco pelo campeonato carioca.

Paixão e fé

Isso se passou numa cidade (cidade? não: na época, era no máximo um distrito) do interior do Rio, ali naquela área de Três Rios e Paraíba do Sul, perto da divisa com Minas Gerais. Talvez até tenha sido do lado de lá. Foi no tempo em que a Semana Santa mudava completamente a vida do lugar. Na Sexta-Feira da Paixão, o rádio só tocava música sacra, o cineminha passava filmes bíblicos e, se não fosse pela procissão parecia que o lugar estava morto. Futebol, nem pensar. Mas houve um ano em que um grupo de boleiros pensou. E tanto pensou que concluiu: era desperdício aquele feriado sem uma partidinha .

— Mas de que jeito? O vigário nunca vai deixar.

E o vigário, de fato, mandava ali mais do que coronel em novela baiana. Mas um sujeito um pouco mais criativo teve uma idéia:

— Já sei! Vamos fazer um Auto da Paixão. Um time se veste como Jesus e os apóstolos, o outro fica sendo o dos soldados romanos.

— Os apóstolos são doze — atalhou um pessimista. — Com Jesus, treze.

— E você não leu a Bíblia, herege? Judas traiu Cristo e Pedro O negou três vezes. Os dois vão reforçar o time dos romanos.

— Mas e a bola?

— A bola é um símbolo. Ela representa a Verdade. Entenderam?

Foram ao padre, expuseram a proposta e ele aceitou. Naquela tarde, logo depois da procissão, estavam os dois times em campo. Onze jogadores enrolados em lençóis que tinham virado túnicas, os outros onze com capacetes de lata.

Foi um jogo complicado. O time dos apóstolos estava todo enrolado com os lençóis. O barbudinho que fora escalado como Jesus tentava fazer a multiplicação das jogadas no meio-campo. Mas o time dos soldados romanos atacava e defendia em bloco. E só não deu um chocolate digno da Páscoa porque a arbitragem do vigário era parcial.

No finzinho, porém, não teve jeito. Judas invadiu a área, ia chutar mas o goleiro Tomé o segurou pelas pernas. O árbitro se viu obrigado a marcar o pênalti e expulsar o goleiro. E quem ia para o gol?

— Deixa comigo — disse o barbudinho. E se postou em cima da linha, de braços abertos. Olhou para os lados e viu as duas traves, feito cruzes de dois ladrões. Pilatos esfregou as mãos, tomou distância e bateu no canto. Mas o goleiro improvisado, milagrosamente, defendeu. Festa das beatas na arquibancada. E o  idealizador da pelada comemorou:

— Não falei? Só Jesus salva!

27/3. Domingo de Páscoa.

Inesquecível

Os repórteres Leandro Menezes e Pedro Ponzoni fizeram um trabalho admirável, recordando grandes Fla-Flus. Está lá nas páginas 6 e 7, acompanhado por crônicas magistrais de Mario Filho e Nelson Rodrigues. O mais difícil, no caso, foi decidir o que deixar de fora. Porque Fla-Flu é um pouco como beijo, samba-enredo ou filme: cada um tem o seu inesquecível.

Para um amigo rubro-negro, nada se compara ao de dezembro de 85, com o gol de Leandro no finzinho, evitando a derrota. Tudo bem que depois o Flamengo perdeu para o Bangu e o Fluminense acabou tricampeão. Mas ele e milhares de rubro-negros que foram ao Maracanã naquela noite de quarta-feira saíram como se tivessem  conquistado um título.

Foi o jogo em que Cantarelli saiu da área para cortar um lançamento, driblou Washington e, vendo-se na intermediária com a bola, mandou um chuveirinho sobre a área tricolor — Adílio completou de cabeça e quase empatou o jogo ali mesmo. Antes, o goleiro rubro-negro já tinha até cobrado um lateral.

Era pressão rubro-negra o tempo todo em cima do Fluminense. Mas nada de sair o bendito gol. Finzinho do jogo, Paulo Vítor foi tentar isolar uma bola que já tinha saído, para ganhar tempo. Furou e a torcida do Flamengo, que estava daquele lado, não perdoou. E tome pressão.

Quarenta e cinco minutos, ninguém arredava pé. E então a bola rebatida pela defesa foi parar no pé de Leandro, na meia-lua. Ele mandou de primeira;  a bola bateu no travessão, depois nas costas de Paulo Vítor, e entrou.

O meu amigo rubro-negro, que jura ter chutado aquela bola junto com Leandro, chorou. E até hoje ainda vêm lágrimas aos seus olhos quando ele fala daquele clássico. E explica por quê:

— Mesmo depois de o Fluminense ser campeão, com o Wright deixando de apitar um pênalti claro para o Bangu no último minuto, o Fla-Flu de 85 foi o jogo da minha vida. O que aconteceu depois não importa. Nunca importou. Quando eu quero esquecer os problemas do dia-a-dia, fecho os olhos e vejo outra vez a cena. Sempre me lembro da sensação de êxtase daquele instante. Foi a noite em que eu finalmente compreendi o verdadeiro significado de tudo. Eu descobri que o futebol pode ser maior do que a vida quando você vive a emoção do momento. A única coisa que existe no mundo é a euforia do gol.

E quem vai dizer que não?

3/4. Flamengo x Fluminense pelo campeonato carioca.

Combinado

Começa então a decisão do Carioca. Dois jogos no Maracanã, sob protestos do Voltaço, que alega estar em desvantagem por não poder jogar no Estádio da Cidadania. Vale o escrito. Mas às vezes é até possível tirar vantagem de jogar fora de casa.

Contam, por exemplo, que uma vez o Brás de Pina foi enfrentar o Grêmio Penhense. Na Penha. E ali era praticamente impossível um time de fora ganhar. A pressão era insuportável e rezava a lenda que a arbitragem acabava sempre ajudando os donos da casa.

Pois o presidente do Brás de Pina não se intimidou. E mandou descobrir tudo o que fosse possível sobre o Adalgiso, árbitro escolhido para apitar o clássico. Dossiê na mão, combinou a estratégia com o técnico e os jogadores.

Os dois times em campo, jogo para começar, o meia-direita Baião foi conversar com Adalgiso.

— Seu juiz, soube que o senhor também é um grande colecionador de selos — disse.

Era a pura verdade. O serviço secreto do Brás de Pina descobrira que o árbitro era um apaixonado pela filatelia. Falso, ali, só o súbito interesse de Baião pelo assunto. Coisa tão incomum que Adalgiso, surpreso, não se furtou a alguns minutos de conversa sobre o assunto. Combinaram que, no próximo jogo, os dois levariam suas coleções de selos.

O time do Penhense estava desconfiado daquela conversa animada. E o centroavante do Brás de Pina soltou o veneno:

— Eles estão só acertando os detalhes. O jogo está comprado.

O capitão do Grêmio Penhense foi perguntar ao árbitro que conversa era aquela. E ouviu a resposta:

— Estávamos falando sobre coleções de selos.

Era difícil de acreditar. Ainda por cima, logo no primeiro minuto, Baião, que sabia prender a bola, foi para cima do marcador e cavou uma falta. Adalgiso marcou. Ao se levantar, o meia falou bem alto, para todo o time do Penhense ouvir:

— Beleza, seu juiz. O trato está de pé.

Aí era demais. Serem roubados em sua própria casa, aos pés da padroeira, era coisa que os penhenses não podiam aceitar. Partiram para cima, com murros e pontapés. Adalgiso se viu obrigado a expulsar dois, na hora.

Com onze contra nove, ficou fácil. O Brás de Pina se segurou e ainda chegou ao gol da vitória num contra-ataque. E até hoje o Adalgiso ainda não viu a coleção de selos do Baião.

10/4. Fluminense x Volta Redonda, final do campeonato carioca.

Filosofia de botequim

Vai ser uma final empolgante, sem sombra de dúvida. Ainda mais depois do que aconteceu domingo passado. E a partir da próxima semana termos mais um longo Brasileirão por pontos corridos.

Dizem que é melhor assim por ser mais justo. Pois eu acho justamente esse o grande problema. A vida não é justa. O mundo não é justo. E o futebol também não é justo.

Quem sabia disso melhor do que ninguém era Albert, goleiro argelino, conterrâneo portanto do bom Tarabulsi e do craque Madjer. Oficialmente, ele abandonou o futebol por causa de uma tuberculose. Porém, talvez não tenha sido bem assim.

Ninguém registrou uma linha sequer sobre o seu último jogo, mas eu posso imaginar muito bem Albert fechando o gol do time da universidade. Noventa minutos suportando pressão adversária, agarrando todas, saindo da área com precisão, exibindo reflexos e agilidade. E, já aos quarenta e sete do segundo tempo, engolindo um frango. Daqueles que fazem a torcida xingar sem piedade.

Outro qualquer nem ligaria. Fingiria que nada aconteceu, culparia a zaga, diria que não falhou. Mas Albert? Sem chance. Obcecado pela verdade, ele recebeu ali a grande iluminação da sua vida. E, aproveitando a doença que o atingiria mais tarde, abandonou o futebol para se dedicar a um esporte menos traiçoeiro: a filosofia.

Passou a ser conhecido pelo sobrenome, Camus. E escreveu um livro chamado “O homem revoltado” para, depois de protestar contra Deus, o governo, o sistema e tudo o mais, concluir que o grande problema do mundo é a injustiça.

“Ele distribui sua ajuda e seus favores se quiser, quando quiser. O bel-prazer é um dos atributos da realeza”, ele escreveu. Teoricamente, falando sobre os reis. Na verdade, queixando-se do futebol. É fácil pensar em Camus, o filósofo, ainda magoado pela injustiça da bola com Albert, o goleiro. Aquela bola que estava nas suas mãos e escapou, maliciosa, indo parar no fundo do gol.

A bola é esse tirano que não obedece a lei alguma, entrega seus favores a quem quiser e esnoba os esforços daqueles a quem decidiu não favorecer. Hoje à tarde, no Maracanã, ela vai escolher o campeão. E a sua escolha não tem nada a ver com a justiça, os números, os retrsopectos. Por isso mesmo ninguém será capaz de tirar o olho de cima dela até o apito final.

17/4. Segundo jogo da final.

Xisto

O campeonato já estava para começar e nada de reforços. Foi quando o presidente apareceu com o tal Xisto. Quem?

— Xisto. Saiu do país muito cedo, por isso ninguém se lembra dele. Mas fez sucesso no Japão, foi até artilheiro lá. Estava muito bem, mas deu saudade da terra e ele resolveu que era hora de voltar.

Ninguém engoliu. Ainda mais quando descobriram que ele tinha sido artilheiro, sim, mas só do seu time. Que, por sinal, acabou rebaixado da segunda para a terceira divisão. Isso mesmo, no Japão.

Jogo de estréia, expectativa da torcida, e Xisto entra em campo mostrando-se mais sem-jeito que comentarista de futebol cobrindo o conclave no Vaticano. Um desastre. Chegou a ponto de os jogadores nem mais passarem a bola para ele.

Foram derrotas seguidas, e o Xisto sempre decepcionando. Caiu o técnico, e a primeira medida do sucessor foi barrar o reforço. O time melhorou um pouco, ganhou alguns joguinhos, mas não o suficiente. E logo estava de técnico novo outra vez.

Foi quando o Xisto reapareceu. De surpresa, porque tinha passado um bom tempo sumido, sem sequer aparecer para treinar. Treinamento especial, explicaram. E recuperou a vaga de titular, para desespero da torcida.

Mas era outro Xisto. Justificou a fama de artilheiro, de forma impressionante. Parecia feitiço: dentro da área, a bola batia nele e ia para o gol. De qualquer jeito: com o pé esquerdo, a cabeça, o peito, a canela.  No dia em que marcou os quatro gols na vitória sobre o maior rival, a torcida soltou o grito:

— É Seleção!

Tudo ia muito bem até o dia em que um zagueiro, vendo que o artilheiro ia marcar mais um, puxou-o pela camisa e completou o serviço com um pontapé no tornozelo. Os dois rolaram no chão e a falta foi tão violenta que Xisto ficou caído no gramado, com o uniforme todo rasgado. E todo mundo viu nas suas costas a inscrição “made in Japan”.

Tatuagem, apressou-se a esclarecer o presidente, enquanto Xisto era tirado de campo na maca. Mas logo surgiram os boatos. Xisto, na verdade, seria X-TO, protótipo de robô jogador de futebol desenvolvido por cientistas japoneses. Os mesmos que inventaram o cachorro-robô. A teoria nunca foi comprovada, no entanto, inclusive porque Xisto nunca mais jogou. E até hoje o time sente a falta de um artilheiro como ele.

24/4. Clubes tentam contratar reforços para o campeonato brasileiro.

Portões fechados

Desta vez foi ele quem me procurou. Meu amigo Miguelito, alvinegro dos pés à cabeça, estava desesperado. Não sabia mais o que fazer para conseguir entrar no estádio hoje e ver Botafogo x Corinthians.

Tentou uma vaga de macário, não conseguiu. Auxiliar de câmera, também não. Gandula, nem pensar. Já tendo passado há muitos anos da idade para ser mascote, veio me perguntar se seria possível credenciá-lo como repórter. A ética jornalística me impediu.

Não fosse Miguelito, como digo, alvinegro dos pés à cabeça, estaria roxo de raiva e verde de indignação com o regulamento que impõe os portões fechados. Houvesse o jogo sido transferido para o Pacaembu, o Vivaldão ou o Estádio Azteca, ele encontraria um jeito de ir. Vestiria uma camisa do Flamengo, se essa fosse a condição. Mas pela primeira vez viu-se proibido de torcer pelo Botafogo.

Aliás, de fato há coisas que só acontecem ao Botafogo: vai jogar para ninguém ver e assim mesmo será recorde de público do estádio.

— E qual é a graça de um jogo sem torcida? Isso só pode ter sido inventado por quem nunca foi a uma arquibancada! — ele esbravejava. — E eu fico aqui, babando como um… um…sei lá.

Como um cachorro diante de um forno de padaria, vendo os frangos assados, pensei. Mas não disse nada, porque falar de cachorro perto de botafoguense pode acabar em confusão. Em vez disso, procurei uma saída.

— Por que você não tenta alugar uma varanda perto do estádio? Minha madrinha morou um tempo num prédio na Portuguesa de onde dava para ver perfeitamente um dos gols. É melhor do que nada — sugeri.

Mas Miguelito estava irredutível. Não basta ver 70% do jogo. E de longe, ele explicou, não adianta. É preciso estar presente, torcer. Se não, corre o risco até de acontecer o pior.

— O Botafogo perder?

— Não fale uma coisa dessas!

— Bem, tem um jeito. Mas é meio complicado…

Não cheguei a dizer, mas pensei alto. Alto o bastante para um alvinegro fanático ouvir e se agarrar ao menor fio de esperança que aparecesse.

— Faço qualquer coisa! — ele disse.

Então, é isso. Se no meio do jogo aparecer um helicóptero sobrevoando o estádio e um maluco estiver pendurado, gritando “Tira o Caio, Gusmão!”, vocês já sabem que é o Miguelito.

1/5. CBF obriga Botafogo a jogar com o estádio vazio.

Padecer no paraíso

Bem que Lineu tentou evitar. Todos os jogos, menos aquele. Todos os domingos, menos aquele. Mas não teve jeito. Estava escalado para ser o árbitro e não haveria mais o que discutir.

Na véspera, ele foi procurado por representantes da torcida. Chegaram dizendo que estavam procurando um acordo:

— Nós respeitamos o Dia das Mães e prometemos que não vamos falar nada da sua. Mas o nosso time tem que ganhar. Se não, depois do jogo, vamos para a frente da sua casa para levar o nosso protesto.

Lineu gelou. Sabia exatamente de que protesto estavam falando. E mal dormiu na noite de sábado, pensando em dona Lindalva, sua mãe.

Domingo de sol e filas nas churrascarias, Lineu sem o menor apetite. Engoliu o almoço e foi para o estádio. O time da casa ganhou o cara-ou-coroa — bom sinal, pensou — e começou o jogo.

Foi duro, movimentado, cheio de jogadas de perigo dos dois lados. mas nada de gol. Aos quarenta do segundo tempo, o time da casa foi ao ataque. O centroavante recebeu o lançamento à frente da zaga, dominou a bola, girou o corpo e chutou no canto. A arquibancada veio abaixo.

Se Lineu tivesse pensado, talvez agisse de outra forma. Mas o gesto foi automático. Viu o bandeirinha marcando o impedimento e apontou para o meio da área, anulando o gol. E ainda expulsou o centroavante, quando ele veio reclamar.

Para espanto de todos, porém, a torcida ficou em silêncio. Nem um pio de reclamação. Mas Lineu, nos cinco minutos seguintes, quando olhava para a arquibancada parecia ver em cada rosto uma ameaça. Não ia ficar assim.

Encerrou o jogo (zero a zero!), tomou banho e foi para casa, coração aos pulos. Não sabia o que fazer para encarar a mãe.

Chegando lá, porém, encontrou a maior festa. Os torcedores, em vez de xingar, estavam tomando refresco e comendo biscoitos, ao lado de respeitáveis senhoras.

— Eu sabia de tudo, filho. Então chamei essas senhoras para uma reuniãozinha aqui em casa, viu? Elas ficaram tão felizes quando viram todos esses meninos chegando! É verdade que um deles tinha a boca suja, mas a mãe dele resolveu tudo com um puxão de orelhas e depois disso todos se comportaram direitinho — disse dona Lindalva.

Mãe é assim. A minha reclama quando não gosta da coluna, por exemplo. A todas elas, um ótimo domingo.

8/5. Dia das mães.

Bola no além

Dizem que aconteceu há muito tempo no Irajá, onde havia um campinho de pelada bem perto do cemitério. Sexta-feira à noite, o pessoal batendo uma bolinha, apareceu um cara que era da turma mas trazendo a tiracolo o cunhado. Cunhado não adianta: é sempre ruim de bola. Mas como faltava um para completar o time ele ficou ali, fazendo número, fingindo que jogava. Até uma bola sobrar limpinha na sua frente, na cara do gol. Ele não teve dúvida: encheu o pé e… o chute saiu todo torto, a bola foi pra longe, por cima do muro do cemitério. Era meia-noite.

— Agora vai lá buscar — disseram todos. Ele baixou a cabeça, pulou o muro e voltou tremendo. Sem a bola, o que era pior.

— Fan-fan-fantasmas — gaguejou. — Tem fantasmas brincando com a bola.

Claro que ninguém acreditou. Fizeram o pobre coitado voltar, mas ele não ia sozinho por nada. Outros dois foram com ele e viram. Lá estavam os fantasmas numa animada roda-de-bobo, no meio dos túmulos.

— Ei, a bola é nossa. Devolve — pediu o mais corajoso dos três.

— Não mesmo. Sabe há quanto tempo eu não jogo? Caiu aqui, já era.

Começaram a discutir quem tinha razão, quem não tinha, até um outro fantasma propor um desafio. Uma partida de três: quem ganhasse o jogo ficava com a bola. Que, eu não disse, era de couro, novinha.

Formaram os dois times e começou o jogo. Os vivos, mais entrosados, com ritmo de jogo, logo fizeram dois a zero. Mas aos poucos os fantasmas mostravam as suas qualidades: eram rápidos, entravam nas divididas sem medo, quando driblavam parecia até que passavam por dentro dos marcadores. E não se cansavam. Os vivos já estavam mortinhos, tinham substituído todos os jogadores, e os fantasmas em cima.

Dois a um. Dois a dois. O goleiro se vendo obrigado a fazer milagre. E de repente a bola sobra logo para quem? Para o cunhado! Ele tentou matar no peito, errou e sem querer deu um lençol no fantasma que vinha desarmá-lo. Estava sem ângulo, mas assim mesmo chutou. Mais torto ainda que da primeira vez, mas a bola desviou no montinho-artilheiro e foi na direção do gol. O goleiro estava atento, mas se embolou com um zagueiro e a bola entrou no canto. Três a dois para os vivos, o cunhado virou herói do jogo e os fantasmas voltaram ao velho caveirobol.

Dizem que foi daí que nasceu a expressão “gol espírita”. Para o Flamengo ganhar hoje, acho que só mesmo com um desses.

15/5.

Luz, câmera, propina

A notícia da semana, é claro, vem de Cannes, onde “Pelé Eterno” ganhou um dos prêmios paralelos ao festival de cinema e o Rei anunciou seu novo projeto. Quer produzir um filme revelando a corrupção no futebol. Eu, modestamente, apresento minhas sugestões para o roteiro.

Cena 1. Externa. Campo de treinos. Técnico orienta o coletivo. Chegam empresário e dirigente.

— Assim não dá, Mendonça. Já foi a maior dificuldade trazer o Fulaninho Paulista e ele fica no banco?

— Ele não se encaixa no esquema 3-1-4-2 que eu implantei.

— Mas ele precisa jogar… se não fica difícil promover a carreira dele.

— É a minha filosofia de trabalho e não vou admitir interferência.

— Você leva dez por cento.

Técnico apita e chama os jogadores. Tira o colete de titular do garoto dos juniores e entrega a Fulaninho:

— Você é o novo número 1.

*

Cena 16. Interna. Redação de jornal. Dois jornalistas.

— Urra, meu. Lembra do Fulaninho Paulista? O assessor mandou um e-mail dizendo que ele é artilheiro do campeonato albanês!

O outro se aproxima e lê o texto.

— Mas da segunda divisão…

— E daí? Tem um espaço vazio na página 25, bota lá.

*

Cena 33. Interna. Gabinete do presidente do clube. Fulaninho Paulista dá entrevista coletiva.

— Fulaninho, como você vê essa volta ao Brasil?

— Pois é, lá na Albânia gostaram muito de mim, mas não me adaptei à cultura. Agora estou realizando um sonho de infância e o grande desejo do meu pai, que queria me ver jogando com a camisa do… do…

Empresário cochicha algo.

— Isso, do União Tatuapé.

*

Cena 47. Pacaembu lotado. Fulaninho entra na área, é desarmado e se joga. O árbitro marca pênalti e expulsa o zagueiro. Ele mesmo bate… no meio do gol. O goleiro defende. O árbitro manda repetir e discute com o goleiro, que nem se mexe na segunda cobrança. Gol. A torcida grita:

— Fulaninho é Seleção!

*

Cena 82. Interna. Avião. Fulaninho e seu empresário.

— E mais uma coisa: trate de brigar logo com o técnico.

— Por quê?

— Porque então da Espanha a gente vai para a Inglaterra e eu ganho mais uma comissão.

*

Vai por mim, Pelé. É Oscar.

22/5.

A luta continua

Nem Sócrates, nem Afonsinho, nem Vladimir. O jogador mais combativo que vi na defesa dos direitos da categoria foi Dicão.

Extrema-esquerda, como não poderia deixar de ser, Dicão uma vez comandou uma greve de jogadores. Não lembro se o caso era direito a férias ou aumento salarial, mas ele peitou os cartolas e disse que ninguém entraria em campo. Mostraram a ele o contrato. Estavam todos obrigados a jogar naquele domingo.

Na hora marcada, portanto, entraram em campo, conforme os cartolas exigiam. E ficaram de braços cruzados.

O adversário não acreditou. Deu a saída de bola e foi mais fácil que treinar contra um time de postes. Bola de pé em pé até o gol — para não dizer que o goleiro nem se mexeu, ele até saiu da frente.

Nova saída de bola,  Dicão mandou a bola para o campo adversário. Mas antes fez um pequeno discurso, conclamando os adversários a unirem-se ao seu protesto. E puxou a palavra de ordem, repetida em coro pelos companheiros:

— O craque unido jamais será vencido!

Entre a solidariedade aos colegas de profissão e a possibilidade de uma goleada histórica, os jogadores do outro time mostraram que também tinham consciência social. E a cena foi de fazer chorar o meu amigo Marlos, que só não lutou na Revolução Cubana porque não era nascido na época. Vinte e dois jogadores postados de pé, ignorando a bola e cantando juntos a Internacional. É verdade que na altura do “Não mais deveres sem direitos”, a torcida abandonou o estádio, furiosa. Mas Dicão organizou uma pelada entre os dois times, no dia seguinte, para todo mundo ver de graça. Sem árbitro nem dirigente.

Dicão acabou vendo suas exigências sendo atendidas, mas depois disso nunca mais conseguiu contrato em clube algum, e viu-se obrigado a desistir do futebol. Tentar a política, naquela época de ditadura, era impossível. Dizem que partiu para o Araguaia e nunca mais foi visto.

*

Como admirador da coragem de Dicão, não posso deixar de apoiar Ronaldinho na sua justa reivindicação de tirar férias em vez de disputar mais uma irrelevante Copa das Confederações. E ficaria mais a favor ainda se o Fenômeno se empenhasse pelos direitos de todos os jogadores, em vez de apenas pelo seu.

29/5. Ronaldinho pede dispensa da seleção brasileira para poder tirar férias.

Na fronteira

Na fronteira não existia amistoso e todo jogo era clássico. Era sempre o time dos brasileiros contra o dos argentinos. E a tensão só aumentava desde a construção de um estádio sobre a linha divisória, com cada lado do campo num país. Gol, ali, era praticamente um incidente diplomático. Até o cara-ou-coroa podia dar confusão, se os ânimos estivessem um tantinho mais exaltados que o normal.

Houve uma ocasião em que o time dos argentinos era muito superior. O único craque dos brasileiros tinha deixado a cidade para estudar Medicina na capital. A derrota era certa; só faltava saber de quanto.

— Mas não é possível! Ainda mais porque vamos jogar em casa! — protestou um brasileiro, numa das muitas discussões nos dias que antecederam o jogo, nas esquinas da cidade. De fato, era Brasil x Argentina. O estádio não mudava, mas a arbitragem e o policiamento eram do lado de cá.

— Pode deixar — respondeu Maneco, um meia que tinha sido o herói da última vitória “fora de casa”, tempos atrás. O veterano, que estava escalado e seria o capitão do time, tinha um plano. Mas guardou-o em segredo até o dia do jogo.

Ao entrar em campo, Maneco fez questão de cumprimentar o goleiro Briglia, capitão dos argentinos. E foi lisonjeiro:

— Essa é de vocês, não tem jeito. Só não vão nos humilhar, por favor — pediu.

— Bobagem, vai ser equilibrado — respondeu o goleiro, fingindo modéstia.

— Duvido. Vocês podem não ter tanta habilidade, mas raça é o que não falta — disse Maneco, e afastou-se antes que o adversário respondesse.

Os argentinos fizeram uma rápida reunião do outro lado do campo. Pareciam exaltados. “Morderam a isca”, pensou Maneco. E quando a bola rolou, os argentinos só queriam saber de tocar de calcanhar, passar a bola por baixo das pernas, tocar de letra. Os brasileiros, bem instruídos, não entraram na deles. E seguraram o 0 a 0 até Maneco roubar a bola de um adversário que tentava uma firula no meio do campo e perceber que Briglia estava adiantado. Mandou dali mesmo, por cobertura. Gol.

— É nossa vez agora! — disse. E de fato os argentinos, afobados, entraram na roda. Até a hora em que um deles não aceitou bem um drible e fez uma falta violenta. O pau comeu e futebol, naquele dia, não teve mais.

Pois é. Quarta-feira, o jogo é lá.

5/6. Expectativa para Argentina x Brasil.

Uma resposta para “Domingadas

  1. Essa desgraça não tem o q eu queria

    R. Você queria uma desgraça maior?

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