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Biografemas (12): Albert Camus

(Este post é uma reciclagem. Reproduz a maior parte de uma edição das “Domingadas”, coluna que eu escrevia no Jornal dos Sports em 2004-2005. Mas foi o melhor jeito que encontrei de homenagear o centenário do meu segundo filósofo preferido – o primeiro, claro, é Neném Prancha.)

...A vida não é justa. O mundo não é justo. E o futebol também não é justo.

Quem sabia disso melhor do que ninguém era Albert, goleiro argelino, conterrâneo portanto do bom Tarabulsi e do craque Madjer. Oficialmente, ele abandonou o futebol por causa de uma tuberculose. Porém, talvez não tenha sido bem assim.

Ninguém registrou uma linha sequer sobre o seu último jogo, mas eu posso imaginar muito bem Albert fechando o gol do time da universidade. Noventa minutos suportando pressão adversária, agarrando todas, saindo da área com precisão, exibindo reflexos e agilidade. E, já aos quarenta e sete do segundo tempo, engolindo um frango. Daqueles que fazem a torcida xingar sem piedade.

Outro qualquer nem ligaria. Fingiria que nada aconteceu, culparia a zaga, diria que não falhou. Mas Albert? Sem chance. Obcecado pela verdade, ele recebeu ali a grande iluminação da sua vida. E, aproveitando a doença que o atingiria mais tarde, abandonou o futebol para se dedicar a um esporte menos traiçoeiro: a filosofia.

Passou a ser conhecido pelo sobrenome, Camus. E escreveu um livro chamado “O homem revoltado” para, depois de protestar contra Deus, o governo, o sistema e tudo o mais, concluir que o grande problema do mundo é a injustiça.

“Ele distribui sua ajuda e seus favores se quiser, quando quiser. O bel-prazer é um dos atributos da realeza”, ele escreveu. Teoricamente, falando sobre os reis. Na verdade, queixando-se do futebol. É fácil pensar em Camus, o filósofo, ainda magoado pela injustiça da bola com Albert, o goleiro. Aquela bola que estava nas suas mãos e escapou, maliciosa, indo parar no fundo do gol.

A bola é esse tirano que não obedece a lei alguma, entrega seus favores a quem quiser e esnoba os esforços daqueles a quem decidiu não favorecer.

(17/4/2005)

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Biografemas (11): Charles Lindbergh

Em 1927, quando decidiu que tentaria ser o primeiro homem a cruzar o Atlântico num voo solo, Charles Lindbergh, também pela primeira vez na vida, sentiu medo. Já havia sofrido vários acidentes pilotando a sua fiel Jenny (um biplano Curtiss JN-4). Mas aquela era uma viagem em que, pela primeira vez, não poderia correr riscos.

Foi por isso que, pela primeira vez, procurou Nana Ayea, sacerdotisa vudu que vivia numa casa à beira do Mississipi.

Nana ouviu o aviador, e deu logo a resposta. Para ter sucesso, Lindbergh precisaria pedir licença a Papa Legba, o primeiro que deve ser invocado. O avião teria que levar seu nome.

A essa altura, o avião que seria usado na travessia estava em construção e era chamado de Ryan NYP (iniciais de New York – Paris, pontos de saída e chegada previstos). Lindbergh rebatizou-o de Spirit of St. Louis, oficialmente para homenagear a sua cidade. Mas o verdadeiro espírito celebrado era o iwá que abriu os caminhos.

Biografemas (10): Ana Bolena

Quando foi julgada culpada de adultério e incesto, e condenada à morte por Henrique VIII, Ana Bolena resignou-se mas apresentou uma exigência. Queria ser executada por um carrasco francês, que a decapitasse com uma espada, e não por um inglês com seu machado. A explicação oficial foi de que “uma rainha da Inglaterra não se ajoelha em circunstância alguma”. A verdade, porém, era outra.

Jean Rombaud, o carrasco, havia sido seu amante. Na verdade, o seu primeiro amante, quando ela vivia em Paris e era uma dama da corte da rainha Cláudia de Valois, entre 1514 e 1522.

A última carta escrita por Ana Bolena na Torre de Londres, já sabendo que seu estratagema funcionara e Rombaud cortaria sua cabeça, era endereçada a ele. Dizia (em francês) que quem lhe causara a primeira morte lhe daria também a última, e fazia alusões à espada do francês.

Rombaud pode ter sido também o homem misterioso que recolheu o corpo e a cabeça da rainha e os enterrou na Capela de São Pedro.

Biografemas (9): Guilherme Tell

Em 18 de novembro de 1308, um ano depois da façanha que o tornou famoso (a ponto de vir a se tornar mais tarde um personagem de historicidade contestada, da mesma forma que Jesus ou Cleópatra), Guilherme de Büngler reuniu os amigos para celebrar sua vitória sobre o tirano Albrecht Gessler. E aceitou o desafio de repetir o tiro numa maçã a 100 passos de distância. Naturalmente, um boneco de palha foi posto no lugar de Walter, o filho do herói.

Guilherme assentou a besta, mirou e acertou a seta em cheio na cabeça do boneco.

A festa terminou ali. Desde aquele dia, nunca mais foi capaz de atirar em combate.

Prometeu a si mesmo não fazê-lo enquanto não fosse capaz de acertar novamente a maçã. Todos os anos, sempre no aniversário daquele primeiro tiro, tentava repeti-lo. Em vão.

Biografemas (8): Nicolau Copérnico

Em 1491, o jovem Nicolaus Nicolai de Thuronia matriculou-se na Universidade de Cracóvia, para frequentaras aulas da então prestigiosa Escola de Astronomia e Matemática. Ali foi discípulo do grande Albert Brudzewski, de Bernardo de Biskupie e outros mestres.

Seus olhos, porém, se voltavam menos para os livros do que para Barbara Olesnicka, sobrinha-neta de um cardeal e, na época, a única mulher admitida nos bancos da Universidade de Cracóvia. Não era o único que a admirava. Ela era o centro das atenções de todos: professores, alunos, bedeis, serventes.

A forma como Barbara rejeitou as investidas amorosas de Nicolau trouxe duas consequências na carreira dele. A primeira foi a decisão de fazer os votos e ordenar-se padre. A segunda, e mais importante, foi fruto da observação de como a jovem radiante, de cabelos dourados, era o centro em torno de quem orbitavam tantos seres apagados, uns aproximando-se mais, outros menos, todos afastando-se depois mas permanecendo sob sua influência.

Foi assim que veio a Copérnico a ideia de um modelo heliocêntrico do universo.

Biografemas (7): Ludwig van Beethoven

Na primavera de 1787, o jovem músico Ludwig van Beethoven foi a Viena para conhecer seu ídolo Wolfgang Amadeus Mozart. Era a oportunidade de mostrar seu trabalho àquele que considerava o maior compositor de todos os tempos, sua fonte de inspiração, a razão de ter se dedicado à música.

O encontro, segundo a biografia escrita por Otto Jahn, foi porém decepcionante. Mozart achou o novato limitado, insípido, esquecível. Os aplausos meramente formais ao fim da sua apresentação soaram como a pior das vaias para Beethoven. Quase o suficiente para que ele abandonasse ali mesmo a carreira de músico, não fosse a necessidade de sustentar a sua família. Mas naquele momento toda a admiração que sentia pelo mestre se transformou em ódio.

Foram quatro anos tramando a vingança.

No inverno de 1791, um misterioso homem usando uma máscara encomendou a Mozart um réquiem. E o fim da história todos conhecem.

A maioria dos historiadores afirma que o mascarado era o Conde Franz von Walsseg, músico amador que pretendia se passar por grande compositor. Pushkin, e depois Peter Schaffer e com ele Milos Forman, sugeriram que se tratava de Antonio Salieri, que pintaram como um invejoso obsessivo. Mas nenhuma das teorias responde o que Beethoven estava fazendo naquele inverno em Viena.

Biografemas (6): Samuel Hahnemann

Em 1830, Samuel Hahnemann (1755-1843), fundador da homeopatia, não foi capaz de evitar a morte de Johanna, sua primeira mulher, com quem tivera 11 filhos. Em 1835, aos 70 anos, ele se casaria novamente com a também médica Amélie, 35 anos mais nova, sua discípula e futura continuadora da sua obra. Mas, entre um casamento e outro, houve o menos documentado porém intenso relacionamento com Oleanna.

Ainda mais jovem que Amélie, Oleanna viveu um caso de amor tórrido com o médico sexagenário, que havia desenvolvido um eficaz tratamento homeopático para combater a impotência. O relacionamento entre os dois, porém, nunca poderia ser levado a público. A moça fora paciente de Hahnemann, confiada a ele por seus pais.

Assim, na primavera de 1835, já de casamento marcado com Amélie, Hahnemann disse à amante que não mais deveriam se ver, a fim de evitar o escândalo.

Oleanna aceitou. Mas perguntou ao médico o que um homeopata receitaria a quem quisesse cometer suicídio. Adepto tardio das teorias preformistas, que viam no sêmen masculino a única força ativa na reprodução humana, ele não estranhou a curiosidade da jovem e propôs o que sua teoria previa: a mesma substância que causava a vida, potencializada pelas sucessivas diluições, provocaria a morte.

Um mês depois, Samuel recebeu um bilhete de Oleanna: “Morro da vida que tirei de ti”.

A receita do suicídio homeopático nunca foi transcrita para os compêndios do cientista.

(Obrigado, Ale.)

Biografemas (5): Santuyá

Sancho de Tovar (1470-1545) foi o capitão da caravela El-Rei, a nau sota-capitânia da esquadra de Pedro Álvares Cabral em 1500. A importância do posto basta para mostrar a reputação de que gozava em Portugal. Entretanto, após a viagem do Descobrimento, sua carreira entrou em decadência. Terminou seus dias na feitoria de Sofala, hoje Moçambique.

A carta de ero Vaz de Caminha narra que Tovar foi, dos navegantes portugueses, quem mais se interessou pelos índios brasileiros. Levou dois deles para a sua nau, onde serviu-lhes vinho. Arrependeu-se. Quando depois Cabral quis oferecer vinho aos dois, Tovar aconselhou que não o fizesse, pois “que o não bebiam bem”.

E isso é tudo o que Caminha nos diz sobre o encontro de Tovar com os nativos.

Porém, entre as tribos que habitavam o sul da Bahia, contava-se a lenda do Santuyá, o espírito que primeiro ofereceu a “água de fogo” aos tupiniquins; de como estes, embriagados, viram o futuro e amaldiçoaram o Santuyá; de como este se enfureceu e os mandou castigar; de como os índios voltaram à sua aldeia e contaram a destruição que viria para o seu povo, mas também que o grande Nhanderuvuçu puniria com a desonra o mau espírito Santuyá.

E essa é a história que Caminha não contou.

Biografemas (4): Alfred Hitchcock

Hitchcock era apenas um jovem aspirante a diretor nos anos 20, trabalhando com nomes consagrados como F.W. Murnau e tentando aprender alguma coisa nos sets de filmagem da Babelsberg, na Alemanha. Chegou a estrear em 1925 com “The pleqasure garden”, um completo fracasso.

Para piorar a situação, sua própria mãe, a quem levou para a estreia, detestou o resultado. E disse que não acreditava que o filho fosse capaz de dirigir um filme de verdade.

O jovem cineasta, pela primeira vez na vida, enfrentou a mãe. E afirmou que, para provar que era um diretor, apareceria em seu próximo filme.

Dois anos depois, em 1927, estreou na Inglaterra o primeiro sucesso de Hitchcock, “The Lodger”. E também o primeiro filme em que fez um de seus “cameos” – aliás, dois: primeiro como um repórter numa redação e depois como um dos rostos na multidão que assiste a uma ação policial. Era o recado do filho incompreendido, que se repetiria dezenas de vezes, tornando-se uma marca registrada, em obras-primas como “Os 39 degraus”, “Um corpo que cai” e “O homem que sabia demais”.

Biografemas (3): Paul Gauguin

Boa parte do que o pintor viu e viveu na sua segunda viagem ao Taiti (1891-1897) está no seu diário publicado com o título de “Noa Noa”. Mas os poucos parágrafos dedicados ao jovem taitiano Nepeo não fazem jus à importância que ele teve na vida do artista.

“Nós éramos dois, dois amigos,, ele um jovem na flor da idade e eu quase um velho, no corpo e na alma, nos vícios civilizados: nas ilusões perdidas. O corpo dele, flexível como o de um animal, tinha graciosos contornos, e ele caminhava à minha frente sem qualquer definição de sexo.
Desta amizade tão bem cimentada pela mútua atração entre simples e composto, o amor criou forças para florescer em mim.
Tive uma espécie de pressentimento de crime, o desejo pelo desconhecido, o despertar do mal (…)
Cheguei mais perto, sentindo-me livre de barreiras, as têmporas palpitando.”¹

Aparentemente, Gauguin não chega a consumar o ato nessa excursão com o efebo (“Ele nada suspeitara. Eu carregava sozinho o peso de um mau pensamento”²). Mas ele se tornaria seu amante pelos meses seguintes. E mais do que isso.

Aprendendo a técnica da pintura e da escultura, Nepeo em troca daria a Gauguin o vigor artístico que o impressionista fora buscar na Polinésia. Foi sob a influência do jovem amante que o estilo do mestre se transformou completamente. E há quem julgue que boa parte das obras deste período atribuídas ao francês  tenham sido, na verdade, criadas pelo taitiano.

Gauguin romperia o relacionamento com Nepeo no ano seguinte, para se casar com a adolescente Tehaurana.


¹ “Noa noa”, trad. de Eduardo Francisco Alves. Rio de Janeiro: Philobiblion, 1977. Págs. 26-27.
² Idem, pág. 27.

Biografemas (2): Noel Rosa

Nos poucos meses durante os quais cursou a Faculdade de Medicina, em 1929, Noel Rosa foi apresentado por alguns de seus colegas ao pensamento positivista. E chegou a frequentar a Igreja Positivista do Brasil, com grande entusiasmo.

Nessa época, porém, a Religião da Humanidade não atravessava um de seus melhores períodos. O templo no bairro da Glória havia se tornado o centro de reuniões de uma comunidade muito mais próxima da Maçonaria e de outras sociedades secretas do que propriamente dos ideais que haviam inspirado a Miguel de Lemos a sua fundação, em 1881.

Talentoso, precoce, genial, Noel subiu degraus na estrutura secreta da igreja em tempo recorde. Mas sua ascenção ao círculo mais alto foi barrada. Em parte por sua idade, mas principalmente porque, àquela época, já compunha e gravava sambas e marchas, recusadas pela hierarquia pseudopositivista.

Entre a igreja e a música, Noel não hesitou. E pouco depois acabou compondo Positivismo (O amor vem por princípio, a ordem por base / O progresso é que deve vir por fim / Desprezaste esta lei de Augusto Comte / E foste ser feliz longe de mim), em parceria com o amigo Orestes Barbosa.

Os versos deste samba, aliás, teriam significados ocultos compreendidos somente pelos iniciados. Na mensagem cifrada, Noel teria denunciado a corrupção dos ideais positivistas, ajudando assim a derrubar a sociedade secreta e a restaurar o culto positivista na sua essência.

(Noel morreu em 1937, oficialmente de tuberculose. Há, porém, quem sustente que ele foi envenenado.)

Biografemas (1): Machado de Assis

Duplamente meu colega (jornalista e funcionário público), Machado de Assis era apenas um bom escritor até 27 de dezembro de 1878. Foi quando uma grave doença exigiu que ele tirasse uma licença da Secretaria de Agricultura e interrompesse sua colaboração para a revista “O Cruzeiro”. E provocou a grande mudança da sua vida.

Em Nova Friburgo, onde se recuperava, o escritor mulato e canhoto conheceu o verdadeiro responsável não só pela sua cura mas pelo seu amadurecimento literário. Disse o milagre e digo o santo: Pai Nonato, o mesmo que menos de uma década antes havia inspirado José de Alencar a criar o feiticeiro Benedito de “O tronco do Ipꔹ.

Pois foi Pai Nonato que tirou a ziquezira do corpo de Machado. Na mesma sessão em seu terreiro, fez baixarem os espíritos que soltaram também as amarras de sua prosa. Em 15 de março do ano seguinte, o autor começava a publicar “Memórias póstumas de Brás Cubas” na “Revista da Semana”, inscrevendo seu nome entre os maiores gênios da literatura universal.

Machado trouxe Pai Nonato para morar nos fundos da sua casa. E era o preto velho que, originalmente, os amigos chamavam de Bruxo do Cosme Velho. Décadas mais tarde, quando o bruxo original já estava completamente esquecido, um poema de Drummond recuperou o apelido mas atribuiu-o erradamente ao romancista.


¹ Não foi por acaso que, ao fundar a Academia Brasileira de Letras, Machado escolheu Alencar como patrono para a sua cadeira, a de número 23.