Arquivo da categoria: Vida de barnabé

Repartição Blues

hermes.jpg – Essa empresa fechou. E agora, arquiva o processo?
- Não pode. Tem que ver quem assumiu a responsabilidade.
- Como faz isso?
- Olha o distrato.
- Já olhei, só diz que Fulano fica com a guarda dos livros. E agora?
- Não sei. Não entendo muito de distratos.
- Nem eu. Só entendo de maus-tratos, sofri muitos nesta vida.

(Segunda-feira, cada ato administrativo é um drama.)

Discutindo a regulação

hermes.jpg – Temos que ver quais são os critérios de rejeição.
- Pois é. Pra mim, se tiver erro, tem que rejeitar.
- Mas não pode ser assim. Tem que ver qual é o tipo de erro. Dentro de uma certa margem, dá para aceitar e corrigir mais para a frente.
- Eu sou contra. A obrigação é vir sem erro.
- Se você insistir nisso, nunca vai ter nada. Precisa baixar o nível de exigência.

E a essa altura do diálogo eu já não sabia mais se a reunião era sobre normas administrativas ou sobre relacionamentos. Acho que no fundo deve ser a mesma coisa.

Discutindo o papel do Estado

papel

hermes.jpg – Acho que esse novo papel não é recomendável para líquidos quentes.
- Tem razão. Não podemos aquecer o mercado.
- Aí fica a questão: se é pequeno para água e inadequado para café, o papel da agência fica reduzido.
- De fato. Onde pode atuar, é pequeno para a demanda.
- Ainda corre o risco de se queimar.
- Ou pior, de molhar a mão do funcionário.
- Aí o papel vai pro ralo!

(Obrigado, Leandro!)

Noite na repartição

hermes.jpg O OFICIAL ADMINISTRATIVO:
Papel,
respiro-te na noite de meu quarto,
no sabão passas a meu corpo, na água te bebo.
Até quando, sim, até quando
te provarei por única ambrosia?
Eu te amo e tu me destróis,
abraço-te e me rasgas,
beijo-te, amo-te, detesto-te, preciso de ti, papel, papel, papel!
Ingrato, lês em mim sem me decifrares.
O corpo de meu filho estava amortalhado em
papel,
em papel dormiam as roupas e brinquedos, em papel os doces
do casamento. Em grandes pastas os rios, os caminhos
se deixam viajar, e a diligência roda
num chão fofo, azul e branco, de papel escrito.
Basta!
Quero carne, frutas, vida acesa,
quero rolar em fêmeas, ir ao mercado, ao Araguaia, ao amor.
Quero pegar em mão de gente, ver corpo de gente,
falar lingua de gente, obliviar os códigos,
quero matar o DASP, quero incinerar os arquivos de amianto.
Sou um homem, ou pelo menos quero ser um deles!

O PAPEL:
Tu te queixas…
Distrais-te na queixa e a mágoa que exalas
é perfume que te unge, flor que te acarinha.
Dissolves-te na queixa, e tornado incenso, halo, paz
te sentes bem feliz enquanto eu sem consolo
espero tua brutalidade
sem a qual não vivo nem sou.
Teu escravo, isto sim, tua coisa calada,
teu servo branco, tapete onde passeias e compões.
Tu me fazes sofrer, bicho implacável mais que a onça
o é para o galho que pisa.
Por que não sou sem ti? Por que não existo, como as árvores,
por conta própria?
Sou apenas papel, e teu misterioso poder
me oprime e suja.
E te revoltas…
Quisera dizer-te nomes feios independente de tua mão.
Que as palavras brotassem em mim, formigas no tronco,
moscas no ar; viessem para fora em caracteres ásperos,
crescessem, casas e exércitos, e te esmagassem.
Homenzinho porco, vilão amarelo e cardíaco!
(Avança para o burocrata, que se protege atrás da porta.)

A PORTA:
De tanto abrir e fechar perdi a vergonha.
Estou exausta, cética, arruinada.
Discussões não adiantam, porta é porta.
Perdi também a fé, e por economia
irão, quem sabe, me transformar em janela
de onde a virgem
enfrenta a noite
e suspira.
Seu ai de dentifrício americano cortará o céu
e me salvará.
Talvez me tornem ainda gaveta de segredos,
bolsa, calça de mulher, carteira de identidade,
simples alecrim, alga ou pedra.
Sim: é melhor pedra.
Dói nos outros, em si não.
Uma pedra no coração.

A ARANHA:
Chega!
Espero que não me queiras nascer um simples vaga-lume.
Fica quieta, me deixa subir
e fazer no teto um lustre, uma rosa.
Sou aranha-tatanha, preciso viver.
A vida é dura, os corvos não esperam,
ouço os sinos da noite, vejo os funerais,
me sinto viúva, regresso à Inglaterra,
a aranha é o mais triste dos seres vivos.

O OFICIAL ADMINISTRATIVO:
Depois de mim, é óbvio.
Sou o número um – o triste dos tristíssimos.
A outros o privilégio
de embriagar-se. Non possumus.

A GARRAFA DE UÍSQUE:
Não pode?

O GARRAFÃO DE CACHAÇA:
Não pode por quê?

O COQUETEL
Experimenta. Sou doce. Sou seco.

TODOS OS ALCOÓIS:
- Me prova! me prova!
É a festa do rei!
É de graça! de graça!
Me bebe! me bebe!

O OFICIAL ADMINISTRATIVO:
Mas se eu não sei beber. Nunca aprendi.

O PAPEL:
Ele não sabe que o artigo 14
faculta pileques de gim e conhaque;
mal sabe ele que o artigo 18
autoriza porres até de absinto;
como ignora que o artigo 40
manda beber fogo, cicuta, querosene;
que por motivo de força maior
cobre derretido se pode sorver;
se pode chegar ébrio na repartição,
se pode insultar o ícone da parede,
encher de vermute o tinteiro pálido,
ensopar em genebra velhos decretos
e nos casos tais e em certas condições…
Ele não sabe.

A TRAÇA:
Que burro.

OS ALCOÓIS:
Sua alma sua palma
seu tédio seu epicédio
sua ftaqueza sua condenação.
Somos o cristal, o mito, a estrela,
em nós o mundo recomeça,
as contradições beijam-se a boca,
o espesso conduz ao sutil.
Somos a essência, o logos, o poema.
Brandy anisette kümmel nuvens-azuis
cascata de palavras…

A ARANHA:
Não me interessa.

O OFICIAL ADMINISTRATIVO:
Para beber é preciso amar.
Sinto-me tarde para aprender.

O PAPEL:
Ele não sabe que a paixão amor
segundo reza o artigo 90…

A TRAÇA:
É uma zebra.

O TELEFONE:
Amor?
Através de mim os corpos se amam,
alguns se falam em silêncio,
outros chamam e não agüentam
o peso e o amargor da voz.
Inventaram-me para negócios,
casos de doença e talvez de guerra.
Mas fui derivando para o amor.
Como sofro! Todas as dores
escorrem pelo bocal,
deixam apenas saliva…
Cuspo de amor fingindo lágrimas.

A TRAÇA:
Namorar na hora do expediente!

O OFICIAL ADMINISTRATIVO:
Não resolve. Nada resolve.
O mesmo revólver resolverá?
Amor e morte são certidões,
fichas…

A TRAÇA:
Despachos interlocutórios.

A ARANHA:
Lavrados na minha teia.

AVASSOURA ELÉTRICA:
Senhores deputados, desculpem. Sinto que é hora de varrer.
(Põe-se a varrer furiosamente, a porta cai com um gemido, as garrafas
partem-se, escorrem líquidos de oitenta cores. O oficial administrativo
tira os processos da mesa da direita, jogando fora o processo de cima e
colocando os demais na mesa da esquerda. Em seguida, retira-os desta
última e volta a depositá-los na mesa da direita, sempre atirando fora o
volume que estiver por cima. E assim infinitamente. Do garrafão de
cachaça desprende-se uma pomba, e paira no meio da sala, banhada em
luz macia.)

A POMBA:
Papel, homem, bichos, coisas, calai-vos.
Trago uma palavra quase de amor, palavra de perdão.
Quero que vos junteis e compreendais a vida.
Por que sofrerás sempre, homem, pelo papel que adoras?
A carta, o oficio, o telegrama têm suas secretas consolações.
Confissões dificeis pedem folha branca.
Não grites, não suspires, não te mates: escreve.
Escreve romances, relatórios, cartas de suicídio, exposições de
motivos,
mas escreve. Não te rendas ao inimigo. Escreve memórias, faturas.
E por que desprezas o homem, papel, se ele te fecunda com
dedos sujos mas dolorosos?
Pensa na doçura das palavras. Pensa na dureza das palavras.
Pensa no mundo das palavras. Que febre te comunicam. Que
riqueza.
Mancha de tinta ou gordura, em todo caso mancha de vida.
Passar os dedos no rosto branco… não, na superficie branca.
Certos papéis são sensíveis, certos livros nos possuem.
Mas só o homem te compreende. Acostuma-te, beija-o.
Porta decaída, ergue-te, serve aos que passam.
Teu destino é o arco, são as bênçãos e consolações para todos.
Pequena aranha pessimista, sei que também tens direito ao idílio.
Vassoura, traça, regressai ao vosso comportamento essencial.
Telefone, já és poesia.
Preto e patético, fica entre as coisas.
Que cada coisa seja uma coisa bela.

O PAPEL, A VASSOURA, OS PROCESSOS,A PORTA, OS CACOS DE
GARRAFA, surpresos:
Uma coisa bela?

A POMBA, no auge do entusiasmo, tornando-se, de branca, rosada:
Uma coisa bela! uma coisa justa!

A TRAÇA:
Precisarei adaptar-me…
Só roerei belas caligrafias.

CORO EM TORNO DO OFICIAL ADMINISTRATIVO:
Uma coisa bela. Uma coisa justa.

O oficial administrativo soergue o busto, suas vestes cinzentas tombam,
aparece de branco, luminoso, ganha subitamente a condição humana:
Uma coisa bela?!..


Carlos Drummond de Andrade. Nunca se pode errar com Drummond. Orgulho e glória do funcionalismo nacional.

143, 144, 145, 146…

hermes.jpg O pessoal com mais tempo de serviço (“idade”, em funcionalês) talvez se lembre de “Quem está guardando essa erva?” (“Who’s minding the mint?”), comédia de 1967 com Milton Berle. Jim Hutton faz o papel de Harry Lucas, um funcionário da casa da moeda americana que enfrenta a dura marcação do seu chefe, Samson Link (David J. Stewart) e por causa de um descuido acaba tendo que imprimir dinheiro às escondidas para cobrir um desfalque.

Logo no começo, Link desconfia (equivocadamente) de que alguma coisa está errada e ordena uma auditoria nos arquivos de Lucas. O auditor responsável não só constata a total lisura do funcionário como elogia seus números, ressaltando como os quatros são desenhados nitidamente diferente dos noves, por exemplo, o que é deveras importante, porque afinal, nove é cinco a mais do que quatro; já alguns outros servidores, aponta (e aqui fica a insinuação de que a crítica é ao próprio Link) são descuidados, fazendo quatros que parecem noves.

Claro, esse filme é do tempo em que relatórios eram feitos na mão. Hoje, trabalhando nos seus computadores (aqui ou nos EUA), ninguém dá mais tanta importância a desenhar quatros que não se confundam com noves. Até cair na sua mão um processo de duzentas páginas que precisam ser carimbadas e numeradas uma a uma.

Lá pela página 143, quando você mesmo não entende que número é aquele que escreveu, vem a sensação de que curso de Caligrafia deveria contar como capacitação.

Estamos de luto

O negócio é que desse jeito vai ficar complicado para cumprir as metas semestrais de bom astral.

É o relatório.

Sistemático

hermes.jpg Ainda na adolescência, você se revolta contra as injustiças, a programação da TV e a aula de Educação Física. Então começa a perceber que existe um padrão, e que os pequenos e grandes problemas do seu cotidiano fazem parte de algo maior. É quando você descobre que a culpa é do Sistema.

Você cresce à base de punk rock, acreditando que precisa derrubar o Sistema. Mais do que isso, que você efetivamente vai derrubar o Sistema.

Você começa a trabalhar, precisa se sustentar, pagar as contas. Quando se dá conta, foi o Sistema que derrubou você.

Você estuda, passa num concurso, toma posse no serviço público. Agora você faz parte do Sistema. Você é o Sistema, de certa forma.

Então um belo dia tudo dá errado. E você descobre que o que realmente atrapalha não é o Sistema. É o sistema, aquele que caiu e que o pessoal da TI não consegue consertar. E você fica xingando quem ou o que quer que tenha derrubado o sistema.

Para sua elevação

hermes.jpg O que eu mais gostei de ver na reforma dos elevadores da repartição foi o painel eletrônico. Além de informar o andar, a data e a hora (com menos de dez minutos de diferença entre o elevador da esquerda e o da direita), ele transmite mensagens de incentivo, pílulas de auto-ajuda oferecidas entre o térreo e a administração. É certamente relevante aprender que ao meu lado “está um colega, não um competidor”, e ser lembrado da missão institucional. Ainda assim, estou pensando em elaborar uma lista de sugestões para melhorar o conteúdo. Por exemplo:

“Não faça do carimbo uma arma: a vítima pode ser você.”

“Seu papel é importante, e sua papelada ainda mais.”

“Enquanto há prazo processual, há esperança.”

“Mais vale um processo arquivado do que dois tramitando.”

E a de maior impacto:

“Melhor subir pela escada. Vai que esse elevador enguiça de novo.”

Análise de Impacto

hermes.jpg O presente estudo objetiva apontara melhor forma de conduzir análises de impacto das ações a serem adotadas por este órgão.

Em que pese a excelência das recomendações da OCDE e da União Europeia, baseadas em diversas experiencias e estudos teóricos, tendemos a acreditar que a previsão de efeitos dos atos administrativos sobre os agentes privados não é uma ciência exata, podendo conduzir a distorções das mais diversas ordens. Sendo assim, propomos uma abordagem derivadada Física, disciplina capaz de fornecerrespostas mais precisas.

Das diversas teorias físicas existentes, optamos pelo modelo de Multiverso, segundo o qual a cada ação executada por um dado agente surgem dois universos paralelos, ou seja, aquele em que a ação foi efetivamente tomada e aquele em que optou-se pela inação.

Assim sendo, a melhor e mais precisa metodologia para avaliar o impacto das ações sobre a sociedade, particularmente nos casos em que surgem múltiplas opções, seria avaliar, de cada um dos universos paralelos, em qual deles se obteve o melhor resultado em situação semelhante.

Para tanto, encaminha-se a recomendação de elaboração de nota técnica, a fim de viabilizar a licitação para contratação de serviço de abertura de wormholes com o fim de inspeção de universos paralelos.

Como plano de contingência, na eventual impossibilidade de contratação do referido serviço, recomenda-se que a opção seja sempre pela inação, já que, em algum dos universos possíveis, esta terá sido a melhor opção.

Passamos à análise custo-benefício:

A fiscalização mais bonita da cidade

hermes.jpg Relator
Esse é o auto de infração
Não tem mais reparação
Instrução não é tão simples quanto pensa
Ela tem que demonstrar a procedência
Cabe o detentor
Cabe uma defesa inteira
Quase sempre é choradeira
Cabem sanções
E vai para o relator

James H. Boren

hermes.jpg Só ontem fiquei sabendo que no último dia 24 de abril morreu o ex-funcionário e humorista americano James H. Boren (1925-2010). Ele foi o fundador e grande ideólogo da INATAPROBU, a Associação Internacional de Burocratas Profissionais.

À frente da Associação, Boren estabeleceu os parâmetros de funcionamento para todos nós, resumidas em seu lema: “quando na chefia, pondere; em apuros, delegue; na dúvida, murmure”. Também foi dele a definição de que “a burocracia é o cimento que lubrifica as engrenagens do governo”. Enfim, um homem de visão e sabedoria.

Cabe a todos nós seguir seu exemplo e continuar a cumprir a sagrada missão de “evitar os erros impedindo a ação progressiva”.

Arquive-se em paz.

E nem feijoada

hermes.jpg Da série “tudo o que sei de importante aprendi no serviço público”:

Se algo tem pé de porco, rabo de porco, focinho de porco, orelha de porco, grunhe como porco e fede como porco, então é porco. Desde que tenha selo de porco emitido pela Receita Federal. Se não tiver, definitivamente não é porco.

Pelo telefone

hermes.jpg “Alô? Pode me tirar uma dúvida sobre legislação? É que a lei que trata da ovinocultura define ‘carneiro’ como ‘animal quadrúpede da espécie Ovis aries‘. Mas o meu carneiro perdeu uma perna, então ele deixou de ser quadrúpede. Para efeitos legais, ele continua sendo carneiro?”

Opções de resposta:
(a) Explicar que a lei deve ser interpretada de forma sistêmica, e não literal, e portanto o carneiro continua sendo carneiro.
(b) Dizer que não, a lei não reconhece a existência de carneiros trípedes. E nem bípedes, se você observar bem.
(c) “Quatro pernas bom, três pernas ruim”.
(d) Transferir o telefonema para a Ouvidoria.

Resposta “d”, sem um segundo de hesitação.

Definições

hermes.jpg – Temos um problema. A proposta de nova instrução para entrega de requisições diz que elas devem ser deixadas na portaria.
- Sim, e daí?
- Não pode. Pelas definições adotadas aqui, portaria é um é um “ato administrativo que estabelece os procedimentos internos da Administração Pública”.
- Sim, mas isso se refere a portaria como norma. Nós estávamos falando de portaria como local. Ninguém vai confundir uma coisa com a outra.
- Não interessa. Todos os nossos documentos precisam seguir a padronização de definições. Portaria só pode ser ato administrativo. Se não, todo o sistema integrado entra em colapso.
- O que vamos fazer então? Não podemos mandar deixar as requisições, sei lá, na porta.
- Hm, pode ser uma solução. É só definirmos porta como se fosse portaria.

(Eu exagero. Mas só um pouco.)

Aprende, Gafanhoto…

hermes.jpg Você se esforça para dominar toda a arte da papelada. Você decifra os códigos secretos dos formulários, dos modelos de ofício, dos memorandos. Você identifica um processo arquivado pelo cheiro. Você carimba e numera as folhas sem sequer olhar. Você acredita que se tornou um verdadeiro burocrata.

Então, quando pede financiamento no banco, descobre que precisa de certidão de nascimento atualizada e declaração negativa de união estável. E reconhece que ainda tem muito o que aprender com os mestres.

Calouros

hermes.jpg É sempre uma alegria ver uma nova turma de concursados assumindo seus postos. A empolgação de quem inicia uma nova carreira. O brilho em seus olhos sendo embaçado pelo mar de papéis a que vão sendo apresentados. A confusão diante do labirinto de siglas e procedimentos. A incredulidade com que reagem aos problemas que apresentamos.

Se existe um deus dos burocratas, eu peço a ele que traga novos servidores todos os anos.

Divisão de trabalho

hermes.jpg — Quantos funcionários públicos são necessários para trocar uma lâmpada?

— Espera. Deixa eu contar. Um pra constatar que a lâmpada queimou, um para solicitar a troca, um para autorizar a troca, um para chancelar a solicitação, um para levar a solicitação até o Departamento de Lâmpadas, um para protoc…

— Nada disso, basta um. Ele escreve um relatório dizendo “certifico que nesta data a lâmpada foi trocada” e oficialmente está resolvido.

Rotina

hermes.jpg O sinal de que a catraca de entrada se torna um problema na sua vida é quando o ato de esfregar o dedo na roupa para limpar a digital e passar pelo sensor biométrico fica automático e você se pega fazendo isso quando vai passar na roleta do metrô.

Podia ser pior. Eu podia estar preenchendo requisição de café da manhã em casa.

Diálogo

hermes.jpg— Vamos mudar a redação dos ofícios. Este é o modelo novo. É um texto-base, só um esqueleto, e você preenche com as informações de cada caso.

— Um esqueleto?

— Isso.

— Ah, então são os ossos do ofício.

(Depois eu não entendo por que nunca sou promovido)

Relatório

hermes.jpgSr. Diretor

Procedeu-se na última segunda-feira à instalação de bandeirolas azuis nos corredores da repartição, conforme estabelecido pela Lei 7467563748586, art. 157, § 47, item XVIII, alínea F, que dispõe, verbis:

Todos os corredores deverão contar com bandeirolas azuis.

Encerrado o procedimento, encaminhou-se memorando ao Departamento de Bandeirolas, solicitando a aprovação. Em resposta, o Departamento de Bandeirolas trocou as bandeirolas azuis que haviam sido instaladas por outras da cor vermelha, e enviou memorando acompanhado de parecer segundo o qual o legislador, ao especificar bandeirolas azuis, na verdade quis dizer vermelhas.

Diante do exposto, este Departamento houve por bem pintar de azul um dos lados das bandeirolas vermelhas até que seja aprovada Resolução determinando a cor a ser adotada.

Assim caminha a macacada

hermes.jpg O problema
Tem uma onça comendo os macacos.

Solução proposta
Matar a onça.

Dificuldade
O Departamento de Caça a Predadores está muito ocupado.

Alternativa
Amarrar um guizo no pescoço da onça, para sabermos quando ela se aproxima.

Objeções
1 – Não é nossa função amarrar guizos em pescoços de onças (checar regimento interno); 2 – Se fizermos isso, o Departamento de Caça a Predadores vai achar que o problema está resolvido e nunca vai caçar a onça.

O que fazemos
Criamos um novo e aperfeiçoado sistema de rotas de fuga.

Resultado
Redução de 10% no número de macacos capturados pela onça. Sucesso.

Deu branco

hermes.jpg De todos os (muitos) carimbos com que trabalho, o mais enigmático é, sem dúvida, o que diz “EM BRANCO”. Nunca entendi para que serve.

Que ignorante, vocês dirão. É óbvio que ele serve para dizer que aquele papel está em branco. E que, se não estiver, é porque alguma coisa foi escrita depois de a folha ser anexada ao processo. Faz sentido.

Tudo bem. Mas e se alguém, por engano ou má-fé, carimbar “EM BRANCO” numa folha que não está em branco? O seu conteúdo é automaticamente anulado? Como garantir que aquela folha que hoje está em branco não será modificada por alguém que, mais tarde, resolvar impugnar o carimbo?

Algum processualista deve ser capaz de me explicar isso. Mas a dúvida ficou ainda mais grave na semana passada, quando eu carimbei por engano uma folha em branco que já estava carimbada.

Reparem no paradoxo. O segundo carimbo atesta que a folha estava em branco. Assim, anula o primeiro. E, portanto, diz que havia algum conteúdo ali.

É por isso que fiquei aliviado ontem, quando o carimbo de “EM BRANCO” quebrou. Você tenta carimbar e não aparece nada. Fica em branco. Deve ser o primeiro carimbo metalingüístico na história da burocracia brasileira.

Desejos

hermes.jpg É natural que a primeira avaliação de desempenho provoque um friozinho na barriga. E um sentimento de alívio depois de passar por ela — e bem. Mas depois vem a constatação de que, por melhor que você tenha se saído, ainda não passou do primeiro degrau na sua escalada.

Porque a verdadeira medida de poder e prestígio não está no valor (ou mesmo no percentual) da sua Gratificação de Desempenho. Nem nos cargos e suas siglas esotéricas. Há coisas muito mais importantes. Coisas que você só aprende a perceber (e valorizar) quando entra para o serviço público.

Não se engane: o real parâmetro de poder e prestígio está nos perfuradores de papel.

O meu, por exemplo. É pequeno, daqueles que furam apenas meia dúzia de folhas de cada vez. No máximo, oito. Oito folhas! Não é nada num processo. O que fazer quando chegam aquelas cópias de autos com dezenas de documentos anexos? Ainda por cima, está velhinho e não funciona muito bem. O furo de cima sai certinho, mas o de baixo… Tem que ficar apertando e reapertando para ter certeza de que os papéis vão sair prontos para serem arquivados.

Mas basta olhar para a mesa do lado e ele está lá. Um legítimo 565000 Maped. Prata! Um verdadeiro rolls-royce dos perfuradores. Cento e cinqüenta folhas, sem nenhum esforço — eu aposto que a lâmina é de liga de titânio.

Por enquanto, só me resta suspirar. Mas chefias vão e vêm, cargos de confiança mudam, a maré vira, e um dia aquela mesa pode ficar vazia.

Quando isso acontecer…

Banzai!

hermes.jpg E, como não poderia deixar de ser, recebi um link para o tal vídeo comparando a burocracia japonesa com a brasileira. Quem é a melhor? Prace your bets NOW!

Só uma dica: do outro lado do mundo, são séculos de tradição de funcionalismo sob o comando da Casa Imperial.

Tudo bem. Mas o que inicialmente parece um desprestígio para o funcionalismo nacional é apenas uma prova de como somos capazes de nos virar mesmo sem as mesmas condições materiais. Ou alguém acha que meu carimbo agüenta tantas carimbadas sem ter que voltar na almofada de tinta?

Pirâmide invertida

hermes.jpgParticipar desses eventos é bom porque você entra em contato com as novidades do mercado, as tendências, essas coisas todas. Eu, por exemplo, descobri o pão-de-queijo no palito.

Vamos repetir para não haver engano: pão-de-queijo no palito. É. Na sorveteria. Assim:

Depois disso você vê a moça, provavelmente gaúcha, dirigindo seu carro usando somente a mão esquerda, porque a direita estava ocupada segurando uma cuia de chimarrão. Na Rua Augusta. E você pensa: ela está rigorosamente dentro da lei, porque afinal aquilo não é um telefone celular, e sim uma cuia de chimarrão.

A caminho de Congonhas, durante o engarrafamento regulamentar, você descobre que está a seis graus de separação de Osama bin Laden. E não consegue deixar de pensar nisso no vôo de volta.


Primeiro dia de volta à agência, curso de redação de relatórios e pareceres. O professor, na aula de abertura, vai listando os princípios básicos: clareza, concisão, objetividade, frases curtas, palavras simples. Você descobre que já estudou isso na faculdade de Comunicação. E começa a achar que redação de documentos oficiais pode ser tão simples quanto a de textos jornalísticos.

Então você se dá conta de que o que aprendeu nas aulas nunca foi exatamente posto em prática nas redações onde trabalhou. E que não há motivo para no serviço público ser diferente. Pelo menos não tem pescoção.

Requisição de passagem

hermes.jpgTrês dias longe de processos, memorandos, ofícios e despachos. Até sexta-feira estou no Forum Brasil – Mercado Internacional de Televisão, em São Paulo. Semana que vem, o blog e o burocrata voltam à programação normal.

E ao relatório de viagem, é claro. Com todas as comprovações de despesas e certificados de participação.

Maré laranja

Eu hoje ia escrever um “Vida de barnabé”, mas estou em greve. Pela progressão dos servidores das agências reguladoras!

(Na foto, os servidores da agência durante a manifestação em frente à igreja da Candelária)

Ídolo

And they say
this boy’s born to be a bureaucrat
born to be all obsessive and snotty
I made my friends and relations fill long applications
to get into my tenth birthday party

Se a vida lhe der clipes

hermes.jpg A Matemática é uma coisa que existe, como diria a Telinha. Você tem uma pilha com 86 pastas de processo, outra com 86 relatórios, outra com 86 cópias da defesa do autuado, e mais uma com 86 ofícios. Você começa a juntar um item de cada e no fim não fica nenhum processo, relatório, defesa ou ofício sobrando. Ainda bem que existe a Matemática.

Outra coisa fantástica é o Eterno Retorno. Você monta uma pilha de solicitações de abertura de processo, cada uma com um monte de papéis presos por clipes. Elas descem para o Protocolo e, quando voltam, cada uma dentro de sua pastinha, você pode tirar todos aqueles clipes que não precisam mais ficar ali. Então, às vezes a sua caixinha de clipes está transbordando, e outras vezes não tem nenhum. Mas eles sempre voltam. O importante é que eles circulem. É o fluxo vital, como no “Rei Leão”. Hakuna matata.

Ainda vou desenvolver um sistema filosófico, ou pelo menos um método de auto-ajuda, baseado nas verdades sobre a vida que aprendi no serviço público. Algo na linha “O monge e o burocrata”.

O mal deve ser do verbo

vervideo.jpg

hermes.jpg Não li a revista, mas a capa eu garanto que é mentirosa. Aquela banca que aparece na calçada da Graça Aranha não é de camelô de DVD pirata: é do vendedor de livros de segunda mão. Tem saldos de R$ 2 e outro dia me vendeu “The short stories of F. Scott Fitzgerald” (Scribners, capa dura, 775 páginas) por R$ 5.

Enfim, já começo a achar que qualquer revista que tenha o verbo “ver” no nome merece suspeita.

Assim caminha a macacada

hermes.jpgFunciona assim:

O macaco do chão passa a banana para o macaco do galho de baixo. O macaco do galho de baixo passa a banana para o macaco do galho do meio. O macaco do galho do meio passa a banana para o macaco do galho de cima. Aí o macaco do galho de cima diz:

— Não pode. Está de cabeça para baixo.

E a banana volta para o macaco do chão. Ele não entende muito bem qual é a diferença entre uma banana de cabeça pra cima e uma banana de cabeça pra baixo, mas vira mesmo assim. E, como o macaco do galho de cima estava passando por ali naquele momento, aproveita e entrega:

— Taqui, ó, de cabeça para cima.

Mas o macaco do galho de cima responde:

— Entrega para o macaco do galho de baixo, que ele dá para o macacao do galho do meio, que passa para mim.

E começa tudo de novo.

Plunct, plact, zum

hermes.jpgLembro dos primeiros ofícios que carimbei. Eram carimbadas tímidas, hesitantes, próprias de quem está apenas começando. Ainda estou longe do nível que pretendo um dia alcançar, mas já melhorei muito.

Você reconhece um bom burocrata pela forma como ele carimba seus papéis. As marcas são inconfundíveis: firmes, decididas, sem um pingo de tibieza. Quand encontrar um carimbo tão preciso que seja impossível distingui-lo de um timbre impresso, tenha a certeza de estar diante do trabalho de um verdadeiro profissional.

(Hoje foram 293 folhas carimbadas e assinadas só num processo. Eu, o matador de árvores. Ou fico musculoso nos dedos ou ainda pego uma LER.)