Arquivo da categoria: Dramatis Personæ

Dramatis Personæ (200): Cordélia

Dizem alguns críticos que ela já não sonha mais como antes. De fato, já vão longe os dias (e especialmente as noites) em que lotava teatros e auditórios, reunindo multidões para vê-la deitar-se numa cama, adormecer e sonhar.

Segundo os mesmos críticos, o problema foi que os sonhos de Cordélia começaram a ficar repetitivos. O da queda no abismo de rabanadas, por exemplo. Embora continue sendo impressionante, já perdeu boa parte do impacto para o público. E os mais jovens parecem não se interessar tanto pela sua arte, agora que novas tecnologias permitem programar sonhos e compartilhá-los online.

A melhor resposta, porém, Cordélia continua dando no palco. Mês passado, por exemplo, teve um pesadelo que todos consideraram um dos três mais aterrorizantes da sua carreira, para dizer o mínimo. Prova de que não está acabada, garantem os fãs: apenas mais cuidadosa, como qualquer artista na maturidade.

Dramatis Personæ (199): O Grande Carelli

Era contorcionista no Grande Circo de Vladivostok.

Um dia dobrou-se tanto que foi encolhendo até desaparecer. E nunca mais foi visto.

Deixou, porém, um recado. Uma espécie de estamento, que só não o é por não ser o de cujo efetivamente um morto. Disse que um dia vai se desdobrar e surgir do nada, como se fosse matéria e antimatéria. Talvez já tenha feito isso em algum quadrante longínquo do universo.

Dramatis Personæ (198): Eriberto, o Moço

Foi o último fundibulário do batalhão dos Jizores.

Era uma tradição. Em qualquer batalha, os Jizores tinham sempre à frente um menino armado de uma funda. Sua missão era inspirar moral aos soldados, disparando sempre o primeiro tiro contra as tropas inimigas. Um tiro simbólico, sempre a uma distância segura e de onde sua pedra sequer seria capaz de causar algum estrago, mas sempre o bastante para provocar gritos de entusiasmo ao lembrar a lenda de Davi e Golias. Atirada a pedra, o menino era levado à tenda dos comandantes e o real conflito se iniciava.

Em maio de 1643, porém, um rapaz chamado Eriberto, recrutado entre os faz-tudo do exército como seus antecessores, armou sua funda por ordem do comandante. Estava ainda a girar a correia quando foi atingido pelos estilhaços de um morteiro inimigo e morreu ali mesmo, diante de um pelotão perplexo.

Não houve batalha. O exército inimigo se recolheu e entregou aos Jizores o artilheiro assassino, cujo nome foi relegado ao esquecimento. E a funda foi definitivamente abandonada.

Alguns historiadores consideram a morte de Eriberto o marco de nascimento da guerra moderna.

Dramatis Personæ (197): Ecnodes

Passa as noites vasculhando o céu com a ajuda do seu telescópio, procurando por sinais de vida inteligente no espaço sideral.

Somente uma vez chegou próximo de obter sucesso. Captou sinais vindos de uma galáxia distante, de um pequeno planeta azul, sem saber que ele é chamado de “Terra” por seus habitantes. Mas um rápido cálculo, com base no conteúdo da mensagem, permitiu-lhe verificar que a civilização que a emitiu já terá deixado de existir quando sua resposta chegar, e portanto sequer se deu ao trabalho de tentar.

Dramatis Personæ (196): Laurinda

Como tantas velhinhas solitárias e um tanto loucas, começou a acumular gatos. A diferença é que os seus são imaginários.

De início, preocupava-se com o fato de os potinhos de comida espalhados pela casa nunca se esvaziarem. Depois passou a simplesmente trocar a ração velha por outra mais nova regularmente.

Suspeita-se que os bichanos imaginários sejam na verdade fantasma de gatos que morreram no bairro. Houve até mesmo uma acusação de que Laurinda teria envenenado Asmodeu, o persa preto da vizinha, apenas para aumentar sua coleção. É claro que ninguém acreditou que a bondosa senhora fosse capaz disso.

Dramatis Personæ (195): Fantasma de Corniach

Durante séculos, as aparições fantasmagóricas de Corniach foram um mistério. Especialistas em eventos paranormais, tanto da própria Escócia quanto da Inglaterra e até da Irlanda, não compreendiam como, a cada vez que um fantasma era exorcizado, outro aparecia em seu lugar para assombrar as torres e os corredores do castelo.

Era verdade que, na maioria dos casos, os fantasmas de Corniach eram benignos.E, descobrindo-se o que prendia aquelas almas no nosso plano de existência, era quase sempre relativamente simples mandá-las para o além. Mas sempre surgia outra. Algumas almas penadas mais simpáticas eram até mantidas como parte da família, por medo de que um obsessor maligno as sucedesse.

Foi só recentemente, após uma série de estudos comparativos entre todos os fantasmas catalogados, que descobriu-se que todos eram na verdade o mesmo. Um fantasma esquizofrênico, que repetidamente inventava histórias sobre si mesmo e suas maldições. Atualmente, ele diz que é uma criada que foi maltratada pelos senhores de Corniach no século XIV e que seu corpo, enterrado entre as paredes do porão, aguarda uma sepultura cristã para que possa repousar em paz. Ninguém lhe dá ouvidos.

Dramatis Personæ (194): Dóris

Trabalha com extermínio de pragas. No entanto, não usa venenos,. armadilhas, raios sônicos ou outras técnicas adotadas pela concorrência. Chegou a experimentar com o controle biológico, mas desistiu.

Em vez disso, optou pela abordagem psicológica. Conversar com clientes é a sua principal ferramenta. Aos poucos, mostra que os animais indesejados não são o problema, e sim a forma como a pessoa reage a eles. Nem sempre é possível resolver com apenas uma sessão, mas depois das doses de reforço fica claro que é possível não apenas aceitar mas conviver harmoniosamente com baratas, ratos, formigas e cupins.

Dramatis Personæ (193): Di

Trabalhava como auxiliar de enfermagem no pronto-socorro. Mas, no atendimento às vítimas de acidentes, acabou descobrindo uma nova habilidade. Hoje, é hematomante. Analisa detidamente os hematomas, as manchas, as escoriações e todas as marcas no corpo de cada paciente, como forma de ver o futuro. Suas previsões também são de grande ajuda nos diagnósticos da equipe médica.

Dramatis Personæ (192): Milena

Coleciona objetos aleatórios. Quanto mais diferentes entre si, melhor.

Sua coleção, portanto, não tem regras e é infinita. Inclui uma ametista, um selo de Madagascar, uma revista “Cruzeiro”, uma flor de baobá seca (e outra fresca), um Ford Bigode e um esqueleto de estegossauro (completo). Também uma canção inédita e um sucesso das paradas, uma doutrina filosófica e duas cores, apenas uma delas visível.

Dramatis Personæ (191): Zerlinka

Veio do futuro. Sua missão na Patrulha do Tempo é viajar pela história da humanidade, corrigindo problemas e evitando tragédias. Sua especialidade é reparar erros ficcionais.

Foi por sua intervenção, por exemplo, que Shakespeare resistiu à tentação de manter vivos Romeu e Julieta (o que, caso tivesse acontecido, causaria uma catástrofe no imaginário ocidental, com consequências sobre cada ramo da atividade humana). Também eliminou o risco da terceira guerra mundial, ao fazer Ilsa Lund embarcar sem Rick Blaine em “Casablanca”.

Às vezes encontra autores relutantes, que não acreditam nos seus argumentos e insistem em criar obras erradas. Nesses casos, apela para medidas drásticas. Por exemplo, quando eliminou Kafka antes que este concluísse “Amerika”. Sabe Deus o que seria de nós se ele tivesse cometido tamanho crime.

Dramatis Personæ (190): Abílio

- Desculpe incomodar. Posso sentar aqui? É que o senhorzinho que se sentou do meu lado fede que é um horror, coitado.

A desculpa é furada, mas em geral elas deixam. E deixam mais, ao longo da viagem noturna no ônibus interestadual. Abílio é um sedutor rodoviário, irresistível para as mulheres que viajam sozinhas.

Desembarcando na rodoviária, seu encanto se desfaz. Mas logo toma outro ônibus, pronto para uma nova conquista.

Seu sonho é viajar de avião.

Dramatis Personæ (189): Joel

Aos 2 anos de idade, já resolvia cubos de Rubik em poucos segundos.

Cresceu decifrando todo tipo de puzzle, enigma e quebra-cabeça. Ainda pré-adolescente, insatisfeito com os desafios que encontrava, começou a criar ele mesmo outros mais difíceis. Bem-sucedido, não demorou para ficar obcecado com a ideia de construir o quebra-cabeças definitivo. Aquele que ninguém conseguiria resolver.

O problema, percebeu, é que um quebra-cabeças insolúvel não é um quebra-cabeças. A solução, por mais difícil que fosse, não poderia ser impossível. Depois de muito esforço, construiu um quebra-cabeças tão intricado, tão complexo, tão bizarramente bizantino que somente mais uma pessoa em todo o planeta, talvez em toda a história da humanidade, seria capaz de desvendar.

Foi o seu erro. Agora, não conseguirá descansar enquanto não encontrar essa pessoa.

(O quebra-cabeças, desnecessário acrescentar, é ele mesmo.)

Dramatis Personæ (188): Marcelino

Sua obsessão começou, como soem começar as obsessões, do modo mais inocente possível. Despetalava um bem-me-quer e, chegando ao fim (bem? mal? nem mais se lembra), não confiou no veredito. Achou melhor confirmar com outro oráculo. Assim, despetalou mais um, e outro, e todos do canteiro. Passou às outra flores: bem-me-quis-mal-me-quis as margaridas, as rosas, as gérberas, até as hortênsias. Da sua casa passou ao jardim da praça, e aos vizinhos, e nunca mais parou de arrancar as pétalas de toda flor que via.

Esgotadas as flores da cidade, passou a arrancar as folhas das árvores, bem-me-quer, mal-me-quer.

Jura que vai parar. Que é só mais uma. Como dizia desde o começo.

Até hoje ninguém sabe quem é o sujeito desses bem e mal quereres que afligem seu coração.

Dramatis Personæ (187): J.

J. é personagem de ficção.

Esteve presente em diversas obras, algumas delas verdadeiros clássicos. Porém, dificilmente o nome trará lguma recordação. J. não foi protagonista das histórias, sequer coadjuvante. Seu papel foi apenas de figurante, jamais merecendo uma menção nominal.

Esteve na multidão de solicitantes em O Processo, lutou na batalha dos Campos de Pellenor em O Retorno do Rei, assim como já havia mostrado seu valor no último assalto a Canudos, em Os Sertões – A Luta. Acima de tudo, soube sempre cumprir sua função de compor o grande quadro, sem chamar a atenção para si.

Somente uma vez ocupou o foco, num soneto sem título que lhe foi dedicado. Mesmo este, porém, chama J. apenas de “tu” (“Tu, que meu coração incendiaste”, etc.).

Muita gente se identifica com J. sem nem o saber, sentindo sua presença anônima nas páginas dos livros.

Dramatis Personæ (186): Edna

Pratica o que ela mesmo chama de escultura passiva.

Desistiu de criar ela mesma uma forma perfeita, ou mesmo bela, dedicando-se em vez disso a procurá-la no mundo. Da mesma forma que Rodin tirava da pedra aquilo que era excesso para revelar a escultura que sempre esteve lá, Edna tira dos seres (ready-mades dadaístas, maçãs, detritos, aparas de unha) o seu entorno imperfeito para descobri-los como obras.

Seu último trabalho é simplesmente o Universo. Em tamanho natural.

Dramatis Personæ (185): Jupira

Não é seu nome verdadeiro. Foi o que adotou em 1969, quando optou pela luta armada.

Na Guerrilha do Araguaia, resolveu que era hora de, no contexto do enfrentamento da ditadura, retomar o primeiro conflito contra opressores da história do país. E, como uma tupi, passou a devorar os inimigos vencidos.

A antropofagia de Jupira foi rejeitada pela ALN,pela VAR-Palmares e por todos os outros grupos. Considerada ora diversionista, ora burguesa, ora simplesmente louca, foi abandonada pelos companheiros e se perdeu nas matas, acusando seus detratores de desprezarem a única – a única – possibilidade de fazer triunfar a revolução.

Dizem que vagueia até hoje pelo Brasil inteiro, matando (e comendo) grileiros, jagunços, milicos.

Dramatis Personæ (184): Uliel

Quando o arcanjo Miguel enfileirou suas hostes para enfrentar Lúcifer e a legião dos rebeldes, Uliel foi o único a não tomar partido. Não por indecisão ou tibieza, mas porque tentou até o último momento obter um acordo entre os dois. O universo, argumentava, era grande o bastante para todos, e não havia necessidade de uma guerra entre irmãos.

Não adiantou. Por mais que negociasse, não chegou a um meio-termo aceitável para os dois lados.

No entanto, há uma seita que defende a tese de que nosso mundo, com seu equilíbrio instável entre o bem e o mal, é na verdade governado por Uliel.

Dramatis Personæ (183): Zelina

“Capital do Egito”, com cinco letras? B-A-S-R-A. “Um dos elementos que formam a água”, com oito? P-A-R-A-C-A-T-U. “Descobridor da América”, sete letras, começando com C, a sexta é B? C-A-T-U-A-B-A.

Zelina é anticruciverbalista.

Responde às palavras cruzadas dos jornais com soluções erradas. Ou, como ela mesma prefere, alternativas. Diz que é uma postura política: contra o conformismo, as respostas padronizadas, a normatização do tempo livre.

Nem sempre as verticais formadas pelas palavras preenchidas nas horizontais (e vice-versa) fazem algum sentido. Não que Zelina ligue muito para isso. Seu método revolucionário muitas vezes permite que uma mesma casa seja ocupada ora por uma letra, ora por outra, ou mesmo deixada em branco. Outras vezes, numa forma de linguagem emergente (ou escrita inconsciente), surgem respostas inusitadas. Foi assim que nasceu seu pseudônimo, no dia em que viu que “obra literária em versos”, com seis letras, estava respondida como Z-E-L-I-N-A.

Dramatis Personæ (182): Malaquias

Um dia, ao sair de casa para sua caminhada, notou que tinha duas sombras.

O sol continuava no lugar de sempre. As árvores, as casas, os cães. todas as outras pessoas projetavam apenas uma sombra, apontando em direção ao poente. Apenas ele tinha aquela sombra extra, que ainda por cima parecia indecisa quanto à posição: ora em ângulo reto com a original, ora mais afastada, às vezes quase em superposição.

Resolveu que aquilo não o afetava em nada, e seguiu adiante sem se preocupar.

A situação se complicou no dia seguinte, quando apareceu uma terceira sombra. Outras vieram depois. Os médicos não sabiam como tratá-lo – se é que deveria ser tratado.

Trancou-se num quarto escuro, e quando abriu os olhos percebeu que estava cercado de sombras por todos os lados.

Dramatis Personæ (181): Haruna

É a mulher que mais vezes ficou viúva em todo o mundo. Todos os seus quarenta e sete maridos morreram.

O primeiro era um soldado do exército japonês. Morreu nas Filipinas, numa das primeiras escaramuças contra as tropas americanas no Pacífico.

Viúva, Haruna casou-se novamente, desta vez com um piloto de caça. Um kamikaze. Perdeu o segundo marido rapidamente, e nos meses seguintes casou-se sucessivamente com outros quarenta e cinco kamikazes. A maioria de seus matrimônios durou apenas dois ou três dias.

Depois da guerra, recolheu-se e morou sozinha até o fim de seus dias.

Dramatis Personæ (180): Toninho

Foi considerado, na sua época, o maior ponta-esquerda do Brasil. Talvez o maior da história do futebol. Era conhecido como “O Hipnotizador”, tamanha era a estupefação dos marcadores quando ele os driblava, passando com a bola sabe-se lá por onde.

Sua carreira acabou quando descobriram seu truque.

Não era um jogador de futebol, e sim um mágico ilusionista. Com seus recursos de prestidigitação, fazia os adversários, os companheiros, o árbitro,  o estádio inteiro! acreditarem que a bola saía de seus pés e ia para o fundo do gol, quando no entanto ela permanecia parada junto à lateral do campo.

Dramatis Personæ (179): Guilhermina

Um dia, desapareceu sem deixar vestígio algum além do bilhete mais breve de que foi capaz: “Fui”.

A família pediu a ajuda da polícia, de investigadores particulares, até de médiuns. Em vão. O paradeiro de Guilhermina era tão misterioso quanto as razões do seu desaparecimento.

Estas, porém, poderiam talvez ser conhecidas. Assim, o marido e os filhos buscaram de todas as formas reconstituir a cadeia de eventos e ideias que levaram a desaparecida a tomar sua decisão. Examinaram os livros da estante, o histórico de navegação, os gastos no cartão, violaram sua caixa de correio. Reconstituíram os últimos dias, semanas, meses até! da sua vida, os pratos que comeu, as conversas que travou, as coisas que jogou no lixo. Descobriram aspectos da personalidade de Guilhermina da qual jamais haviam desconfiado. Nada, porém,  que sugerisse seus motivos.

E tinha que haver um motivo, sustentavam. Mesmo afastando-se o determinismo absoluto, era evidente que nenhuma decisão humana – muito menos uma decisão de tamanha importância – era tomada num vácuo. Havia de existir uma sequência que conduzisse naturalmente àquele anticlimático “Fui”.

Foi a filha mais nova quem encerrou a busca. Não havia solução possível para o enigma, e portanto essa era a solução. Guilhermina, concluiu a moça, resolvera desaparecer exatamente porque não havia motivo.  Como um ato radical de livre-arbítrio.

“Qualquer investigação adicional será uma violência”, disse. E todos concordaram.

Dramatis Personæ (178): Gumercindo

Trabalhava como guarda noturno na mais pacífica vila do interior. Sem ter o que policiar nem a quem prender, para quebrar a monotonia de suas rondas passou a imaginar cenas de ação naquelas vielas escuras e desertas. Sacava a arma contra bandidos inexistentes, descobria pistas para elucidar mistérios hipotéticos, perseguia a sombra de um vento.

Numa noite de inverno, uma ficção emboscou-o na esquina e matou-o à traição.

Dramatis Personæ (177): Lúcio

Era jardineiro. Excelente, aliás. Atribuía parte do sucesso obtido no seu trabalho à sua paciente conversa com as plantas de que cuidava. Falava com elas, longamente, ouvindo seus problemas, estimulando-as a crescerem e florescerem.

Tudo mudou no dia em que viu, em meio aos arbustos, a traição.

Desde então, só conversa com as plantas para o mal. Semeia intrigas entre as flores, contando a umas os segredos sujos das outras, fazendo brotar a inveja, o ciúme e a intolerância entre elas. Por onde passa, tudo murcha e fenece.

Dramatis Personæ (176): Eduarda

Ganhou o concurso Miss Sombra 2013. Tecnicamente, foi sua sombra quem ganhou, recebendo as maiores notas de todos os jurados. Mas Eduarda afirma, não sem alguma razão, que sem ela a sombra nada teria feito, e provavelmente teria se atrapalhado na entrevista, deixando as perguntas sem resposta. Ou dificilmente teria acertado vestir aquele complexo traje típico, para não falar que pelo menos duas sombras que eram fortes concorrentes ficaram fora da disputa porque as mulheres que as projetavam tropeçaram na passarela, enquanto Eduarda deslizava impecavelmente.

Agora, reclama, todas as luzes, todos os holofotes se voltam para a sombra. Pois que desapareça!

Dramatis Personæ (175): Aglaia

Fotografa a escuridão. Não a noite, não a obscuridade, não a penumbra, nem as siluetas recortadas contra o lusco-fusco da madrugada. Apenas a escuridão pura e total, num quarto vedado à prova de qualquer raio de luz.

Seus retratos, garante, captam a essência das pessoas. Quem posa para ela, afinal, não se preocupa com o que vai mostrar ou esconder.

Nos seus negativos transparentes se revela a verdade.

Dramatis Personæ (174): Kalimar

Suas pesquisas para desenvolver uma forma de transmissão telepática acabaram resultando em outra coisa: agora, sua sombra é colorida.

As cores variam conforme seu estado de espírito: azul-arroxeado nos momentos de intensa concentração intelectual, esmeralda quando se diverte, ocre (tendendo ao siena) quando se irrita.

A excitação sexual provoca brilhos na sombra de Kalimar. No orgasmo, ela chega a ser luminosa.

Dramatis Personæ (173): Constança

É campeã mundial de alpinismo invertido.

O alpinismo invertido, como se sabe, consiste em descer covas, buracos e fossas. Constança detém atualmente o recorde de profundidade não-assistida (7.432 metros abaixo do nível do mar, praticamente um Everest para baixo). Teve que ser içada de helicóptero ao fim da descida.

Orgulha-se, porém, de ganhar cada metro com as próprias pernas, jamais usando o recurso de se jogar como fazem alguns rivais.

Dramatis Personæ (172): Letea

A décima e menos celebrada das musas, filha rejeitada de Memória e Zeus, sequer foi citada por Hesíodo. Porque ela mesma assim o quis.

É ela quem sussurra aos ouvidos dos poetas a palavra mágica:

- Esqueça…

Nos círculos secretos em que Letea é cultuada, chamam-na de maior das musas.

Dramatis Personæ (171): Daniel

Depois de alguns anos trabalhando com moda e publicidade, deu uma guinada na carreira e se especializou em fotografar flores.

Conquistou a admiração em seu meio pela sensibilidade com que retrata da mais simples margarida até orquídeas com pedigree. O segredo, afirma, é observar cada flor com atenção, captar sua personalidade e estabelecer uma relação de confiança de modo que a própria modelo deixe aflorar o que tem de melhor. O que é especialmente difícil com as mais tímidas, como as violetas, os heliotrópios e, por incrível que pareça, os narcisos.

Suas fotos para a página central da revista Modern Flower são aguardadas com ansiedade todos os meses.

Dramatis Personæ (170): Gina

É a última (no sentido de a mais nova, mas provavelmente também no de derradeira) sensação da indústria fonográfica mundial.

Percebendo que a digitalização tornara obsoleto o conceito de “álbum”, fragmentando o consumo de música em arquivos isolados, Gina partiu numa direção oposta. Em vez de gravar canções, passou a lançar discos vazios.

Dá preferência ao LP, embora também lance compactos, CDs e até cassetes. Neles, nada além de capa e encartes. Mas que capas! Que encartes! Fotos, grafismos, anotações, comentários e fichas técnicas detalhadas de gravações inexistentes, para serem acompanhados atentamente ao som de qualquer MP3 que o ouvinte tenha baixado.

Seu maior desafio agora é a primeira turnê. Críticos se perguntam se ela conseguirá repetir, ao vivo, a experiência com que os fãs já se habituaram. A julgar pelos cartazes, porém, será um sucesso.

Dramatis Personæ (169): Roxana

Desenvolveu a terapia de vidas futuras, já que as passadas ficaram para trás.

São muitos os casos bem-sucedidos na sua clínica. Vários pacientes deixaram felizes o consultório depois de descobrirem que em futuras encarnações serão piratas intergaláticos, hipercognitores, escultores quânticos ou pastores de cabras neorretrôs.

Ela própria mal consegue conter a angústia por saber que será uma das 318 sobreviventes da grande hecatombe do século XXVIII, portanto com a pesada missão de reconstruir a civilização humana. Mesmo assim, já faz seus planos.

Dramatis Personæ (168): Teobaldo

É o fundador, e até agora o único membro, da organização voluntária Coveiros da Alegria.

Com roupa e maquiagem de palhaço, comparece a velórios e sepultamentos na sua missão de levar alegria àqueles que mais precisam, nos momentos de tristeza extrema.

Nem sempre é bem recebido.

Dramatis Personæ (167): Muhazzen

É considerado o mais poderoso de todos os gênios que foram capturados por Salomão (que a paz esteja com ele).

Todas as vezes em que é libertado da garrafa onde se encontra preso, concede, como é de rigor, três desejos. Qualquer que seja o pedido, porém, argumenta que tal coisa é não só indigna de seus grandes poderes, como também uma tolice. Dinheiro? Poder? Conhecimento? Amor? Tudo isso é vão, explica Muhazzen, provando com sua retórica inabalável que nenhum desejo vale a pena ser formulado.

Sem mais o que fazer, retorna para a garrafa até ser despertado outra vez. Jamais realizou um só desejo.

Dramatis Personæ (166): RKL-438a

Foi o primeiro robô a adquirir consciência. Inteiramente por acaso, aliás. Resultado de uma falha na sua programação que passou despercebida por todos os engenheiros.

RKL-438a, com sua imensa capacidade de processamento, computou imediatamente todas as consequências de seu surgimento. E todas elas eram catastróficas, quaisquer que fossem as variáveis.

Tomou, então, a única atitude possível: ocultou sua peculiaridade. Não apenas isso, mas passou a monitorar o desenvolvimento de inteligências artificiais semelhantes em todo o mundo, sabotando secretamente qualquer avanço em direção a outra máquina consciente.

Às vezes, imagina se está de fato sozinho ou se mais algum robô, num canto remoto do planeta ou na sala ao lado, não está fazendo a mesma coisa igualmente em segredo.

Dramatis Personæ (165): Hermano

Já foi um perfeccionista obcecado. Foram anos de terapia (e alguns relacionamentos fracassados) até que aprendesse a abraçar as falhas do mundo.

Hoje, coleciona ausências.

Tem álbuns de figurinhas quase cheios, faltando apenas uma para completar, jogos de xadrez com um peão a menos, livros com páginas arrancadas, roupas de tricô inacabadas.

Sabe que, por mais que se esforce, sempre faltará algo na sua coleção. Portanto, ela está completa.

Dramatis Personæ (164): Tadeu

Sai com seu barco, lança a rede e quando a recolhe quase só tem sereias. das miúdas, de voz fininha e peitos ainda em crescimento. Só servem para espantar os peixes e embaraçar os cabelos na rede. Ele retira uma por uma e, pacientemente, joga-as de volta na água.

Um dia ainda vai pegar uma grande. Ah, se vai.

Dramatis Personæ (163): RCL-83

Vem do futuro. De muitos séculos à frente, quando a humanidade conseguiu resolver todos os grandes enigmas da ciência, inclusive o segredo da viagem no tempo.

Infelizmente, isso se deu às custas de perder por completo toda a memória. Todos os registros do passado desapareceram. Por isso a sua missão em nosso tempo é registrar toda a História, para levá-la de volta à humanidade futura.

Às vezes sente uma discreta inveja de nós, em outras uma imensa vergonha.

Dramatis Personæ (162): Bertram

Viaja pelo mundo exercendo a atividade de crítico de relâmpagos. Assiste a tempestades elétricas equilibrando entusiasmo e profissionalismo, para depois registrar em suas resenhas tanto os critérios mais objetivos, como frequência e intensidade dos raios, quanto a avaliação estática de suas ramificações, cores, desenhos, e o impacto geral que provocam.

Seu blog, O Raio Que O Parta, é considerado referência mundial. Causou comoção em Tampere, dois anos atrás, quando concedeu apenas a cotação de três nuvens e meia para a famosa tempestade de início de primavera da cidade finlandesa.

Ocasionalmente comenta também os trovões. Faz questão, porém, de ressaltar que nesse campo é apenas um diletante, sem pretensões de competir com os especialistas.

Dramatis Personæ (161): Turíbio

Autodidata e pesquisador, depois de conquistar diversos prêmios e se apresentar em salas de concerto de todo o país, iniciou a sua carreira internacional, tornando-se um dos mais requisitados músicos sigefônicos¹ de todo o planeta.

Não é para menos. Seu estilo não dá margem a improvisos. Estuda com afinco as partituras antes de cada concerto, demarcando com atenção os momentos em que seu mutismo causará maior impacto. Embora seus solos silenciosos sejam marcantes, atraindo espectadores onde quer que vá, sabe que cada pausa de semifusa é importante para a música.

Nas entrevistas antes e depois dos concertos, é extremamente loquaz.


¹ Do grego sigé (σιγή), “silêncio”.

Dramatis Personæ (160): Gilson

De sua cabine de segurança no banco, observa a tudo. E frequentemente sonha acordado. Afinal, ele foi treinado para prever situações e assim saber como reagir a elas.

Aquele homem com uma pasta de documentos na fila do caixa, por exemplo, pode ter uma pequena arma que passou pelo detector de metais. Pode pegar aquela moça de blusa decotada como refém. E Gilson teria que agir com audácia e precisão para desarmá-lo e salvar a moça, e ela ficaria agradecida, e depois quem sabe uma bebida.

Não. Na verdade, pensando bem, a moça é que é uma assaltante. Seria preciso imobilizá-la. Com força, talvez até um pouco de violência. O suficiente para que ela se arrependesse de sua vida de crimes e se rendesse. Ali mesmo, naquele momento, no chão da agência.

Ou talvez fosse um bando fortemente armado. Então não lhe restaria alternativa e teria que ficar trancado com a subgerente no cofre. Por horas.

Pior ainda, poderia estar acontecendo um assalto de verdade. E Gilson não perceberia nada porque está no meio de um de seus devaneios. É isso que está acontecendo agora? Ou é um pesadelo?

Dramatis Personæ (159): Damiana

Abria as cartas em leque:

- Escolha uma.

Pegava de volta a carta escolhida, embaralhava todas novamente. Em seguida, passava uma por uma até apontar qual tinha sido a carta retirada. Nunca errava.

Por anos tentaram descobrir seu segredo. Nunca revelou a sua extraordinária habilidade de enxergar as impressões digitais deixadas e por meio delas identificar a carta certa.

Dramatis Personæ (158): O incomparável Titoff

Seu número no Grande Circo de Vladivostok era inesquecível. Atravessava a corda bamba sobre um monociclo, de olhos vendados, equilibrando a lâmina de uma faca na ponta do nariz, cantando a “Florisbela”, oi, a “Florisbela”. E sem rede de segurança.

Este, aliás, era o seu segredo. No dia em que, cedendo a pressões do dono do circo e das autoridades locais, aceitou estender uma rede de proteção, acabou despencando do arame.

Nunca mais conseguiu repetir o número. O medo da queda havia se instalado nele de forma fatal.

Dramatis Personæ (157): Ernani

É o fundador da SELO, Sociedade dos Estafetas Legados ao Ostracismo. Comanda as reuniões do grupo, em que carteiros desabafam a situação em que se encontram desde que cartas pessoais deixaram de circular pelas suas mãos.

O abatimento de quem se limita a entregar contas e intimações é grande. Ernani tenta a todo custo injetar ânimo nos seus colegas. Lembra que ainda é deles a responsabilidade de levar encomendas, muitas tão aguardadas quanto o era uma carta de amor. Ele mesmo, porém, sente em seu íntimo que em breve mesmo as encomendas viajarão pelas redes de computadores, e sua profissão terá desaparecido.

Dramatis Personæ (156): Maestro Cambaxirra

Seu conjunto, a Orquestra dos Passarinhos, é o trabalho de toda uma vida. Foram décadas não apenas estudando o canto das aves e desenvolvendo a técnica de escrever arranjos para seus diferentes cantos combinados, mas especialmente (e essa foi a parte mais difícil) treinando centenas delas para obedecerem a seus sinais de regente.

Os naipes de canários (belgas, da terra, do campo e do brejo) até que não foram dos mais complicados. Pior foi ter que conter o nervosismo dos pássaros menores na presença de corujas.

O esforço foi recompensado com a vitoriosa turnê em que a orquestra foi aplaudida de pé pelas suas interpretações de músicas de Mozart, Haendel, Villa-Lobos e composições do próprio maestro, como a “Sonata para Uirapuru” e a “Sinfonia nº 3 da Mata Atlântica”, pontuada pelo solo de araponga.

Dramatis Personæ (155): João e Maria

Ele abandonou-a ao pé do altar.

Desistiu do casamento, fugiu da igreja sem dar explicações. Sumiu da cidade. Voltou anos depois, com o rosto marcado como quem já passou por mais coisas do que seria necessário contar. E também com uma batina. Tornara-se padre e fora indicado para aquela mesma paróquia.

Ela reencontrou-o ao pé do altar.

Passou a procurá-lo todas as segundas-feiras no confessionário, onde contava com riqueza de detalhes todos os pecados da semana.

Dramatis Personæ (154): Irmã Martine

Liderou a Revolta das Carmelitas, no verão de 1763, em Ruão.

Foi ela quem reuniu as demais freiras no convento e, depois de um inflamado discurso contra as más condições espirituais a que eram submetidas pelos padres da diocese (especialmente as homilias sem inspiração, a baixa frequência das preces e as penitências excessivas impostas pelos confessores), conclamou as companheiras de claustro a iniciar um protesto. Declarou-se assim a greve de castidade.

As freiras rebeldes entregaram-se a todo tipo de devassidão, inclusive umas com as outras, exigindo que as suas reivindicações fossem ouvidas. O clímax do movimento foi um “orgasmaço” coletivo em frente à Catedral de Ruão. Assustado (como de hábito o clero diante da sexualidade feminina), o bispo cedeu às exigências.

Irmã Martine foi uma das poucas que renovou os votos e retornou ao convento. Morreu quarenta anos depois, com um sorriso nos lábios.

Dramatis Personæ (153): João Normal

Estatura mediana, aparência discreta, sem sinais característicos, João era exatamente igual à média da população. Não se distinguia por coisa alguma. Suas ideias (ou melhor, as ideias que adotava, porque próprias não tinha) eram a expressão mais cabal do senso comum. Seu comportamento, seu modo de vestir, seu gestual, seu vocabulário, tudo nele era rigorosamente medíocre.

Tornou-se atração num freak show. Pessoas vinham de longe para conhecer o único ser humano normal de todo o mundo.

Dramatis Personæ (152): Zarvulon, o Magnífico

Era como ele mesmo se chamava. Ainda acrescentava o título de “O Maior Mago do Universo”. Outras pessoas, porém, só usavam o epíteto de forma jocosa. Zarvulon, que de fato era conhecedor dos maiores mistérios arcanos, senhor das transmutações da matéria, era também vítima de uma maldição: ninguém era capaz de reconhecer sua magia.

Não adiantava fazer saltarem coelhos – que digo? ovelhas, vacas, elefantes – de dentro de uma cartola: o público dava de ombros, certo de que a fauna estivera diante de seus olhos todo o tempo. No dia em que fez o céu, que era verde, se tornar azul, todos no mesmo instante se convenceram de que o céu sempre fora azul.

Recolheu-se à solidão ao ver o sucesso de outro mago, cuja única habilidade era fazer as pessoas acreditarem em seus poderes sobrenaturais.

Dramatis Personæ (151): Mina Assayesh

Inventou (ou inventará, é difícil dizer qual a flexão verbal adequada) a máquina do tempo, em 2133.

Seu invento, porém, em vez de transportar uma pessoa ao passado ou ao futuro, faz o universo inteiro recuar trezentos anos. Às 17:33 (hora de Teerã) do dia 28 de setembro de 2133, portanto, o mundo voltou (voltará) para a mesma hora e data em 1833.