Arquivo da categoria: Postais do Exílio

Postais do Exílio (138): Paredão de Las Palmas

Sim, é o que você está pensando: no paredão eram fuzilados os inimigos do regime de Las Palmas.

Eram muitos, esses inimigos, e não diminuíam com as sucessivas execuções. Dia após dia algum líder político, sindicalista, poeta ou simplesmente alguém que havia por qualquer motivo desagradado a alguma autoridade era levado ao paredão. Chegou-se ao ponto de qualquer um na rua poder ser levado á toa, apenas porque ninguém ainda havia sido executado naquele dia.

Dia após dia, portanto, uma vida se acabava ali. Depois do fuzilamento, ficavam apenas as suas marcas no muro: os buracos dos tiros, mais as manchas de sangue, pólvora e merda.

Essas marcas aos poucos foram formando um desenho. No início não se distinguia muito bem o quê, mas aos poucos percebeu-se que era uma figura humana. Um dia, uma mancha vermelho-escura completou o que já não se podia negar. Era um retrato inconfundível do ditador.

Foi o toque final. Naquela mesma noite, um levante popular derrubou o regime.

Postais do Exílio (137): Templo de Hurmidão

As ruínas do templo estavam entre as mais espetaculares do planeta. Hoje, porém, o templo foi reconstruído, e pode ser visto exatamente como era quando foi erguido, milhares de anos atrás.

Uma ruína é um testemunho da ação (quase sempre destrutiva) do tempo. Em Hurmidão, não mais. Não mais os nichos vazios de onde os ídolos de bronze foram roubados nos saques. Não mais as colunas partidas pelo terremoto. Não mais o piso carbonizado pelo incêndio. Não mais as paredes marcadas por tiros e metralhas. Não mais as manchas do vandalismo.

Não mais uma ruína: Hurmidão hoje é, pelo contrário, a ruína de uma ruína.

Postais do Exílio (136): Delta do Arunã

O rio Arunã sempre foi considerado uma divindade. Uma deusa da fertilidade. E seu delta tem a forma do púbis divino, que intumesce na temporada de chuvas. Cada um dos incontáveis canais do delta é um dos pentelhos sagrados de Arunã.

São comuns os casos de desaparecimento no delta. E também os afogamentos.

 

Postais do Exílio (135): Farol de Mussar

O Farol de Mussar jamais teve uma lâmpada. Seria inútil. Por mais potente que fosse, nenhuma fonte de luz seria capaz de atravessar o nevoeiro que cobre aquela região quase permanentemente. Em vez disso, é um farol sonoro. A cada meia hora, emite uma sirene que alerta os navegantes para a proximidade da costa.

Atualmente, o serviço é feito com auxílio de alto-falantes e um sistema de som programado eletronicamente. Quando o farol foi construído, porém, era preciso soprar um corne que subia em espiral da base da construção até o seu topo, a 22 metros. Os faroleiros, então, eram escolhidos especialmente pelo seu fôlego.

Postais do Exílio (134): À Palavra Desconhecida

O monumento é uma escultura. Ela representa algo que já teve um nome na língua local, que porém caiu em desuso há tanto tempo que ninguém mais dela se lembra.

Na falta de um nome, não se sabe o que o monumento homenageia, sequer se é algo que existe (mas que hoje se chama de outra forma) ou se deixou de existir há ainda mais tempo que a palavra esquecida. Críticos de arte, pelo mesmo motivo, não chegam a um consenso sobre o caráter da obra – se abstrata ou figurativa. Políticos discutem se não seria mais prudente derrubá-la. Pombos, indiferentes, emporcalham-na do mesmo jeito.

Postais do Exílio (133): Vale de Uran

Todos os dias centenas de pessoas gritam da beira do penhasco, mas jamais alguém ouviu a própria voz ecoar. Em vez disso, o que se ouve são os ecos de outras vozes. Vozes estranhas, distantes. Às vezes em línguas desconhecidas.

Existem duas explicações para o fenômeno. A primeira é de que a configuração rochosa singular do Vale de Uran distorce as vibrações de tal forma que torna os ecos irreconhecíveis.  Pode ser. Mas isso não explica muito bem por que diversas vezes, na calada da noite, o vale reverbera sem ser provocado. É por isso que acredita-se que os ecos de Uran são retardados, e só agora estamos ouvindo a repetição de gritos que foram dados ali há anos, talvez séculos.

Uma variação desta hipótese sugere que Uran ecoa sons do futuro, sendo na verdade um oráculo. Houve mesmo quem garantisse ter escutado ali pela primeira vez uma declaração de amor que voltaria, anos depois, a ouvir – desta vez de lábios humanos.

Postais do Exílio (132): Zoológico de Mambilena

Em Mambilena os protestos contra a manutenção de animais selvagens trancafiados chocaram-se com a popularidade de seu jardim zoológico. Foi preciso encontrar uma solução que agradasse a todos. E assim os animais foram gradualmente substituídos por robôs. São réplicas perfeitas de tigres, leões, escaravelhos, raposas, mantícoras, elefantes, harpias, dodôs, jacarés e outros bichos, não apenas indistinguíveis na forma como também programados para imitar o comportamento e os sons dos originais. Até os cheiros sintéticos que exalam são idênticos aos naturais.

Metade da população, porém, não acredita que zoóides tão perfeitos possam existir, e acusam o Zôo de manter animais reais em cativeiro. A outra metade diz que, mesmo com tanta perfeição, não é a mesma coisa olhar para uma jaula sabendo que do outro lado está um robô. Desta forma, todos permanecem insatisfeitos.