Arquivo da categoria: Biblioteca de Babel

Biblioteca de Babel (121): Poesia Líquida

Neste século tacanho
À poesia antipático
Só um estro homeopático
Só versos deste tamanho!
(Péthion de Villar)

Poesia Líquida é uma série constituída por diversas garrafas cheias de água.

Não de qualquer água, evidentemente. Água do mar, especificamente de uma praia onde, certo dia, poetas de várias gerações, estilos e escolas se reuniram para escrever seus versos na areia. A maré alta logo apagou a poesia, mas – conforme ensinam os preceitos homeopáticos de Samuel Hahnemann – a sua memória ficou impregnada no líquido que ela agitou.

Cada garrafa é, assim, mais que uma antologia: é uma síntese, uma expressão pura do que seja a essência da poesia. Imperceptível, como não poderia deixar de ser.

Biblioteca de Babel (120): Capelli e Saint-Jacques

Dois dos mais antigos tratados de esgrima, os livros de Vicenzo Capelli (1396-1441) e Honoré de Saint-Jacques (1410-1442) desapareceram, ao que parece, para sempre.

A perda é lamentável não apenas pelo valor histórico dos manuscritos, mas também pelas técnicas neles descritas. Por exemplo: Capelli, mestre de armas com serviços prestados aos Médici e outras famílias poderosas, era conhecido por sua capacidade de deter qualquer golpe adversário, o que certamente explicava em seu livro. Saint-Jacques, por sua vez, dominara uma estratégia de ataque (uma manobra complexa, iniciada com uma batida de contra de terça e sucessivos coupés) que, se executada corretamente, era sempre fatal.

Acredita-se que, quando finalmente foram postos lado a lado, o manual da defesa intransponível e o guia do ataque indefensável simplesmente se anularam e desapareceram, como um par de partículas de matéria e antimatéria no espaço. E assim nunca mais existirão, a não ser na Biblioteca de Babel.

Biblioteca de Babel (119): Ulogia

Existe um poema tão subversivo que foi censurado antes mesmo de ter sido escrito.

É (será) uma obra coletiva, composta por versos de centenas, talvez milhares de poetas. No dia em que todos os versos e todas as vozes se unirem, o resultado será algo tão intenso que atingirá toda a humanidade. Até quem sempre torceu o nariz para a poesia terá sua alma virada pelo avesso, as entranhas da dia consciência iluminadas, e ninguém mais descansará enquanto o planeta não for um espelho perfeito de tamanha beleza.

Por isso é tão vital manter a horda de poetas espalhada por todo o mundo, sem que possam entrar em contato e somar seus versos.

Biblioteca de Babel (118): Diário de Abdera

Registra detalhadamente cada dia da expedição de Abdera, enviada em 940 AC pelo rei fenício Hirão I para explorar a Lua.

Ao que parece, o navio saiu de Tiro com a missão de buscar pedras lunares que, por orientação dos astrólogos fenícios, seriam cedidas para a construção do Templo de Salomão. O diário mostra como Abdera cruzou o Mediterrâneo, atravessou as Colunas de Hércules e seguiu para o Norte, para o atual Golfo de Cádiz.

A partir daí a história fica confusa.

Não há consenso sobre a rota tomada pelos fenícios. Alguns intérpretes afirmam que a descrição é consistente com uma navegação em torno da Península Ibérica e depois subindo rumo às Ilhas Britânicas. Estranhas Ilhas Britânicas de clima tropical! Outros dizem que a terra encontrada por Abdera é na verdade a América – mas não explicam a omissão de várias semanas de travessia do Atlântico. Uma descida para a África também não explica boa parte do relato.

Na verdade, existem apenas duas explicações possíveis: ou Abdera chegou de fato à Lua em seu navio, e de lá trouxe as pedras encomendadas por Hirão, ou tirou férias no Norte da África, voltou com pedras comuns e mentiu no seu diário. Sabe-se, porém, que os marinheiros fenícios jamais mentiam. Não sobre viagens, pelo menos.

Biblioteca de Babel (117): Voo Cego

É a primeira graphic novel já publicada com todos os quadrinhos em branco. Sem cenário, sem personagens (visíveis), sem texto.

Quem lê (lê?) encontra apenas as páginas diagramadas, com a grade de quadros partindo do padrão clássico americano, de duas colunas com tres paineis em cada, para aos poucos introduzir variações, aumentando alguns deles, reduzindo outros, explorando formatos diferentes. As vezes um quadro invade outro, às vezes um formato inusitado se repete por páginas a fio em diferentes posições.

Voo Cego já foi considerada não uma história em quadrinhos, mas uma partitura: sua aventura gráfica seria apenas uma forma de notação de uma complexa estrutura rítmica. Mas isso é apenas para quem não consegue enxergar a história.

Biblioteca de Babel (116): Passa Boiada

Mais do que um livro, Passa Boiada é um projeto translinguístico.

A sua primeira versão foi escrita em chamorro, que como se sabe é uma língua falada na ilha de Guam. Mas esse foi apenas um ponto de partida. Do chamorro foi traduzido para o suaíli, do suaíli (ignorando-se propositadamente a versão original) para o aimoré, daí para o finlandês, em seguida para o cantonês e o armênio. O objetivo é que o texto passe pelas quase sete mil línguas existentes (segundo o Ethnologue) no planeta, antes de voltar a ser vertido para o chamorro. Somente então se terá a versão definitiva do livro, que será uma soma das peculiaridades de cada idioma.

Há duas vertentes entre os linguistas envolvidos no processo. Metade acredita que a versão final será igual à original, ipsis litteris. A outra metade acha que será irreconhecivelmente diferente.

Biblioteca de Babel (115): Fábulas Imorais

Foram compostas por Artemidoro de Tebas, um contemporâneo e rival de Esopo. São histórias que exaltam a mentira, a traição, a injustiça, a pusilanimidade e a mesquinhez. Em todas elas, os vilões e canalhas sempre terminam com seus objetivos alcançados (frequentemente, até superados).

Levado aos tribunais por desvirtuar os jovens (mesma acusação que seria apresentada um século depois contra Sócrates), Artemidoro defendeu-se jurando que todas as suas fábulas eram, na verdade, histórias reais, tendo ele apenas disfarçado nomes e alterado outros detalhes.

Foi condenado então por fraude, uma vez que vendia histórias reais como se fossem criação da sua imaginação. Seu fim foi considerado uma contraprova perfeita das suas teses e por isso sua obra caiu no esquecimento.