Arquivo da categoria: Dramatis Personæ

Dramatis Personæ (204): Augusto, o metamante

Começou pela cartomancia, mas em pouco tempo aprendeu diversas outras artes divinatórias. Aprendeu a ler o futuro nos astros, nas folhas de chá, no voo dos pássaros, nas entranhas dos animais, nas linhas da mão, nas varetas do I Ching, nos búzios, no movimento das formigas, no Tarô, na bola de cristal. Jamais conseguiu encontrar, porém, uma técnica que fosse inteiramente confiável.

Hoje, lê o futuro pelas suas próprias escolhas. Se em dada situação opta pela aurospicina seguida de rabdomancia, por exemplo, isso é um claro indício de que o momento é favorável a rupturas radicais, e provavelmente também de que vai chover. Cor: turquesa; número: 17.

Dramatis Personæ (203): Eulália

Eulália sofre de uma raríssima condição, conhecida como daltonismo auditivo.

Assim como as pessoas daltônicas,  em diferentes níveis,  são incapazes de distinguir entre as cores, Eulália é insensível a certas variações de timbre. Não todas: sabe, por exemplo, distinguir o toque do fagote do de um oboé, e reconhecer o canto do curimango ou o da cotovia no meio de diversos outros pássaros.

Sua dificuldade é mesmo com vozes humanas. Para ela, o chamado de um amigo íntimo soa exatamente como o da mãe, de um vizinho ou de Elvis, estivesse Elvis vivo e a chamasse.

Durante anos os médicos examinaram Eulália, para no fim concluir que seu problema tem origem emocional. Para ela, todas as vozes alheias são de completos estranhos.

Dramatis Personæ (202): Andur, o gênio imbecil

Quando o sábio rei Suleiman (Alá, porém, é mais sábio) aprisionou os gênios, forçando-os à obediência, houve apenas um que lhe escapou. Tratava-se, justamente, do mais poderoso entre eles, o mais astuto, o mais clarividente. Chamava-se Andur, e rivalizava em sabedoria com o próprio Suleiman. Por isso mesmo, percebeu que seria inútil tentar enfrentá-lo, e que mais valia ocultar-se aos seus olhos.

Andur, então, tomou a forma que jamais se poderia esperar de um gênio, ou seja, a de um imbecil. Tornou-se o mais estúpido dos homens, alvo de zombaria até mesmo dos escravos.

Tanto tempo permaneceu assim, e tanto se dedicou a parecer um imbecil, que enfim se tornou incapaz do mais básico raciocínio. E mesmo depois da morte de Suleiman (que Alá o tenha em sua glória) não foi capaz de abandonar seu disfarce, por ser obtuso demais para perceber que já não corria perigo. Vaga até hoje pelo mundo, penando sua estupidez.

Dizem que, na verdade, Andur nunca escapou da armadilha de Suleiman, que assim o condenou a ser prisioneiro da própria astúcia.

Dramatis Personæ (201): Luciano, o desesperantista

Servi-me da inabilidade com o francês para justificar as palavras presas na garganta, as palavras repetidas, gagas, a falta de vocabulário, a falta do que dizer.
LEVY, Tatiana Salem. Dois rios. Rio de Janeiro: Record, 2011.

Luciano chegou à conclusão de que o mal das relações humanas não é a falta de diálogo, mas o excesso dele. Se todos reconhecessem a incapacidade de comunicação, a necessária intradutibilidade dos sentimentos e ideias de cada um numa linguagem coletiva, todos viveriam em paz, sabendo que o discurso do outro não é o que se entende dele, e sim um universo à parte, do qual só se pode apreender (na melhor das hipóteses) uma analogia.

Na contramão de Zamenhof, passou a defender que cada pessoa tenha uma linguagem própria, não compartilhada com mais ninguém, para que toda conversa seja obrigatoriamente uma tradução.

Dramatis Personæ (200): Cordélia

Dizem alguns críticos que ela já não sonha mais como antes. De fato, já vão longe os dias (e especialmente as noites) em que lotava teatros e auditórios, reunindo multidões para vê-la deitar-se numa cama, adormecer e sonhar.

Segundo os mesmos críticos, o problema foi que os sonhos de Cordélia começaram a ficar repetitivos. O da queda no abismo de rabanadas, por exemplo. Embora continue sendo impressionante, já perdeu boa parte do impacto para o público. E os mais jovens parecem não se interessar tanto pela sua arte, agora que novas tecnologias permitem programar sonhos e compartilhá-los online.

A melhor resposta, porém, Cordélia continua dando no palco. Mês passado, por exemplo, teve um pesadelo que todos consideraram um dos três mais aterrorizantes da sua carreira, para dizer o mínimo. Prova de que não está acabada, garantem os fãs: apenas mais cuidadosa, como qualquer artista na maturidade.

Dramatis Personæ (199): O Grande Carelli

Era contorcionista no Grande Circo de Vladivostok.

Um dia dobrou-se tanto que foi encolhendo até desaparecer. E nunca mais foi visto.

Deixou, porém, um recado. Uma espécie de estamento, que só não o é por não ser o de cujo efetivamente um morto. Disse que um dia vai se desdobrar e surgir do nada, como se fosse matéria e antimatéria. Talvez já tenha feito isso em algum quadrante longínquo do universo.

Dramatis Personæ (198): Eriberto, o Moço

Foi o último fundibulário do batalhão dos Jizores.

Era uma tradição. Em qualquer batalha, os Jizores tinham sempre à frente um menino armado de uma funda. Sua missão era inspirar moral aos soldados, disparando sempre o primeiro tiro contra as tropas inimigas. Um tiro simbólico, sempre a uma distância segura e de onde sua pedra sequer seria capaz de causar algum estrago, mas sempre o bastante para provocar gritos de entusiasmo ao lembrar a lenda de Davi e Golias. Atirada a pedra, o menino era levado à tenda dos comandantes e o real conflito se iniciava.

Em maio de 1643, porém, um rapaz chamado Eriberto, recrutado entre os faz-tudo do exército como seus antecessores, armou sua funda por ordem do comandante. Estava ainda a girar a correia quando foi atingido pelos estilhaços de um morteiro inimigo e morreu ali mesmo, diante de um pelotão perplexo.

Não houve batalha. O exército inimigo se recolheu e entregou aos Jizores o artilheiro assassino, cujo nome foi relegado ao esquecimento. E a funda foi definitivamente abandonada.

Alguns historiadores consideram a morte de Eriberto o marco de nascimento da guerra moderna.