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Histórias reais (16) Anazu, o deus tímido

Acreditam os kahuli que Anazu poderia ter criado o mundo, e que um mundo criado por ele teria sido bem melhor que o nosso. Porém, sua imensa timidez o impediu de arriscar-se a tamanho feito. Em vez disso, sugeriu discretamente a outros deuses a ideia, e eles criaram a Terra como a conhecemos, com todas as suas falhas.

Vendo o que havia acontecido, Anazu arrependeu-se. Começou a promover melhoras no mundo, corrigindo uma coisa aqui, outra ali. Foi ele quem aprisionou os demônios criados por seu irmão, e que assolavam a humanidade. Agradecidos, os kahuli celebraram um festival em homenagem a Anazu, que durou três dias e três noites.

Anazu assustou-se, e se recolheu. Passou a reparar os males do mundo da forma mais discreta possível.

Desde esse dia, para não espantar Anazu de vez, e em respeito pela sua timidez, os kahuli não mais lhe prestam culto. Só falam dele aos cochichos, em segredo.

Histórias reais (15): Yamará e a soma dos desejos

No princípio existia apenas Yamará. Mas Yamará desejou não estar sozinha e surgiu o mundo.

Depois todas as outras coisas que Yamará desejava apareceram no mundo. E do seu desejo saiu também o primeiro homem, e do desejo deles dois nasceram seus filhos e depois seus netos.

A essa altura, Yamará descobriu que não bastava mais ela apenas desejar que alguma coisa existisse: era preciso que todas as outras pessoas quisessem a mesma coisa, juntas, ao mesmo tempo. Por isso foi ficando cada vez mais difícil existirem coisas novas.

Vendo isso, Yamará reuniu aqueles que tinha criado e repreendeu-os tão duramente, com ameaças tão graves, que todos se revoltaram e desejaram que ela morresse. E ela, que era imortal, de pura tristeza desejou também morrer, e a sua morte foi a última coisa que toda a gente desejou junta ao mesmo tempo.

Se um dia todas as pessoas juntas quiserem, o mundo pode voltar a ser bom, como nos tempos de Yamará. Só que isso nunca vai acontecer.

Histórias reais (14): A aranha

No início havia apenas homens e mulheres. E, quando uma pessoa morria, seu espírito se transformava num animal. Os primeiros que surgiram foram o coelho, o búfalo, o morcego, o besouro, o cágado, o abutre, o carcamuz e o macaco. Depois vieram os outros todos, os da terra, da água e os do ar.

Os bichos eram poucos, e não incomodavam as pessoas. Mas aos poucos começaram a aparecer mosquitos, cobras, percevejos, ratos e outras pragas. Eram fruto daqueles que não queriam morrer e se tornavam estorvos aos vivos.

Todos viram que, se alguém não resolvesse o problema, em breve as pestes acabariam com a raça humana. O ideal seria se ninguém mais morresse. Mas isso era impossível.

Então uma mulher muito velha, que estava doente e às portas da morte, disse:

- Podem deixar. Eu sei o que fazer.

E prometeu que, depois de morrer, cuidaria para que mais nenhum espírito se transformasse em bicho, fosse bom ou ruim. Quando todos concordaram que era uma boa solução, ela fechou os olhos e morreu. No dia seguinte surgiu a aranha e teceu a sua teia, onde ficam presos os espíritos.

É por isso que ninguém deve fazer mal às aranhas e nem destruir suas teias.

Histórias reais (13): O incenso

Era uma vez um noviço que morava num mosteiro, servindo aos monges e aprendendo os Dez Preceitos. Ele procurava ser virtuoso em cada um de seus atos e viver segundo o Vinaya.

Um dia, porém, os monges perceberam que o rapaz exalava um aroma suave. Seu superior o recriminou por ceder à vaidade e se perfumar. Ele apenas pediu perdão.

No dia seguinte, o aroma estava mais sutil e delicado, porém ainda mais penetrante. O superior perguntou por que ele havia desobedecido, e o jovem viu-se forçado a confessar que não se perfumava, e aquele era apenas o seu cheiro natural.

Os monges não só não acreditaram no samanera como resolveram castigá-lo. Ficou preso num chiqueiro com os porcos durante uma semana. Mas em vão: a cada dia que passava ele recendia ainda mais a flores e especiarias.

Irritados, os religiosos soltaram o noviço, apenas para surrá-lo com bastonadas e pedradas até a morte.

Só então o abade percebeu o erro que haviam cometido, recriminando a si mesmo e aos seus monges. Todos choraram amargamente a morte do jovem e enterraram seu corpo no jardim do mosteiro.

Ali nasceu uma árvore cuja resina era perfumada como o samanera assassinado. E, para nunca mais esquecerem a lição aprendida com seu crime, os monges passaram a queimar aquela resina durante suas orações e meditações.

Foi assim que surgiu o incenso.

Histórias reais (12): As estrelas e a pantera

Antigamente o céu era claro de dia e de noite. E não havia estrelas. Nessa época, a lua morava numa gruta, junto com a pantera. E não saía de lá de jeito nenhum.

O céu chamou a lua para ficar com ele durante a noite, quando o sol ia embora. Mas a lua disse que não. Só se ele se cobrisse com um manto todo preto.

Para atender à lua, o céu fez um manto todo de asas de graúna. E a lua, quando viu que tudo tinha ficado escuro, cumpriu a sua promessa e subiu para brilhar nas noites.

A pantera ficou enciumada porque tinha perdido a sua companheira de toca. E disse que queria uma roupa igual, também toda preta. Como o céu não quis dar, ela começou a cravar as suas unhas no manto. Onde cravava, deixava um furo, e por ali a luz passava. Foi assim que o céu ficou todo estrelado.

Para não ficar mais furado ainda, o céu atendeu à pantera, que então passou a ter também um manto da cor da noite.

Histórias reais (11): Uiagarã, o grande rio

Foi numa época em que havia uma grande seca e uma grande fome no mundo. Quando viu que seu roçado de mandioca tinha se acabado de vez, Ocã anunciou:

— Vou falar com a Mãe da Terra.

Quase todo o mundo riu. Mas Ocã assim mesmo pegou seu bordão e seguiu viagem, para bem longe, lá onde o sol se deita, depois de Yacamiaba, a montanha. Chegando lá, entrou na casa da Mãe da Terra. E pediu a ela que mandasse água.

A Mãe da Terra, porém, estava irritada. Tanto que nem respondeu. Ficou de boca calada, do jeito que estava.

Ocã insistiu. Ameaçou bater na Mãe da Terra com seu bordão, mas ela nem se abalou e continuou muda do jeito que estava antes. E nem chorar adiantou.

Então, Ocã teve uma idéia. Em vez de pedir, ameaçar ou chorar, começou a fazer caretas e macaquices. Deu cambalhotas e imitou a voz do papagaio, até que a Mãe da Terra não se agüentou e começou a rir. E, quando abriu a boca, saiu de dentro dela toda a água que estava guardada, e provocou uma grande inundação.

Ocã só não se afogou porque nessa hora pulou para trás da Mãe da Terra e se agarrou nos seus cabelos para não cair no abismo. Mas todo mundo que tinha rido da sua aventura morreu ou então virou peixe.

Foi assim que surgiu Uiagarã, o grande rio, que também quer dizer “riso da terra”, e que mais tarde Orellana chamou de Amazonas. Quando as águas baixam, é porque a Mãe da Terra fechou a sua boca. Então, todos fazem muitas brincadeiras para ela rir outra vez.

Histórias reais (10): As listras do tigre

Descubra qual é o verdadeiro tigre branco

Antigamente o tigre não tinha listras. Seu corpo era inteiro alaranjado.

Naquela época os outros animais foram se queixar ao búfalo, que era o juiz da floresta, que o tigre andava muito feroz e todos os dias comia um deles. O búfalo chamou o acusado e perguntou se era verdade.

O tigre negou. Mas o búfalo, que era protegido de Yama, deus da justiça, e dele tinha recebido o poder de fazer surgir a verdade, ouviu os protestos da assembléia ali reunida e disse:

— Para cada animal que matares, surgirá uma listra negra no teu corpo. Volta daqui a uma lua.

YamaQuando o tigre voltou, as listras cobriam todo o seu corpo. O búfalo censurou seu comportamento e suas mentiras, enquanto todos os outros animais gritavam e apupavam, até que ele se enfureceu e saltou sobre o juiz. Rasgou-lhe a jugular e derrubou-o no solo, morto. Nesse instante, nasceram as listras no seu rosto, as últimas que recebeu.

Yama, enfurecido, determinou que as listras permaneceriam para sempre, de forma que todos os outros animais pudessem ver que o tigre era um assassino. E assim aconteceu.

Histórias reais (9): Jaros e Rumni

No início, quando nada existia, havia apenas Jaros, o amor. E todas as coisas estavam dissolvidas nele.

Então surgiu Rumni, a Palavra, e faz o primeiro corte em Jaros, e criou o antes e o depois, o acima e o abaixo. E fez mais cortes, e assim surgiram o homem e a mulher, o céu e a terra, o fogo e a água, o arco-íris, a concha, o trevo e Taruz (o pássaro-trovão).

Depois disso, quando o amor estava disperso por tudo o que existe, a chama de Jaros que havia dentro das coisas fez que elas se buscassem. O amor surgiu entre os homens, e entre as mulheres, e entre homens e mulheres. Toda vez que se unem, Jaros renasce na lembrança do Todo que um dia foi.

Rumni, porém, quis mais uma vez cortar Jaros, e dar nomes diferentes aos amores. Mas Jaros amaldiçoou para sempre quem quisesse separá-los.

(17 de maio é o Dia Mundial Contra a Homofobia)

Histórias reais (8): A mulher

Atan criou o homem e o pôs nas ilhas de Tamiri (hoje Ilhas Fowley). Ensinou sua criatura a falar, a pescar, a fazer barcos e a usar o fogo. Mas todas as noites voltava para sua casa, no fundo do mar, e nunca dizia por quê.

Um dia, o homem estava pescando e sua rede pegou um golfinho, que disse:

— Por favor, poupe minha vida e eu lhe trarei o tesouro que Atan guarda em segredo.

O homem aceitou, pensando em olhar o tesouro e depois devolver. Mas, naquela noite, o golfinho trouxe a ele a mulher. E o homem decidiu então que ficaria com ela e não a devolveria mais.

Atan nunca se conformou. Quando acha que há uma mulher num barco, ele o faz virar com suas ondas, para recuperar o seu tesouro. Os nativos de Tamiri, que até hoje poupam o golfinho em suas pescarias, obrigam as suas mulheres a ficar sempre em terra firme, com medo de que elas sejam tomadas de volta.

Algumas, porém, vão sozinhas para o meio do mar na calada da noite e se jogam no abraço das águas.

Histórias reais (7): A siamesa

Desde antes dos primeiros reis budistas os gatos eram muito apreciados no Sião. E, nos palácios reais, os preferidos eram os inteiramente pardos e de olhos azuis.

Um dia, um wuthisapha (conselheiro), invejoso do prestígio dos felinos, convenceu o rei de que os gatos pretos, particularmente, eram agourentos. E conseguiu a promessa de que, se aparecesse algum no palácio, seria expulso.

O enciumado vizir, então, capturou Chenchen, a gata preferida da princesa do Sião, para pintá-la com tinta preta trazida da distante Nankin, na China. Mas a gata, rebelde, conseguiu fugir quando ele tinha pintado apenas a sua cauda.

O wuthisapha saiu em perseguição, e para escapar dele Chenchen teve que atravessar uma poça de piche, na qual afundou suas patas, que assim ficaram também pretas.

A gata conseguiu finalmente chegar aos aposentos da princesa, que a princípio achou que fosse uma vira-latas da rua. Mas, brincando com um de seus anéis, deixou que ele caísse nas cinzas da lareira. O animal enfiou as orelhas e o focinho na fuligem para pegar a jóia da sua dona, que só então a reconheceu.

E assim surgiu a primeira gata siamesa com manchas escuras, que se tornaram o padrão dos bichanos na corte real de Bangcoc. O conselheiro, sem conseguir explicar a tinta preta em suas mãos e o piche em seus sapatos, teve descoberto seu plano e foi expulso do reino.

Histórias reais (6): A ressaca

Os irmãos Velns e Ragana aprenderam com Decla a arte de preparar a terra, plantar a cevada e colher os grãos.

Ragana descobriu como triturar a cevada, da farinha fazer uma massa e depois assar o pão. Velns, por sua vez, percebeu que com o grão fermentado podia fazer a cerveja.

Os dois repartiram os frutos do seu trabalho. E Velns recomendou a Ragana que tivesse cuidado, e bebesse com moderação. Mas ela não ouviu o conselho, e uma noite embriagou-se com a cerveja do irmão.

— Quero mais — disse ela.

— Não tenho, e mesmo que tivesse, não daria — ele respondeu.

Ela então o surrou, batendo em sua cabeça e enfiando uma vara em sua goela, acreditando que ele escondia mais cerveja em algum lugar. Depois desistiu e voltou para sua casa.

Pela manhã, arrependida, foi procurar o irmão para pedir desculpas. Mas ele não a perdoou. E ainda lançou uma maldição sobre sua própria invenção. Dali em diante, quem bebesse cerveja demais acordaria no dia seguinte, como ele, com a cabeça doída, o estômago revirado e um gosto ruim na boca. E assim nasceu a ressaca.

(Há quem diga que Ragana usou um cabo de guarda-chuva. Mas os guarda-chuvas ainda não haviam sido inventados na época.)

Histórias reais (5): O aperto de mãos

De um lado, os romanos. Do outro, os sabinos.

No meio, as sabinas, raptadas pelos romanos, agora seus maridos e pais de seus filhos.

Hercília, filha de Tito Tácio, vê o rei sabino se aproximando de seu marido, Rômulo, os dois de armas em punho. Para evitar uma luta que de qualquer jeito seria dolorosa, joga-se entre os dois e implora que façam a paz. Como mostra a tela de Jean-Louis David.

Os dois hesitam, mas a tensão permanece. Hercília, então, faz que os dois soltem suas armas. E estendam a mão desarmada um ao outro. Apertando a mão de Tito na de Rômulo, prende os dois num compromisso de manter a destra livre de armas e disponível para a paz.

E foi assim que nasceu o aperto de mãos para selar a paz entre inimigos.

Histórias reais (4): Os dedos

Meneru, o pai de todos, fez do barro o primeiro homem. Mas faltava dar a vida. Então, deixou a sua obra num canto e foi buscar a vida.

Vieram a abelha, o gavião e a galinha. E ficaram admirando, curiosas, o homem que Meneru havia feito. O que mais as intrigou foi a mão, com os quatro dedos(*). E cada uma comeu um pedaço de um dedo: a abelha, o mínimo; o gavião, o anular; e a galinha, o indicador.

Meneru chegou de volta e deu a vida ao homem. Mas só então viu que os dedos, que tinha feito todos iguais, estavam cada um de um tamanho. Perguntou quem tinha feito aquilo e ninguém respondeu. Só o bem-te-vi, que naquela época já era alcagüete, denunciou as três.

Então, Meneru ensinou o homem a usar o polegar com o indicador para torcer o pescoço da galinha. Ensinou a fazer uma arapuca para pegar o gavião e a usar o anular para puxar a corda que o prendia na armadilha. E ensinou a usar o mínimo para tirar mel dos favos da abelha.

Só o dedo médio permaneceu intocado. Ele é dedicado a Meneru e nele os xamãs desenham os seus símbolos sagrados.

(*) Na língua em que se conta essa história originalmente, a palavra para “dedos” não inclui o polegar, e se refere apenas aos outros quatro.

Histórias reais (3): O direito de escolha

Blog for Choice Day - January 22, 2007 No começo, a Terra, mãe de todos, tinha filhos todos os dias. E o mundo se coalhava de seres brotados das suas entranhas. Gerar era sua única preocupação, e dela tanto nasciam as criaturas perfeitas, como o ovo, a salamandra e a esmeralda, quanto aberrações como o berne, o tédio e a mantícora (que um dia um herói matou, mas essa é outra história).

Um dia o Céu foi se queixar. Pediu que a Terra parasse de povoar o mundo. Mas ela se mostrou irredutível. Porque aquela era a sua natureza, explicou.

O Céu insistiu e conseguiu arrancar da Terra uma promessa. Dali em diante ela só geraria os filhos que desejasse e amasse. Ela aceitou a regra. E em seguida criou a mulher.

— Você também vai criar vida — anunciou. — E, da mesma forma que eu, deverá gerar apenas os filhos que quiser amar.

A mulher entendeu.

Mas por essa época a Terra já havia engendrado o preconceito, a ignorância e a intolerância. E eles convenceram a mulher de que seria obrigada a amar tudo o que gerasse, e não o contrário.

Histórias reais (2): A boca do tamanduá

Naquele tempo, o tamanduá era bem diferente. Sua boca era imensa, e cheia de dentes afiados, para devorar suas presas. Era a fera mais voraz da floresta e nenhum animal estava a salvo dele, a não ser, talvez, a onça.

Um dia os outros animais se juntaram para discutir a situação. O tapir reclamou porque sua cauda fora arrancada a dentadas (e por isso até hoje ele não tem rabo). O veado queixou-se de que quase toda a sua ninhada tinha virado comida de tamanduá, e só restara um (por isso o veado só tem um filho de cada vez). A arara escapara por pouco, e só porque podia voar, mas mesmo assim levou um corte tão feio que suas penas ficaram todas vermelhas de sangue, como ainda são.

Discutiram muito como resolver o problema. A preguiça, que não queria fazer muita coisa, sugeriu pedir ajuda à onça. Mas ninguém ousaria ir falar com ela, e se no fim o tamanduá matasse a onça o resultado seria pior ainda.

Foi então que a formiga disse:

— Eu resolvo.

Todos riram, porque a formiga era o menor e mais fraco dali. Mas ela não se importou e foi embora cuidar do seu plano.

A formiga sabia que, depois de carne, a comida preferida do tamanduá era jabuticaba. Por isso, no fim da temporada, guardou bem guardada a maior que conseguiu carregar. E ficou esperando agosto chegar.

Quando agosto chegou, deixou o seu tesouro bem à mostra no chão, no meio do caminho por onde passaria o tamanduá. Este, assim que viu a fruta, foi correndo pegá-la. Mas a formiga rolou a fruta para um buraco, antes que o bicho chegasse.

O tamanduá, louco para comer uma jabuticaba fora de época, enfiou a cabeça no buraco, que no entanto era fundo e se afunilava, de um jeito tal que a sua boca não chegava até a fruta.

Já estava desistindo quando a formiga perguntou:

— Ora, então o animal mais forte, valente e feroz vai desistir de comer uma iguaria só por causa do buraco que eu cavei?

Irritado, o tamanduá se sentiu ferido no seu orgulho. E enfiou a cabeça o mais fundo que pôde no buraco, até que ela ficou presa. A formiga não esperava outra coisa e começou a picar as gengivas da fera.

O tempo foi passando e nada de o tamanduá desistir. Pelo contrário, ficava ainda mais furioso e mais determinado a comer a jabuticaba de qualquer jeito. E a formiga ia picando sua boca, e as feridas gangrenavam, e os dentes foram caindo um por um. E o focinho ia ficando mais comprido, e a língua também, até ele ficar do jeito que é hoje.

Quando viu que tinha atingido seu objetivo, a formiga largou o tamanduá e carregou a jabuticaba para outro buraco mais fundo ainda.

Do lado de fora, o tatu, o tucano e a capivara riam sem parar. Porque o macaco tinha aproveitado para desfiar a bela cauda trançada do tamanduá, deixando um monte de pelos soltos.

Vendo que tinha sido enganado, o tamanduá finalmente tirou a cabeça do buraco. E a gargalhada foi maior ainda, porque sua boca tinha ficado fina e comprida e perdido todos os dentes.

Por isso até hoje ele persegue as formigas. E não quer mais saber de jabuticaba.

Histórias reais (1): A roupa nova do Sapo

O sapo era o mais vaidoso dos animais. E a maior prova disso estava no seu imenso guarda-roupa. Ele tinha peles de todas as cores, padrões, texturas e formatos que se pudesse imaginar, e gabava-se de nunca usar duas iguais.

A serpente também vivia trocando de roupa. No seu caso, porém, coitada, era por necessidade. Ao contrário do sapo, que se movimentava aos saltos, ela precisava se arrastar na terra, entre pedras, galhos e folhas. O resultado é que volta e meia sua pele estava toda puída e rasgada, e precisava ser substituída.

Aconteceu que, mesmo assim, o sapo quis as roupas da cobra. E foi à sua casa pedir uma emprestada. Ela, porém, negou

— Vossa Sapiência já tem muitas roupas. Eu só uso as de que preciso — explicou a serpente, usando o tratamento respeitoso que na época se devia aos batráquios.

Ele, no entanto, insistiu. Afinal, mesmo com toda a sua imensa coleção, não se sentia satisfeito. Porque quem mais tem mais quer.

— É só um empréstimo. Quando quiser que eu devolva, a senhora me cobra.

A serpente se irritou com a teimosia e mais ainda com o trocadilho. Abriu a boca e mostrou as presas, que gotejavam veneno. O sapo, que realmente era de grande sapiência, saltou para longe dali. Mas depois aproveitou que a serpente estava dormindo e roubou o belo traje rajado novo que estava no seu guarda-roupa, aliás um guarda-peles.

A serpente acordou e deu pela falta da roupa, que pretendia trocar naquele mesmo dia. Desconfiada, foi à casa do sapo, que estava usando a pele da cobra.Quando ela bateu na porta, ele só teve tempo de tirar a roupa, virar pelo avesso e vestir de novo.

— Mas que pele estranha Vossa Sapiência está usando! — elogiou. — Mas parece até que está pelo avesso.

— É a última moda, não sabe? — explicou o sapo. — A tendência da estação.

A serpente sibilou com a língua bifurcada e continuou:

— Ah, sempre na moda… Já eu tenho que andar com esses trapos, porque a minha nova muda sumiu de meu armário. Nem imagino quem foi que me roubou. Mas se eu descobrir quem foi, ah, eu juro que engulo o infeliz, nem que seja um boi!

O sapo engoliu em seco e gaguejou:

— M-m-muito bem dito.

É por isso que hoje, quando o sapo põe uma roupa nova, come a velha (a exúvia, como chamam os cientistas) na mesma hora, e nós nunca a vemos. Porque, quando ele se distrai e deixa uma serpente vê-lo se trocar, ela vê que foi roubada e come o ladrão na mesma hora.