Arquivo da categoria: Mitolorgias

Mitolorgias (3): Medusa e Narciso

Algumas fontes narram que não foi Perseu, e sim Narciso, o herói enviado para enfrentar Medusa. Com sucesso, de certa forma: pois a górgona, ao ver o mais belo dos mortais, ficou paralisada de emoção; Narciso, porém, ao olhar no fundo dos olhos dela, viu a si mesmo refletido neles (como não poderia deixar de ser) e ficou igualmente petrificado.

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Mitolorgias (2): Eurídice

– Olha pra mim, Orfeu. Olha. Você nunca olha pra mim, não é, Orfeu? Então pelo menos me escuta. Pior ainda. Você nunca me ouve, Orfeu. Você acha que todo mundo vai sempre parar tudo o que está fazendo para ouvir você, não é, Orfeu? E vão adormecer como Cérbero, vão se emocionar como Caronte, vão se comover como Hades. E você, Orfeu, quando foi a última vez que você parou para me ouvir, Orfeu? Você me perguntou se eu queria que você viesse aqui me buscar, Orfeu? Eu sei, tudo o que você fez foi muito lindo, e eu agradeço do fundo do coração, Orfeu. Mas a verdade é que eu nunca quis voltar, Orfeu. Desde que aquela víbora me picou eu sou livre. Eu não tenho o medo da morte que vocês na terra sentem, Orfeu. Eu não tenho mais preocupações. Eu sou feliz. Eu sou feliz sem você, Orfeu. Pronto, era isso que você não suportaria ouvir, não é, Orfeu? Que toda essa sua jornada heróica não foi para me salvar, mas sim porque você não queria abrir mão de mim. Mas você vai ter que viver sem mim, Orfeu. Eu quero ficar, Orfeu. Orfeu, olha pra mim. Me escuta. Olha pra mim. Isso, Orfeu. Obrigado, Orfeu. Eu te amo, Orfeu. Adeus, Orfeu. Adeus. Adeus. Adeus.

Mitolorgias (1): Arjuna

E se Arjuna, depois do encontro com o mais sutil dos deuses, descesse a montanha convencido a entrar na batalha com sua fúria invencível; e se, armadura nos ombros, lança em punho, o fogo brilhando em seus olhos ao avistar os inimigos, um clarão interrompesse a sua carga por uma fração de segundo que durasse uma vida inteira; e se, durante essa fração de segundo, esse mesmo Arjuna, ciente da superioridade do agir correto sobre a inação, percebesse que naquele momento não era ele quem agia, e sim era a guerra que agia nele, por meio do seu corpo; e se Krishna, afinal, estivesse errado, e ele não fosse um guerreiro; e se o ser guerreiro fosse definido pelas suas ações, e não o contrário; e se deixar-se lutar fosse portanto inação, e o agir correto fosse parar onde estava, deitando ao chão lança e armadura?