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Criptoetimologia (77): Trauma

Quando os visigodos comandados pelo rei Alarico I saquearam Roma, no ano 410, a palavra mais ouvida nas ruas da grande cidade era draumaz. Eram os gritos dos bárbaros, proclamando sua alegria pela conquista. A palavra significava “festa” (e também “sonho”, tendo originado dream em inglês e Traum em alemão).

Para os romanos, porém, o sonho era pesadelo e a festa era destruição. E, nos anos que se seguiram, trauma ficou sendo o nome de tudo o que fratura o corpo e o espírito.

Criptoetimologia (76): Fezes

Fēcī, fēcistī, fēcit, fēcimus, fēcistis, fēcērunt. É a conjugação do verbo latino faciō (fazer) no pretérito perfeito ativo. De um processo meio eufemístico, meio metonímico, o que alguém fez (fēcit) virou sinônimo de excreção. Ou seja: em Roma, bastava dizer-se que “fez”, sem precisar completar com o quê.

Criptoetimologia (75): Vesgo

Rodrigo (687? – 714) entrou para a História como o último rei dos godos. Antes mesmo de morrer nas mãos dos muçulmanos que lhe tomaram Toledo, viu o antigo reino gótico na Hispânia se esfacelar, com usurpadores assumindo o controle das províncias Tarrasconense, Narbonense, Galécia e Bética. Sobrou-lhe a Lusitânia, onde segundo a lenda foi enterrado.

Foram os usurpadores que passaram a se referir ao antigo rei apenas como “le visigoth” (“o visigodo”). E, além disso, a atribuir o fracasso político e militar à sua “visão torta”: Rodrigo era, de fato, estrábico. E “visigoth”, depois “vizgot”, deu origem a “vesgo” em português.

Criptoetimologia (74): P.I.P.O.C.A.

A essa altura todo mundo já conhece o caso da prova para crianças da quarta série em que uma tirinha da Turma da Mônica foi adulterada e saiu assim:

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Até aí, tudo bem. Quer dizer, não. Mas sempre pode piorar. E a coordenadora pedagógica se saiu com essa:

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A Gabriela, do Quinas e Cantos, sempre atenta a esses meandros da linguagem acadêmica, ficou sem entender o que a educadora quis dizer. E lançou um pedido de socorro no Twitter.

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Hoje, portanto, usamos a ciência da Criptoetimologia para desvendar o mistério: qual será o significado da sigla PIPOCA?

Produto Indicado Para Ocupar Carências Alimentares
Partícula Induzida Pela Oclusão de Cereal Aquecido
Popular Iguaria Pueril, Ocasionalmente Conquistando Adultos

Alguém mais?

Criptoetimologia (73): Fanfarra

Na ilha de Pharos havia um templo.

Só aí já existe material para horas de conversa sobre a origem das palavras. Porque em Pharos também ficava o Farol de Alexandria, e “farol” vem do nome da ilha. Templo, por sua vez, em latim era fanum, e os sacerdotes que entravam em transe eram chamados de fanaticus, de onde vieram “fanático” e, por redução, “fã”.

Mas esse templo específico tinha outras características.

Dedicado a Apolo, era onde celebrava-se o deus na qualidade de protetor dos músicos. Ali sempre havia música. Todos, fossem fieis e sacerdotes, estavam sempre cantando ou tocando instrumentos, nem sempre em harmonia. O local tornou-se conhecido, portanto, pela algazarra sonora em que estava sempre envolvido, e todo conjunto que tocava da mesma maneira alegre passou a ser chamado também de Fanus Pharos, expressão que originou “fanfarra”.

E mais tarde “fanfarrão”, que já é uma outra história.

Criptoetimologia (72): Tônico

Concorrente do Intrakol (produzido pelos Laboratórios asteur da Bahia), da Maravilha Curativa Humphreys, do Elixir Paregórico e do Vinho Fortificante Adams, entre outras panaceias do século retrasado, a Fórmula de Bonnet pode ter sido esquecida mas deixou sua marca.

Uma das formas encontradas pelo seu criador, o farmacêutico André de Bonnet, para diferenciar o produto da concorrência foi uma embalagem diferente. Uma miniatura de tonel, em cujo rótulo se via a representação de um atlas carregando um barril gigantesco. Sob a ilustração, o slogan: “A força de um tonel… num tonico“. Sim, nessa época os farmacêuticos se consideravam ótimos publicitários.

“Tonico”, portanto, era um diminutivo de tonel. Vendo o produto anunciado nas gazetas e exposto nas vitrines das pharmacias, a freguesia ignorava o nome oficial do produto e de seu criador, pedindo simplesmente um Tonico. E os farmacêuticos, por sua vez, para evitar confusões (já que invariavelmente havia na loja algum funcionário de nome Antônio, alcunhado Tonico), passaram a corrigir a freguesia: “Não é tonico, é tônico“. Outros concorrentes (dos quais o mais famoso sem dúvida foi Cândido Fontoura) gostaram da palavra e passaram a usá-la em seus próprios produtos, especialmente depois da morte de Bonnet, em 1893.

Criptoetimologia (71): Álibi

Em Andaluzia, na época do Califado de Córdova, viveu o emir Muhamad al-Ibn al-Mahad, conhecido como Al-Ibn. Temente a Deus e fiel seguidor do Corão, era porém um homem sempre propenso a sobrepor a misericórdia à Lei.

Era assim que, quando um réu era levado à corte, Al-Ibn frequentemente vinha em seu socorro, com seu testemunho: “Este homem não pode ter roubado o mercado ontem, pois esteve comigo todo o dia”; “Não é possível que o acusem de assassinato, já que na noite do crime estávamos jogando xadrez”; e assim por diante. Al-Ibn gozava de imenso prestígio, e jamais foi contestado pelos juízes cordoveses.

Do nome do emir veio a palavra álibi, inicialmente significando a pessoa cujo testemunho comprovava a presença de um réu em outro lugar no momento do crime, e em seguida o próprio argumento.

Criptoetimologia (70): Vizinho

Vizinho, ensina o Houaiss, se origina do latim vicīnus. Até aí foi fácil. E vicīnus

Do próprio latim. É um diminutivo de vicĭumProblema resolvido, a não ser pela dúvida sobre por que os romanos acharam que os vizinhos são pequenos vícios.

Uma interpretação é de que um vizinho é como um vício, com o qual nos acostumamos mesmo que seja nocivo. Outra explicação é que, da mesma forma que a grama do outro lado da cerca é sempre mais verde, também estamos sempre predispostos a apontar os erros dos que estão próximos em vez de olhar para os nossos próprios (Aut quomodo dices fratri tuo: “Sine, eiciam festucam de oculo tuo”, et ecce trabes est in oculo tuo?).

Outros criptoetimólogos, porém, sugerem que os romanos já estavam conscientes de que o pecado mora ao lado.

Criptoetimologia (69): Avestruz

Feras africanas e asiáticas eram a principal atração do venatio (ou bestiarium), evento que precedia os combates de gladiadores no circo romano e no qual animais selvagens eram chacinados num arremedo de caçada que se desenrolava na arena. E, além de leões, panteras e leopardos, os bestiarii frequentemente enfrentavam avestruzes.

Para promover ainda mais o espetáculo, os organizadores anunciavam aquele estranho animal trazido das savanas como a Avis Stryx (ave-bruxa), afirmando que era um monstro sobrenatural, criado por feiticeiras. O engodo se solidificou na língua, e avistryx se tornou, em Português, avestruz.

Criptoetimologia (68): Tambor

É cada vez mais desacreditada a hipótese de que a palavra seja originada do árabe ṭanbūr: este, afinal, é um tipo de alaúde, assim como a tambura indiana ou a tamburica espanhola, essas sim suas cognatas.

Tambor, porém, é percussão. Portanto, a história é outra.

O nome surgiu nos porões dos navios, das antigas birremes e trirremes romanas, onde o compasso dos remadores era marcado pelas batidas do contramestre num grande tímpano. A monótona marcação era acompanhada por um canto que reproduzia o som, primeiro da batida da baqueta, depois do couro sendo abafado com a mão: TAM-bor, TAM-bor, TAM-bor. E dessa onomatopeia veio o nome do instrumento.


Este foi o milésimo post do Almanaque. Obrigado por continuar vindo aqui.

Criptoetimologia (67): Elefante

Foi na Segunda Guerra Púnica, no fim do século III AC, que elefantes de guerra foram usados pela primeira vez em território europeu. Aníbal, o Cartaginês, partiu com eles da África, atravessou o Estreito de Gibraltar e adentrou a Península Ibérica, esmagando os exércitos romanos que ousavam enfrentar seus paquidermes.

A linha de frente era efetiva não apenas pela força bruta, mas pelo terror que causava em legionários que jamais haviam visto animais daquele porte. Ille phantasiae (“aqueles fantasmas”), gritavam, apavorados, julgando estarem diante de monstros infernais.

De ille phantasiae saiu illephanta, depois elefanta.

Criptoetimologia (66): Otário

Na Roma Antiga, vendedores ambulantes ou empregados de pequenos comércios recebiam como pagamento a sexta parte (sextavus) do produto de suas vendas. Quem trabalhava neste regime era conhecido como sextarium.

Alguns patrões mais inescrupulosos, aproveitando a chegada de bárbaros de diversas origens a partir do século III, começaram a renegociar o padrão tradicional. Passaram a oferecer não mais um sexto, e sim um oitavo (octavus) dos ganhos. Quem aceitava essa redução era chamado de octarium.

Por extensão, otário passou a ser todo aquele que se deixa enganar numa transação qualquer.

Criptoetimologia (65): Gambiarra

No ano de 1588, em pleno período da União Ibérica, D. Antônio de Portugal (chamado de Prior do Crato) tentou de todas as formas obter o apoio da Inglaterra às suas pretensões sobre o trono português. Prometeu a Isabel I todo tipo de facilidades no comércio com o Brasil e os Açores; ofereceu reforços  para a luta contra a Áustria; finalmente, cedeu os direitos sobre a rota de comércio na região do Rio Gâmbia (aproximadamente, a área onde hoje fica a República da Gâmbia).

A expectativa era de que, em troca de tantos favores, Isabel I ajudasse o nobre português a expulsar Filipe I de Lisboa. Mas Antônio do Crato ficou a ver os navios ingleses partindo e voltando, carregados de mercadorias, e morreu em 1595. Portugal só recuperaria sua autonomia em 1640.

Devido ao fracasso da negociação, o apoio recebido dos ingleses em troca do comércio na Gâmbia foi chamado de “gambiarra”, desde então sinônimo de coisa mal feita.

Criptoetimologia (64): Vedete

A palavra, evidentemente, vem do francês. E sua origem remonta aos tempos áureos do vaudeville. Naquela época, os esquetes de teatro, números circenses e apresentações musicais eram intercalados com atrações mais curtas, geralmente de dança, chamadas em conjunto de variétés et danses. A sigla V.D. virou substantivo, védé, e as dançarinas que se apresentavam nesses interlúdios eram as védettes.

No Brasil, quando o teatro de revista se estabeleceu como gênero, os números de maior sucesso eram justamente os das dançarinas “vindas diretamente de Paris”, como anunciavam os promotores dos espetáculos. Nem sempre eram realmente francesas¹, mas todas eram védettes.


¹ Manon de la Roche, por exemplo, era na verdade polonesa. Não se sabe qual era o seu verdadeiro nome, e nem se ela o revelou aos seus admiradores, que incluíram vários poetas da Corte e pelo menos um primeiro-ministro.

Criptoetimologia (63): Malandro

Malandro é uma palavra híbrida. Vem do latim malus, “mau” e do grego ἀνδρός (andrós), “homem”. Portanto, “homem mau”, palavra criada nos gabinetes dos acadêmicos inicialmente como sinônimo de vilão, malfeitor, bandido.

Foi com esse sentido que começou a ser usada para designar os marginais que infestavam o porto do Rio de Janeiro no século XVIII: punguistas, vigaristas, salteadores. A convivência com os capoeiristas acabou dando a esses lumpen a ginga e a malícia que acabou se tornando requisito fundamental para ser um verdadeiro malandro.

Malandragem, afinal, acabou sendo, tanto quanto o étimo, algo híbrido: no limite entre a arte e o crime, entre o permitido e o proibido, entre o herói e o vilão.

Criptoetimologia (62): Iogurte

Da próxima vez que alguém lhe oferecer um iogurte grego, recuse e diga que isso é uma redundância. Todo iogurte é grego. Pelo menos no nome.

A história da palavra tem raízes mitológicas e começa com a aventura de Jasão e dos Argonautas em busca do Velocino de Ouro. A missão, na verdade, era um embuste do rei da cidade de Iolco, na Tessália, que esperava com isso causar a morte do herói e assim eliminar o legítimo pretendente à coroa.

Tamanha desonestidade do rei fez que os habitantes de Iolco ficassem conhecidos como mentirosos e trapaceiros. Nada de bom podia vir de lá. A exceção, claro, era o delicioso fermentado de leite produzido na região. Aquilo, diziam os gregos, era a única coisa correta ( ὀρθός, orthos) que vinha de Iolco (Ιωλκός). Ou seja, o Iolco-orthos, que derivou para iocorthos, origem do nosso iogurte.

Criptoetimologia (61): Albergue

Existem pelo menos duas hipóteses plausíveis para a origem da palavra.

A primeira surge da rápida associação de toda palavra portuguesa começada em al (alcachofra, almoxarife, alquimia) com alguma raiz árabe. No caso, com uma contribuição do turco-otomano beg, uma das variações de bei – líder, senhor, chefe de tribo. Assim, al-beg inicialmente era a casa destinada a hospedar o emir ou baronete. Após a expulsão dos árabes da Península Ibérica, a palavra passou a ser usada por qualquer hospedaria que assim quisesse gabar-se de oferecer serviços dignos de um grande senhor.

Outra teoria afirma que a palavra surgiu na Suíça, com as primeiras redes de hospedarias disseminadas por “todas as montanhas” (alle Berge, em alemão), que já ofereciam descontos aos associados desde o século XVIII.

E assim você já sabe como começar o papo com aquela pessoa que você vai conhecer num albergue nas próximas férias. Boa sorte.

Criptoetimologia (60): Orangotango

Em 1602, quando os primeiros navios da Companhia das Índias Orientais chegaram a Sumatra, os marinheiros intrigados perguntaram aos malaios qual era o nome daquele grande símio de pelo alaranjado que vivia no meio das árvores. “Orangoutan”, responderam, e os acadêmicos que acompanhavam a expedição logo perceberam a formação da palavra: era o habitante (“outan”) da floresta (“orang”).

Erraram. A verdadeira origem da palavra estava bem mais próxima deles do que poderiam imaginar.

Em 1595, Cornelis de Houtman (1565-1599) fora o primeiro holandês a chegar à atual Indonésia. Apaixonou-se pelo orangotango, não só pela sua bela cor laranja (em holandês, “orange”) como pelo seu caráter manso (“tam”). E juntou as duas palavras para dar ao animal um nome na sua língua.

Os malaios gostaram tanto do apelido “orangetam” que passaram a adotá-lo, esquecendo rapidamente o nome original do orangotango. E, quando a Companhia das Índias apareceu por ali, anos mais tarde, já depois da morte de Houtman, a corruptela “orangoutan” era a forma dominante na língua corrente.

Criptoetimologia (59): Itabira

A versão oficial é de que o nome da cidade natal de Carlos Drummond de Andrade tem origem indígena: pedra (ita) que brilha (bira). A localidade teria sido batizada por Manoel do Rosário e João Teixeira Ramos, que descobriram ouro de aluvião perto do Córrego da Penha.

A verdade, porém, é outra.

No fim do século XVII, ali já se estabelecera um grupo de peregrinos judeus, que fugiam da Inquisição portuguesa. As montanhas mineiras   fizeram-nos pensar no Tabor, o monte diante do qual, inflamado por Débora, o exército hebreu venceu os cananeus (Juízes, 4). E chamaram o local pelo nome hebraico do Tabor – Itabyriun. Ali pretendiam criar um abrigo e, se preciso, um ponto de resistência.

Quando Ramos e Rosário chegaram à região, já encontraram os colonos judeus. Temendo nova expulsão, e aproveitando a existência de ouro no córrego próximo, eles forjaram a etimologia tupi, que acabou consagrada.

(Ao descobrir a verdadeira origem do nome, o Cônego Raimundo Trindade, primeiro historiador da região, anotou em seu diário que o Tabor foi também o local da Transfiguração de Cristo, segundo os Evangelhos; que “pedra do brilho” também seria uma descrição  correta para a colina na Galiléia; e que, no fim, tudo concorrera para a maior glória do Senhor, não havendo motivo para perseguir os descendentes dos primeiros colonos.)

Criptoetimologia (58): Empacar

 Os cargueiros da Compahia de Navegação Paquet eram de uma regularidade tamanha que, em português, “paquete” se tornou não apenas sinônimo de um tipo de navio mas também um termo coloquial para “menstruação”. E não terminou por aí a contribuição da empresa francesa ao nosso vocabulário.

Sempre que um produto importado estava em falta no mercado carioca, os lojistas da Rua do Ouvidor apressavam-se em garantir aos clientes que a mercadoria já estava a caminho. Estava “en Paquet”, ou seja, a bordo do navio, aguardando a sua liberação pela alfândega.

Aqueles menos íntimos do idioma francês entendiam “enpaqué” e imaginavam que se tratasse de algum termo técnico na língua para se referir a algo que estivesse preso, embaraçado, atrapalhado. E aportuguesaram para “empacado”, derivando facilmente daí o verbo “empacar”.

Criptoetimologia (57): Mercado

De uso raro em português, a palavra cado vem do latim cadus, que era um tipo de ânfora ou vaso. Por extensão, significava o conteúdo do vaso, servindo como medida de capacidade: um cado de trigo, azeite ou vinho, por exemplo.

Nos primórdios do Império Romano, antes que o sestércio se impusesse como moeda oficial, era prática corrente que cidadãos comuns, numa evolução do escambo, pagassem por bens com “vales” que representavam seu compromisso de entregar ao vendedor um cado (no caso, de sal – lembrem-se que salarium era a paga de um trabalhador em sal) para saldar a dívida.

Esse antepassado remoto do cheque dizia que o portador merece (meris) um cado (cadus). A troca secundária entre os meris cadus se tornou o mercadum ou mercatum.

Criptoetimologia (56): Rabiscar

A palavra se origina do latim rabis, que quer dizer “raiva” – portanto, cognata de (anti)-rábico, rábido, rábidez.

O graffiti, como se sabe, era prática muito difundida no Império Romano. As mensagens de cunho político ou erótico, como se vê nas ruínas de Pompéia, certamente desagradavam a muitos. Por isso, era também comum tentar cobrir as inscrições, riscando-se qualquer coisa por cima delas. Como isso era quase sempre uma reação enraivecida, ganhou o nome de rabiscare.

Criptoetimologia (55): Planeta

A Terra era plana, acreditavam os antigos romanos. Portanto, todas as suas representações (o que hoje chamamos de mapa-mundi) eram pequenos planos – planetæ.

Mais tarde, com a revolução no pensamento trazida por Copérnico e Kepler, descobriu-se que a terra era redonda e movia-se como os outros astros, que assim, no latim que era a língua científica da época, passaram a também ser chamados de planetæ, ou seja, planetas.

Criptoetimologia (54): Bergamota

“Tangerina”, como se sabe, quer dizer “oriunda de Tânger”. As frutas vinham do Marrocos e foram chamadas inicialmente de “laranjas tangerinas”. Mas e “bergamota”, como se diz no Rio Grande do Sul?

A hipótese que deriva o nome da expressão turca “beg armúdi” (literalmente “pêra do príncipe”) exige um certo esforço de imaginação: que alguém, algum dia, tenha considerado a tangerina uma espécie de pêra. Um duplo twist carpado etimológico, digamos assim.

A verdade é que quem levou as primeiras tangerinas (vindas do Marrocos, decerto) ao sul do Brasil foram mercadores italianos, em sua maioria da cidade de Bérgamo. “Bergamotos” era como os gaúchos se referiam a esses comerciantes, de forma mezzo afetiva, mezzo pejorativa. E as tangerinas se tornaram bergamotas.

As restrições às importações trazidas pelos italianos, aliás, foram o principal motivo da Revolta da Bergamota, em 1836. Até então, no Rio Grande do Sul eram igualmente usados os dois nomes, “tangerina” e “bergamota”. Este, a partir do conflito, ficou tão associado à fruta que acabou prevalecendo.

Criptoetimologia (53): Relatar

Res, em Latim, é coisa: daí res publica, a coisa pública, a república. E lato quer dizer amplo – palavra que se manteve em Português, de uso praticamente restrito à expressão “sentido lato” mas também presente em palavras como latifúndio.

res lata, a “coisa ampla”, era a descrição que os oficiais do Império Romano deveriam apresentar ao Senado de todas as propriedades, recursos, gastos, conquistas e perdas do Estado a cada ano. Uma espécie de prestação de contas detalhada, diferente do res sumo, resumo, que se limitava aos pontos mais importantes (sumus).

A ação de apresentar a res lata era chamada de re(s)latare, origem de relatar, relato, relatório, relator.

Criptoetimologia (52): Mármore

Quando o almirante romano Catulo naufragou na costa de Ortonovo, próximo da região hoje conhecida como Carrara, e os corpos dos marinheiros foram trazidos pelas ondas até a praia, deu-se sepultura ali mesmo a todos os mortos. Para marcar o lugar, sobre cada cova foi posta uma pedra trazida das proximidades, das grutas de Luni.

Quem via o local admirava-se com o mare moris (mar dos mortos). E maremoris, depois marmoris, ficou sendo o nome das pedras que vinham de Ortonovo.

(Alguns criptoetimólogos defendem a tese de que a palavra vem de Mariæ Mors, Morte de Maria, nome em latim da festa em que algumas das primeiras comunidades cristãs lembravam a morte da Virgem Maria. Com a adoção do dogma da Assunção de Nossa Senhora, foram banidas as pedras de mármore que representavam a sua sepultura e que eram veneradas na comemoração, mas o nome já havia se difundido como sinonimo de lápide funerária e, por extensão, do material de que esta era feita.)

Criptoetimologia (51): Sertão

“No anno de 1674 se descobrio grandíssima Província do Piauhy, que está em altura de dez graos ao Norte alem do Rio de São Francisco, no Continente de Pernambuco, e não muy distante do Maranhão. Tomou o nome de hum Rio assim chamado. He regada dos rios Caninde e Itaim, São Victor, Puti, Longazes, e Piracuruca, que todos por diversas partes concorrem a enriquecer o rio Parnaiba, que com elles opulento sae ao mar na costa do Maranhão. Hum dos primeiros que entrarão por aquellas dilatadas terras foy Domingos Afonço Certão.”

Assim diz o livro terceiro (intitulado “Pernambuco renascido”) dos Anais da Biblioteca Nacional. Domingos Afonso Sertão (com a ortografia corrigida) se associou a Domingos Jorge Velho na bandeira que desbravou o Piauí; tornou-se donatário de grandes sesmarias; deixou em testamento a ordem de que uma missa cantada fosse celebrada por sua alma todas as semanas, “até o fim do mundo”; e seu nome virou o nome de toda aquela vastidão de terras distante do litoral e das grandes cidades.

Criptoetimologia (50): Alfavaca

O criptoetimologista Flávio F. sustenta a hipótese de que a erva aromática Ocimum basilicum, semelhante ao manjericão, é tão apreciada pelos bovinos quanto é rara nas pastagens comuns. Assim sendo, na natureza, só a líder de cada rebanho tem o privilégio de comê-la. Esta líder, por sua vez, é conhecida como a vaca-alfa; e da inversão dos termos surgiu o nome alfavaca.

Criptoetimologia (49): Joelho

O Houaiss ignora que “joelho”, no Rio de Janeiro, é também o nome de um salgado feito de massa de pão, recheado com presunto e queijo. Em São Paulo, é chamado de “bauruzinho” – não confundir com o sanduíche Bauru, do Ponto Chic, cuja história não vem ao caso.

O lanche em questão aqui tem sua origem ligada à extinta Casa Chantal, que nos dias de glória foi frequentada por Rui Barbosa e João do Rio. Hoje, no seu lugar, perto da Praça Tiradentes, existe uma drogaria.

Pois a Casa Chantal foi a primeira a oferecer o quitute, chamado inicialmente de “chantalet de queijo e presunto”. E arrumação dos quitutes na vitrine deixava-o sempre na prateleira logo abaixo da que recebia as coxinhas de galinha.

O poeta Emílio de Menezes, que gostou da novidade e que não deixava passar a oportunidade de um chiste, chamou o salgado de joelho: afinal, era o que estava logo abaixo da coxa. O apelido pegou, a receita se difundiu e hoje o joelho de queijo e presunto é encontrado em qualquer lanchonete do Rio. Menos na Chantal, é claro.

Criptoetimologia (48): Estabanada

Stabat mater dolorosa,
iuxta crucem lacrymosa,
dum pendebat filius

“Estava a mãe dolorosa junto à cruz lacrimosa, da qual pendia seu filho”, dizem os primeiros versos do Stabat Mater, hino católico escrito no século XIII por Jacopone da Todi. A letra se tornou uma das mais populares da música sacra, ganhando novas melodias de autores como Palestrina, Scarlatti e Vivaldi. E, no Brasil, por João de Deus de Castro Lobo (1794-1832).

Foi a versão de Castro Lobo que influenciou a língua portuguesa.

Já era o tempo da Regência, após a renúncia do imperador Pedro I. Dona Ernestina Vieira, a Marquesa de Mariana, era uma grande apreciadora das artes e da música. Por isso, logo após a morte de Castro Lobo, decidiu oferecer um recital em homenagem ao compositor. E ela mesma fez questão de cantar o Stabat Mater.

Porém, se a marquesa amava a música, esse amor não era correspondido. E logo nos primeiros versos a audiência se espantou com a voz esganiçada e desafinada. Para piorar, a marquesa, nervosa, errou a letra: em vez de “Stabat mater dolorosa”, cantou “Stabat nada dolorosa”, o que além do mais não queria dizer coisa alguma.

“Estabanada dolorosa” foi como os fidalgos de Mariana e arredores passaram a se referir à cantora. E “estabanada” virou sinônimo de pessoa desajeitada, sem preparo.

Criptoetimologia (47): Presunto

Sunto é uma palavra puco usada, mas está na raiz do adjetivo suntuoso e significa fartura, abundância. A origem é o latim sumptum, do verbo sumo, traduzido como apoderar-se, tomar, mas também comprar; através de sumptus, significando gasto, despesa.

O presunto era um prato caro e reservado aos nobres na Roma antiga. Para garantir a sua presença na mesa, o encarregado da cozinha devia encomendá-lo aos criadores de porcos, pagando antecipadamente para que um bom leitão fosse engordado nas semanas anteriores. Era um gasto prévio, um pre-sumptus, que garantia uma refeição sumptuosa.

Considerando-se que as compras no supermercado frequentemente são pagas com o cartão de crédito, talvez fosse mais adequado renomear o presunto da ceia de Natal e chamá-lo de pós-sunto.

Criptoetimologia (46): Patife

Antoine Michel de la Rochelle (1679-1711) foi um pirata francês, integrante da esquadra de Jean-François Duclerc que, em 1710, tentou invadir o Rio de Janeiro para se apoderar do ouro que vinha de Minas Gerais.

A invasão fracassou, principalmente, porque os portugueses haviam sido avisados. Mais de 600 franceses foram capturados, entre eles Duclerc, que seria assassinado em março de 1711, na casa que lhe servia de prisão.

Nem a delação dos planos nem o assassinato de Duclerc tiveram autoria oficialmente reconhecida. Mas as principais suspeitas recaem sobre La Rochelle, que abandonou a esquadra dias antes da chegada ao Rio de Janeiro, conforme os diários de bordo.

Sabe-se também que La Rochelle era precocemente calvo. Daí veio o apelido de Pas-Tiffe (“sem cabelos”). Foi assim, como traidor e assassino, que o seu nome entrou para a História.

Criptoetimologia (45): Maconha

O nome mais popular do cânhamo em Português vem de um erro.

Em meados do século XVI, quando a Cannabis foi trazida da África para o Brasil, era conhecida como bangue. E “os grandes capitães”, escreveu Garcia da Orta nos seus Colóquios dos simples e das drogas das Índias, de 1563, bebiam o suco tirado das folhas amassadas em água,  e “acostumavam embebedar-se com este bangue, pera se esquecerem de seus trabalhos, e nam cuidarem, e poderem dormir”.

Ocorre que entre os fidalgos lusitanos havia aqueles que não queriam adotar o nome usado pelos negros; entre eles, muitos mais conhecedores dos clássicos do que das plantas; e que, portanto, sem saber do que falavam, julgaram que aquele suco era o meconion do botânico grego Teofrasto, o virtuoso mecon citado por Hipócrates e receitado por Galeno. Aquele, porém, nada mais era que o suco da papoula. Ópio.

Aportuguesaram o meconion para maconha. E a confusão virou regra. Coisa de maconheiro.

Criptoetimologia (44): Leque

Os primeiros leques surgiram no século XV, na Saxônia, onde eram chamados de Fächer – nome que se mantém até hoje na língua alemã. Mas também era comum (e poético) usar o verbo lecken (“lamber”) para se referir ao ato de abanar-se: o vento produzido pelo objeto era como uma suave lambida do ar, na língua de Goethe.

De Leckegerät (“objeto” – gerät – para “lamber”), reduzido para Lecke, veio a palavra portuguesa “leque”.

Criptoetimologia (43): Cédula

O papel-moeda, como se sabe, foi inventado na China. Na Europa, foi só no século XIV, depois das viagens de Marco Polo (1254-1324) e seus relatos do Oriente, que banqueiros italianos e holandeses resolveram adotar a ideia. Com resistências, é claro. Nem todos se convenciam de que um pedaço de papel poderia valer a mesma coisa que um punhado de ouro.

Contribuiu para a aceitação o conceito criado pelo conselheiro Ermolao Donà (?-1450), um membro do Conselho dos Dez que assessorava o oge de Veneza. Foi ele quem, num tratado sobre o comércio, chamou os papeizinhos de cellula dura laborem, “pequena cela sólida do trabalho”, querendo com isso dizer que as notas eram o local onde habitava o (valor do) trabalho. Ou seja, a materialização do capital.

(Séculos mais tarde, Marx se inspiraria na obra de Donà, que conheceu na biblioteca do Museu Britânico. Mas isso é outra história.)

E a cédula? A cédula, ora, é uma abreviação criada também por Donà, formada pelas primeiras sílabas de cellula dura laborem.

Criptoetimologia (42): Samambaia

Mem de Sá (1500-1572) não foi apenas o último governador-geral do Brasil colônia e maior incentivador do início do tráfico negreiro para as terras brasileiras. Foi também um apaixonado pela nossa flora.

No fim dos anos 1560, depois de expulsar com sucesso os franceses da Guanabara, costumava deixar a recém-fundada (por seu sobrinho Estácio) cidade de São Sebastião do Rio de Janeiro para alguns momentos de melancólica (ah, a nostalgia de Portugal) reflexão. E o seu local preferido era uma mata na encosta do morro Cara de Cão, onde brotavam folhas que lhe serviam de leito.

Os negros que havia trazido de Angola chamavam o lugar de Samumbeya (do quimbundo mumbe, “solidão, abandono”), ou seja, “lugar da tristeza de Sá”. E o governador usou a palavra (ligeiramente distorcida, como se vê) para batizar aquelas plantas, desconhecidas dos portugueses.

Criptoetimologia (41): Lixo

Plutarco, na sua Vida dos Doze Césares, conta que o palácio imperial, em Roma, era dotado de sessenta fossas onde eram lançados os dejetos das refeições – desde as mais simples até os banquetes orgiásticos que fizeram a fama de alguns dos biografados.

Nunca acontecia, porém, de todas elas ficarem cheias. Quando se verificava que a fossa de número 59 (LIX, em algarismos romanos) estava próxima da sua capacidade total, o intendente do palácio mandava esvaziá-las todas, levando a massa fétida e pútrida para ser lançada ao rio Tibre.

Do número LIX derivou lixum, a soma de todos os dejetos, origem da palavra lixo.

Criptoetimologia (40): Ornamento

O substantivo é derivado do verbo ornar, que por sua vez se origina do latim ornare. Até aí não há dúvidas. As discussões são em torno de como surgiu o verbo latino.

A versão mais aceita é de que ornare venha de Orna, nome de uma rainha dos ostrogodos no século VI. Jordano, o historiador romano que mais se dedicou ao estudo dos germânicos, impressionou-se com a figura da rainha, e mais ainda com o manto que ela usava, decorado com moedas retiradas dos tributos que os povos vizinhos pagavam. Ornare, assim, tornou-se entre os romanos o mesmo que “enfeitar-se de forma extravagante”.

Criptoetimologia (39): Beliscar

Do latim belliscare, derivado de belliscus, por sua vez diminutivo de bellus (guerra).

Na Alta Idade Média, quando senhores feudais vizinhos guerreavam, o início das escaramuças era precedido por um encontro formal entre os dois no meio do campo de batalha. Não havendo solução pacífica, um dos querelantes dava um beliscão cerimonial no outro. A “pequena guerra” era a senha para iniciar o conflito de verdade.

(Ainda não existia o tapa com luva de pelica, já que esta peça do vestuário só se tornaria amplamente usada a partir do século XIII.)

Criptoetimologia (38): Pirulito

As primeiras receitas de pirulito eram uma mistura de gelatina, suco de frutas, amido e muito açúcar. Um punhado era espetado num palito e, enquanto secava, de cabeça para baixo, tomava uma forma semelhante à de uma pequena chama.

É daí que vem o nome original do doce, Pírulo – do  grego pyros, fogo, mais o sufixo diminutivo -olo. Mais tarde, reforçando o caráter de guloseima destinada às crianças, a palavra ganhou um segundo diminutivo (-ito).

Criptoetimologia (37): Bactéria

O primeiro cientista a observar uma bactéria ao microscópio foi o holandês Antonie van Leeuwenhoek, em 1676. Mas foi só em 1828 que o alemão Christian Gottfried Ehrenberg propôs o termo. Derivado, segundo explicou, do latim bacteria, plural de bacterium, originado do grego bakterion (“bastão”).

Era a explicação oficial, e foi bem aceita. Contudo, cartas recentemente descobertas de Ehrenberg para Wilhelm Hemprich e Alexander von Humboldt revelam que sua intenção era outra. O naturalista diz abertamente aos seus colegas que “tais organismos, as formas de vida mais rudimentares e primitivas de que se tem notícia, merecem o nome de alguém com quem compartilhem tão baixo lugar na Criação”.

Ao que parece, ele se referia ao desafeto Theodore Baxter (1761-1843), seu rival e desafeto na Universidade de Berlim. Em outra carta, Ehrenberg agradece a Humboldt pela sugestão de uma falsa etimologia greco-latina.

Criptoetimologia (36): Mascavo

Açúcar mascavo, todos sabem, é aquele não refinado, produzido diretamente do esfarelamento do mel-de-engenho cristalizado. O nome inicialmente designava a sua matéria-prima, a garapa, obtida quando a cana de açúcar era mascada nos engenhos.

O açúcar “do mascado” tornou-se depois simplesmente o açúcar mascavo.

(Há outra interpretação, rejeitada pela maioria dos criptoetimologistas, de que se trata originalmente de açúcar muscado, ou seja, “cor-de-mosca”, ou ainda “que atrai moscas”.)

Criptoetimologia (35): Militar

Militarismo, militar (substantivo e verbo), militância, militante, milícia. Todas essas palavras se originam do nome do soldado romano Publius Militius (732-693 a.C.).

Após a morte de Rômulo, o primeiro rei de Roma, seu sucessor, Numa Pompílio, dedicou-se a consolidar o reino fundado sobre guerras e conquistas. Reformou o culto, o calendário, a organização política, entre outras ações que não lhe permitiram dedicar-se à função de comandante militar. Por isso delegou essa função a Publius Militius.

Os soldados comandados por Militius foram a primeira militia. E foram a base do que viria a ser a Legião romana.

Criptoetimologia (34): Cogumelo

Ameríndios e chineses já comiam cogumelos há pelo menos 10 mil anos. Mas as origens da palavra em Português vem de um passado nem tão remoto: o Império Romano. Nos banquetes dos imperadores e dos nobres, eram chamados de “gumellum”, ou seja, “pequenos gomos”.

A palavra chegou sem grandes alterações à língua portuguesa, dando origem a “gomelo”. Foi só por volta do século XV que começou a confusão. O ensopado “co’ os gomelos”, tradicional na região do Minho, começou a ser chamado simplesmente de ensopado “de cogomelos”, a preposição se incorporando ao nome original. Já no século XVII a grafia padrão passa a ser “cogumelo”, distanciando-se ainda mais do “pequeno gomo” latino.

Criptoetimologia (33): Torrar

O verbo (e todos os seus derivados: torrada, torradeira, torrefação) se origina das batalhas medievais. Mais precisamente, da estratégia de defesa dos castelos que consistia em jogar óleo fervente sobre os atacantes que tentavam invadi-los.

Os pobres coitados que se atreviam a atacar a torre (turris, em latim) acabavam invariavelmente queimados. Daí que qualquer coisa que passava do ponto passou a ser chamada de “torreada” – como se tivesse participado de um cerco mal sucedido a uma torre e, mais tarde, simplesmente “torrada”.

Não foi daí, porém, que veio a expressão “estou frito”. Essa é uma outra história.

Criptoetimologia (32): Panela

O culto ao deus Pã, iniciado na Grécia, foi também muito popular em Roma – até a notícia da sua morte, durante o reinado de Tibério (14-37 DC), de acordo com o historiador Plutarco.

Os gregos festejavam Pã com uma festa em que o prato principal era uma espécie de cozido em que qualquer um podia acrescentar qualquer ingrediente – de carnes, ervas e raízes a pedras e vermes. Porque Pan, em grego, significa tudo, e tudo o que existe fazia parte do seu culto.

A tradição foi levada para Roma, onde jogar tudo no caldeirão de Pã – chamado de panella – virou um hábito diário, com algumas ressalvas a certos ingredientes. O grande deus morreu, mas seu nome permaneceu nas panelas latinas.

Criptoetimologia (31): Enfermo

Caio Graco Firmo (17 AC – 63 DC) foi um dos maiores médicos do seu tempo, implantando em Roma as doutrinas de Hipócrates e Galeno adicionadas a saberes que recolheu como cirurgião do exército nas campanhas por lugares distintos como a Gália, a Etiópia e a Judeia.

Foi ele também o primeiro a instituir um hospital. A Casa de Firmo (Firmus Domus) era não apenas um local para tratamento de saúde, mas também um centro de pesquisa e ensino.

Mesmo assim, quando alguém estava in Firmus Domus, ou simplesmente infirmus, normalmente entendia-se que estava doente. E foi daí que surgiu a palavra “enfermo”.

Criptoetimologia (30): Estacionamento, estacionar

O bairro do Estácio, no Rio de Janeiro, berço da primeira escola de samba, deve seu nome ao fundador da cidade, o militar portugues Estácio de Sá (1520-1567). Aliás, a antiga Freguesia do Estácio abrangia toda a área que vai dos morros da atual Tijuca até o litoral, onde hoje ficam o Centro da cidade e o porto.

Era ali, perto do morro do Castelo, que as naves comandadas por Estácio de Sá ficavam ancoradas. E o local onde paravam as naus de Estácio ficou conhecido como Estacionamento. As manobras de aproximação ao cais, estacionar.

Mais tarde, as mesmas palavras foram aplicadas ao grande terreno onde se juntavam os primeiros carros puxados por burros, bois e cavalos da cidade. Foi assim que surgiram, juntas, as duas, desembarcando do mar para a terra.

Criptoetimologia (29): Bússola

Quando o infante D. Henrique fundou a Escola de Sagres, para aperfeiçoar os conhecimentos náuticos portugueses, tratou de chamar os melhores mestres à disposição na Europa. Um deles, o flamengo Joachim van Eckenrei, pode não ter sido dos mais famosos mas está definitivamente ligado à história das grandes navegações.

À época, já se sabia como os chineses usavam uma agulha magnética para se orientar. Mas a primeira bússola como a conhecemos foi criada por mestre Eckenrei, que fez a agulha girar sobre uma figura que representava os quatro pontos cardeais — a rosa dos ventos.

A inspiração veio do desenho da praça da Matriz de sua cidade natal, Bussum. E a caixinha mágica ficou conhecida como “pequena Bussum”, ou bússula.

Criptoetimologia (28): Garbo

Essa é tão fácil que nem precisa de explicação. Nunca existiu alguém que fosse sinônimo de “elegância, donaire, galhardia, porte imponente” tanto quanto Greta Lovisa Gustafson, mais conhecida como Greta Garbo.

Resta então explicar de onde a atriz sueca tirou o nome artístico. A versão mais aceita é de que o empresário Mauritz Stiller experimentou variações do nome “Gabor”, versão húngara de “Gabriel”. “Gabriel”, por sua vez, vem do hebraico e significa “enviado por Deus”.

Se preferirem, portanto, “garbo” também pode ser definido como uma elegância divina.