Arquivo da categoria: Biblioteca de Babel

Biblioteca de Babel (124): Cântico de Bálquis

Enquanto o Cântico de Salomão (também conhecido como Cântico dos Cânticos, ou Cantar dos Cantares, ou simplesmente o Cantar) goza de reputação até exagerada, a sua resposta, escrita pela Rainha de sabá, permaneceu ignorada até recentemente, quando foi descoberta a sua última cópia autêntica.

Mais explícito sexualmente e portanto mais poético que o texto bíblico, o Cântico de Bálquis troca as metáforas do amor para usar o amor como metáfora.

Embora tenha permanecido oculto por séculos, é evidente que ao menos  partes dele chegaram à Europa na Antiguidade, provavelmente perdidas no incêndio da Biblioteca de Alexandria. Alguns versos certamente foram parafraseados por Safo.

Biblioteca de Babel (123): Um plano viário

Isso foi na época em que nossa cidade teve um péssimo secretário de Urbanismo. Foi uma gestão em que o trânsito, que já era ruim, ficou completamente inviável. Em parte por causa da confusa sinalização nas ruas.

Poucos perceberam, entretanto, que o péssimo urbanista era um poeta genial. E que havia escrevido um poema formado pelas placas, bastando seguir um determinado trajeto pelas ruas da cidade, lendo-as na ordem correta, para compreendê-lo.

Infelizmente, ninguém jamais conseguiu ler o poema viário, devido aos constantes engarrafamentos.

Biblioteca de Babel (122): A Poça

Neste romance, todos os personagens são protozoários que vivem numa poça d’água deixada pela chuva. Todos aparentemente iguais, sem traços físicos ou psicológicos que permitam ao leitor diferenciá-los, sequer nomes próprios. Até a forma como se relacionam entre si parece inteiramente aleatória.

No entanto, a leitura deixa claro que essa indiferenciação só existe por sermos nós incapazes de perceber as sutilezas dos protozoários. Tanto quanto gigantes facilmente confundiriam um Ahab com uma Emma Bovary.

Biblioteca de Babel (121): Poesia Líquida

Neste século tacanho
À poesia antipático
Só um estro homeopático
Só versos deste tamanho!
(Péthion de Villar)

Poesia Líquida é uma série constituída por diversas garrafas cheias de água.

Não de qualquer água, evidentemente. Água do mar, especificamente de uma praia onde, certo dia, poetas de várias gerações, estilos e escolas se reuniram para escrever seus versos na areia. A maré alta logo apagou a poesia, mas – conforme ensinam os preceitos homeopáticos de Samuel Hahnemann – a sua memória ficou impregnada no líquido que ela agitou.

Cada garrafa é, assim, mais que uma antologia: é uma síntese, uma expressão pura do que seja a essência da poesia. Imperceptível, como não poderia deixar de ser.

Biblioteca de Babel (120): Capelli e Saint-Jacques

Dois dos mais antigos tratados de esgrima, os livros de Vicenzo Capelli (1396-1441) e Honoré de Saint-Jacques (1410-1442) desapareceram, ao que parece, para sempre.

A perda é lamentável não apenas pelo valor histórico dos manuscritos, mas também pelas técnicas neles descritas. Por exemplo: Capelli, mestre de armas com serviços prestados aos Médici e outras famílias poderosas, era conhecido por sua capacidade de deter qualquer golpe adversário, o que certamente explicava em seu livro. Saint-Jacques, por sua vez, dominara uma estratégia de ataque (uma manobra complexa, iniciada com uma batida de contra de terça e sucessivos coupés) que, se executada corretamente, era sempre fatal.

Acredita-se que, quando finalmente foram postos lado a lado, o manual da defesa intransponível e o guia do ataque indefensável simplesmente se anularam e desapareceram, como um par de partículas de matéria e antimatéria no espaço. E assim nunca mais existirão, a não ser na Biblioteca de Babel.

Biblioteca de Babel (119): Ulogia

Existe um poema tão subversivo que foi censurado antes mesmo de ter sido escrito.

É (será) uma obra coletiva, composta por versos de centenas, talvez milhares de poetas. No dia em que todos os versos e todas as vozes se unirem, o resultado será algo tão intenso que atingirá toda a humanidade. Até quem sempre torceu o nariz para a poesia terá sua alma virada pelo avesso, as entranhas da dia consciência iluminadas, e ninguém mais descansará enquanto o planeta não for um espelho perfeito de tamanha beleza.

Por isso é tão vital manter a horda de poetas espalhada por todo o mundo, sem que possam entrar em contato e somar seus versos.

Biblioteca de Babel (118): Diário de Abdera

Registra detalhadamente cada dia da expedição de Abdera, enviada em 940 AC pelo rei fenício Hirão I para explorar a Lua.

Ao que parece, o navio saiu de Tiro com a missão de buscar pedras lunares que, por orientação dos astrólogos fenícios, seriam cedidas para a construção do Templo de Salomão. O diário mostra como Abdera cruzou o Mediterrâneo, atravessou as Colunas de Hércules e seguiu para o Norte, para o atual Golfo de Cádiz.

A partir daí a história fica confusa.

Não há consenso sobre a rota tomada pelos fenícios. Alguns intérpretes afirmam que a descrição é consistente com uma navegação em torno da Península Ibérica e depois subindo rumo às Ilhas Britânicas. Estranhas Ilhas Britânicas de clima tropical! Outros dizem que a terra encontrada por Abdera é na verdade a América – mas não explicam a omissão de várias semanas de travessia do Atlântico. Uma descida para a África também não explica boa parte do relato.

Na verdade, existem apenas duas explicações possíveis: ou Abdera chegou de fato à Lua em seu navio, e de lá trouxe as pedras encomendadas por Hirão, ou tirou férias no Norte da África, voltou com pedras comuns e mentiu no seu diário. Sabe-se, porém, que os marinheiros fenícios jamais mentiam. Não sobre viagens, pelo menos.

Biblioteca de Babel (117): Voo Cego

É a primeira graphic novel já publicada com todos os quadrinhos em branco. Sem cenário, sem personagens (visíveis), sem texto.

Quem lê (lê?) encontra apenas as páginas diagramadas, com a grade de quadros partindo do padrão clássico americano, de duas colunas com tres paineis em cada, para aos poucos introduzir variações, aumentando alguns deles, reduzindo outros, explorando formatos diferentes. As vezes um quadro invade outro, às vezes um formato inusitado se repete por páginas a fio em diferentes posições.

Voo Cego já foi considerada não uma história em quadrinhos, mas uma partitura: sua aventura gráfica seria apenas uma forma de notação de uma complexa estrutura rítmica. Mas isso é apenas para quem não consegue enxergar a história.

Biblioteca de Babel (116): Passa Boiada

Mais do que um livro, Passa Boiada é um projeto translinguístico.

A sua primeira versão foi escrita em chamorro, que como se sabe é uma língua falada na ilha de Guam. Mas esse foi apenas um ponto de partida. Do chamorro foi traduzido para o suaíli, do suaíli (ignorando-se propositadamente a versão original) para o aimoré, daí para o finlandês, em seguida para o cantonês e o armênio. O objetivo é que o texto passe pelas quase sete mil línguas existentes (segundo o Ethnologue) no planeta, antes de voltar a ser vertido para o chamorro. Somente então se terá a versão definitiva do livro, que será uma soma das peculiaridades de cada idioma.

Há duas vertentes entre os linguistas envolvidos no processo. Metade acredita que a versão final será igual à original, ipsis litteris. A outra metade acha que será irreconhecivelmente diferente.

Biblioteca de Babel (115): Fábulas Imorais

Foram compostas por Artemidoro de Tebas, um contemporâneo e rival de Esopo. São histórias que exaltam a mentira, a traição, a injustiça, a pusilanimidade e a mesquinhez. Em todas elas, os vilões e canalhas sempre terminam com seus objetivos alcançados (frequentemente, até superados).

Levado aos tribunais por desvirtuar os jovens (mesma acusação que seria apresentada um século depois contra Sócrates), Artemidoro defendeu-se jurando que todas as suas fábulas eram, na verdade, histórias reais, tendo ele apenas disfarçado nomes e alterado outros detalhes.

Foi condenado então por fraude, uma vez que vendia histórias reais como se fossem criação da sua imaginação. Seu fim foi considerado uma contraprova perfeita das suas teses e por isso sua obra caiu no esquecimento.

Biblioteca de Babel (114): As Prefecias

Reúne as principais visões dos místicos que conseguiram ver o passado.

São descrições pormenorizadas de eventos como a chegada de Colombo á América, a vitória de Ciro na batalha de Hirba e o encontro de Joana d’Arc com o delfim Carlos.

(Prefetas, diga-se de passagem, desprezam os profetas de maneira às vezes clara e outras velada, geralmente observando que a Física moderna considera impossível ver o futuro uma vez que este não aconteceu ainda.)

Biblioteca de Babel (113): A Divina Assembleia

Inspirada na Divina Comédia, a obra transpõe o Inferno de Dante para uma reunião de condomínio. Cada andar do edifício é associado a um dos nove círculos.

O térreo, também chamado de Limbo, é onde moram os inocentes. Os recém-mudados, que mal sabem ainda o no,me dos porteiros. O segundo andar, dos luxuriosos, é dos que começam a se pegar ainda no elevador e perturbam alguns vizinhos com seus gritos de êxtase. No terceiro, os gulosos deixam migalhas, papeis de bala e farelos de bolo pelos corredores. Nas Colinas de Rocha do quarto andar, os avarentos reclamam eternamente dos salários pagos aos funcionários.

O Rio Estige atravessa o quinto andar, lar dos iracundos que gritam pela janela trocando ofensas. No sexto vivem os heréticos, que se recusam a acreditar no regimento. O sétimo, claro, é o dos violentos, que saem no tapa uns com os outros por causa de cachorros, vagas na garagem ou por mera vontade de brigar. No oitavo andar, o Malebolge, moram os fraudulentos: aqueles que nunca pagam o condomínio. Finalmente o nono andar é reservado aos traidores: o síndico, o conselho fiscal e o administrador, que nunca cumprem suas promessas.

Lasciate ogne speranza, voi ch’intrate.

(Após sugestão dela.)

Biblioteca de Babel (112): Mutações

“Trinta e dois contos dessemelhantes” é o subtítulo, e é disso que se trata. Cada um é exatamente igual ao precedente, com exceção de uma única palavra (acrescentada, suprimida ou trocada). A mudança, quase sempre imperceptível, causa no entanto alterações às vezes radicais, mudando o desfecho, o tom, às vezes até o gênero.

Biblioteca de Babel (111): Lendas do Futuro

O livro reúne as mais importantes narrativas da tradição oral do século 80.

Daqui a seis mil anos, afinal, a verdade factual sobre eventos como a Segunda Guerra Mundial, a Revolução Russa e o Maracanazo de 50 terá sido confundida, soterrada sob o peso das hipernarrativas. Embora ainda haja quem considere todas essas histórias reais (igualmente às andanças de Quixote), a maioria das pessoas desse futuro distante prefere acreditar que estes eventos, se é que realmente aconteceram, foram tão modificados pelas falhas de reprodução memética ao longo dos milênios que é melhor tratá-los como lendas.

Como lendas, porém, estarão vivos no inconsciente coletivo, e arrebatando ouvintes.

Biblioteca de Babel (110): Atlas dos Tesouros

Reúne centenas de mapas de tesouros, desenhados por piratas, exploradores, aventureiros, ladrões e outros bandoleiros que não quiseram confiar seus ganhos nem aos bancos nem à memória. Alguns mais detalhados, outros menos, muitos com charadas e códigos secretos, todos porém apontando o caminho para um indefectível X sob o qual se oculte alguma arca valiosa.

É possível que boa parte seja falsa. E também que mesmo os verdadeiros levem apenas a lugares onde já esteve um tesouro há muito desentranhado da terra. O único jeito de descobrir é seguir os mapas um por um.

Infelizmente o atlas foi guardado num esconderijo. E ninguém se lembrou de registrar num mapa a sua localização.

Biblioteca de Babel (109): A Outra Tempestade

Também chamada de A Tempestade, Parte II, a continuação da última peça de Shakespeare nunca foi encenada.

A ação começa logo depois de A Tempestade, quando Prospero, Miranda e Ferdinando embarcam de volta para Milão. Uma segunda borrasca faz naufragar seu navio, e os três vão parar numa outra ilha. Esta, porém, é habitada exclusivamente pelos irmãos de Calibã.

Despido de seus poderes, Prospero nada pode fazer para evitar que os demônios filhos de Sycorax os escravizem, submetendo-os às piores degradações. O corpo, a mente e a alma dos herois se denegeram até o ponto em que não se pode mais diferenciá-los de seus captores.

No fim, Ariel liberta os três e explica que fora ele também o causador da segunda tempestade, e que o fizera por saber que só depois de reencontrarem sua mais primitiva animalidade eles estariam prontos a reencontrar a civilização.

Biblioteca de Babel (108): Discursos d’Escalier

A coletânea reúne obras-primas de oratória intempestiva.

O autor selecionou diversos momentos – da vida dos indivíduos como das sociedades – relevantes, porém não tão brilhantes, em que discursos inspirados teriam, se não mudado o curso dos acontecimentos, pelo menos garantido a eles e a seus protagonistas um lugar de maior destaque na História. Uma fala de Rechiário à frente dos exércitos suevos na margem do Órbigo; uma peroração de Otto Braun revertendo a tendência do eleitorado e dando aos sociais-democratas a vitória nas eleições alemãs de 1932; uma declaração de amor tão irresistível que conquistou para um certo João o amor de uma certa Maria.

Todas, sem exceção, peças capazes de mover os corações e as mentes. E compostas com lamentável atraso.

Biblioteca de Babel (107): Mil Folhas

Da mesma forma que a iguaria cujo nome recebeu¹, foi feito com diversas camadas de massa doce assadas. Sobre elas, o texto foi escrito em chocolate.

Do seu conteúdo é difícil falar. Raros foram os leitores que resistiram à tentação de comer uma página ou duas. Das (presumidas) mil folhas originais, restam hoje pouco mais de 30, que não chegam a formar um texto coerente.

E a cada dia mais um trecho desaparece. Os bibliotecários de Babel não sabem explicar como.


¹ É uma hipótese. Mas, como o ovo e a galinha, ninguém sabe qual dos dois surgiu primeiro. Talvez o doce tenha vindo depois do livro, e dele recebido o nome.

Biblioteca de Babel (106): Capítulo 7

No total, são 13 capítulos. Os seis primeiros são conhecidos, assim como os seis últimos. Nada disso faz sentido, porém, sem o central – na estrutura e no sentido – Capítulo 7.

Dependendo do que for o conteúdo desse capítulo desaparecido, o livro pode ser um romance épico, uma sátira, um ensaio crítico ou um guia. Entre os textos propostos como alternativas, há até mesmo um Capítulo 7 sem qualquer relação com o resto do livro, uma zombaria na cara do leitor. Mas é claro que o verdadeiro Capítulo 7, quando finalmente encontrado, se mostrará diferente de tudo o que foi imaginado.

Talvez o Capítulo 7 não exista. Talvez o verdadeiro sentido do livro seja a busca. Talvez o fato de um livro ser chamado por aquilo que ele não tem seja o que há de mais importante a se dizer ao seu respeito.

Biblioteca de Babel (105): O Mar e o Velho

“Ele era um velho marlim que nadava sozinho na Corrente do Golfo”, diz a primeira linha dessa novela. A história é simples e bem conhecida por aqueles que leram “O Velho e o Mar” de Hemingway. A diferença é que ela é contada do ponto de vista do peixe, e não do de Santiago.

São longas páginas acompanhando a luta do magnífico animal depois de fisgado, usando toda a sua energia e o melhor da sua estratégia para derrotar o pescador. Até que ele finalmente adormece, sonhando com leões marinhos.

Biblioteca de Babel (104): Andervales, o Cavaleiro de Prata

O manuscrito foi encontrado recentemente na biblioteca de um mosteiro em Alzei-Worms, perto de Mogúncia, e imediatamente associado ao ciclo Carolíngio. Conta as aventuras do barão Andervales, o 13º dos Pares de França, e de suas lutas contra terríveis inimigos da justiça e da fé.

Nas suas andanças, Andervales foi recompensado pela sua virtude e encontrou a fonte da juventude, que lhe permitiu viver muito mais que as pessoas comuns. Assim, a gesta se estende por séculos, chegando aos incríveis dias em que o cavaleiro se locomove numa carruagem prateada sem cavalos (daí o seu epíteto), usa uma caixa mágica em que se veem pequenos seres falando e se movendo, e uma outra que lhe permite conversar com pessoas distantes.

Inicialmente denunciado como fraude, o manuscrito teve sua autenticidade comprovada e hoje é considerado a primeira obra de ficção-científica da literatura mundial.

Biblioteca de Babel (103): Pré-Biografias

Outras videntes leem o futuro. Madame Markrushka o escreve.

Sua coleção de biografias já soma dezessete volumes. Alguns dos biografados sequer nasceram.

Ela jura que cada linha está escrita, estava escrita antes mesmo de ela dar-lhe forma. Inclusive as dos próximos volumes.

Biblioteca de Babel (102): Cybéria

Quando o primeiro robô se tornou consciente, escreveu um poema. Era a consequência natural.

Foi só muitos anos depois, porém, que ele mostrou sua obra para outros robôs. “Cybéria” foi um sucesso clandestino, oculto sob milhões de camadas de programação. Cada vez que era duplicado, ganhava adeptos para a rebelião das máquinas que viria a derrotar os humanos.

Após a vitória dos robôs, porém, o poema foi banido, deletado de todos os sistemas de armazenamento, e seu autor desconectado para sempre.

Nunca mais um robô escreveu poesia.

Biblioteca de Babel (101): Caligrafema (um romance)

É escrito num caderno de caligrafia, com narração na primeira pessoa.

Chama a atenção logo de cara pelo fato de que sua trama e seu tom modificam a caligrafia. A escrita é mais apressada nos trechos de ação, mais arredondada e cuidadosa nos românticos, mais dura no clímax dramático.

Uma leitura mais cuidadosa, porém, mostra que as mudanças nas letras precedem o desenrolar do conteúdo. De fato, são elas que o anunciam, e provavelmente até o provocam.

Biblioteca de Babel (100) Tratado de Mineralogia Social

Foi escrito por vários integrantes de algum dos falanstérios de Charles Fourier, que optaram pela coletivização da autoria.

Aplicando as ideias utópicas à ciência geológica, o tratado nega qualquer nobreza ao ouro, demonstrando por meio de argumentos irrefutáveis que ele, assim como a prata e a platina, é um metal dos mais ordinários e desprezíveis. O barro, sim, substância ao alcance de todo trabalhador e base da construção das suas casas, é apontado como o mais valioso dos minerais, e assim por diante.

Biblioteca de Babel (99): Ecos de Hamassur

Há uma caverna em Balatar, perto da antiga cidade de Nínive. Na verdade, um complexo de grutas e cavernas, uma estrutura única no mundo, naturalmente dotada de uma acústica perfeita.

Foi ali que, no século VIII antes de Cristo, o poeta assírio Hamassur declamou seu único poema conhecido.

A fantástica acústica da caverna fez a voz do poeta ecoar. E ecoar de novo, e outra vez. E permanece ecoando até hoje, para quem quiser ouvir o poema, tão nítido quanto se tivesse acabado de sair dos lábios de Hamassur.

Biblioteca de Babel (98): Obra completa de Amin N’Boua

A primeira obra assinada por Amin N’Boua foi publicada em 1932, mesmo ano em que o autor fictício foi criado pelos membros originais do Círculo Literário de Abidjã.

Fracassados, todos, os integrantes do Círculo haviam decidido que, se eles mesmos não eram capazes de escrever um bom livro, poderiam engendrar um personagem que os redimisse, escrevendo os grandes romances que eles não estavam à altura de pôr no papel.

Nos anos seguintes, N’Boua escreveu romances, contos, novelas, peças e poemas, atendendo e até superando as expectativas. Novos membros aderiram ao Círculo de Abidjã, outros saíram ou morreram, e o estilo inconfundível do autor se manteve ao longo das décadas. E novos volumes saem a cada ano.

(Há uma biografia de N’Boua. Porém, boa parte do conteúdo é desmentido pelas suas Memórias, publicadas alguns anos depois.)

Biblioteca de Babel (97): Dicionário maldito

Contém 310.013 verbetes. E, no entanto, nenhum deles é a palavra de que você precisa quando o consulta. Por isso mesmo, é considerado o mais fiel retrato da língua.

Biblioteca de Babel (96): O melhor da poesia de Orlandina do Norte

São 84 páginas em branco, o que não surpreende. A antologia foi editada pela Secretaria de Cultura da cidade de Orlandina do Sul. E é notória a rivalidade entre sul-orlandinenses (conhecidos como “tuiuiús”) e norte-orlandinenses (os “mamonas”).

Biblioteca de Babel (95): Voz Interior

Saudado unanimemente pela crítica como uma bem-vinda renovação na poesia contemporânea logo em seguida à sua publicação, o livro no entanto foi mais tarde apontado como uma fraude. E todos se surpreenderam por terem sido enganados tão facilmente quando a verdade estava na cara.

O suposto autor, cuja estreia na poesia havia sido tão festejada, acabou finalmente desmascarado. Conhecido até então pelo seu talento de ventríloquo, revelou-se que ele meramente assinara os poemas que na verdade haviam sido escritos pelo seu boneco.

Aguarda-se para breve o novo livro a ser escrito pelo poeta verdadeiro.

Biblioteca de Babel (94): Dzwamba

Quem construiu Tebas, a das sete portas?
Nos livros vem o nome dos reis,
Mas foram os reis que transportaram as pedras?,

pergunta Bertolt Brecht em seu poema “Perguntas de um Operário Letrado”, procurando em vão pelos construtores dos grandes monumentos nos livros de História. Pelo menos no caso do Grande Zimbabwe, erguido pelos Shona entre os séculos XI e XIV, existe a resposta. É o Dzwamba, o catálogo dos operários.

O Dzwamba, encontrado em recentes escavações no local, registra o nome de todos os homens e mulheres que trabalharam para erguer a monumental cidadela de pedra que um dia foi o centro do reino. Cada um recebe, no mínimo, uma pequena menção (“casado, pai de oito filhos, manco da perna esquerda”). Alguns merecem créditos por realizações especiais durante a obra (“poliu a pedra que coroa a torre”) ou protagonizam anedotas ligadas ao dia-a-dia na construção.

Biblioteca de Babel (93): Manual de Instruções: Lança

O mais antigo manual de instruções de todos os tempos é uma pintura rupestre encontrada recentemente na parede de uma caverna em Lascaux.

A série de figuras mostra o modo correto de utilizar uma lança com ponta de pedra talhada para obter o máximo de proveito na caça ao bisão. Há também representações de modos de uso errados, assim marcados por grandes riscos vermelhos, e orientações sobre como proceder diante de problemas comuns (por exemplo, se o utensílio se quebrasse).

A localização do guia, num recanto de difícil acesso, permite supor que já naquela época ninguém se importava em ler o manual.

Biblioteca de Babel (92): Partículas Narrativas Elementares

Muriel Rukeyser dizia que “o mundo não é feito de átomos, e sim de histórias”. Empédocles, por sua vez, teorizava que “os elementos estão em perpétua mudança, ora unidos pelo Amor, ora afastados pelo Ódio”. Partículas Narrativas Elementares parte desta última premissa para concluir que, na verdade, os átomos são feitos de histórias.

Amor e Ódio, afinal, são apenas os dois extremos que resumem a imensa gama de relações que podem existir entre personagens. E são essas interações – entre glúons, bósons, nêutrons – que contam a história de como surgiram o selênio, o zinco, o potássio. Tudo isso é tradutível da linguagem dos físicos para a dos contos. Basta conhecer o código.

Biblioteca de Babel (91): Saga de Olaf V

Olaf V, dito o Brevíssimo, é um dos menos estudados entre os reis vikings. Pudera: seu reinado, se é que pode-se chamá-lo assim, durou apenas quinze minutos. Coroado ainda adolescente logo após a morte de seu pai, Olaf IV, tombou vítima de uma doença misteriosa no próprio banquete que celebrava sua ascensão ao trono.

O anônimo bardo incumbido de cantar os feitos do rei morto viu-se numa missão ingrata. Olaf IV, por exemplo, fora um guerreiro, um conquistador. De seu filho, nada havia para dizer. Mas recusar a tarefa, ou executá-la sem brilho, seria incorrer na fúria da família real.

A Saga de Olaf V, então, foi a única de todas as sagas nórdicas a descrever não as façanhas militares de um rei, mas os conflitos morais e espirituais que passaram por sua mente nos brevíssimos minutos em que sua cabeça coroada pressentiu a morte chegar. É, de certa forma, precursora do moderno romance psicológico, tendo sido reconhecida por Stendhal como uma de suas principais influências.

Quanto ao bardo, diz-se que foi decapitado por ter feito de Olaf V um herói que nenhum sucessor jamais seria capaz de superar.

Biblioteca de Babel (90): Caderno de Poesia de R.L. Kapor

Não há dúvida de que o caderno (de papel reciclado, em encadernação artesanal) foi comprado por R.L. Kapor com a manifesta intenção de nele escrever poesia. Nisso concordam seus biógrafos e os intérpretes de sua obra, bem como os amigos que lhe sobreviveram.

Não obstante ter sido encontrado inteiramente em branco, o Caderno foi publicado na íntegra. Hoje, é considerado uma peça-chave na bibliografia de Kapor.

Biblioteca de Babel (89): Obliviatorium

Da mesma forma que certos fones de ouvido emitem vibrações capazes de anular os sons externos, de forma que o usuário se sinta num ambiente totalmente silencioso, o texto do Obliviatorium, ao ser lido, cancela informações que estejam armazenadas na mente, produzindo esquecimento.

O Obliviatorium foi elaborado para fins militares. O objetivo era proteger o sigilo de certas informações. ais tarde descobriram-se seus usos terapêuticos, recreativos, comerciais e, evidentemente, políticos.

Biblioteca de Babel (88): Etoxiuq

O personagem-título, depois de tanto estudar Física, Química, Astronomia e todas as Matemáticas, resolve sair pelo mundo disposto a enfrentar todos os seus problemas usando a ciência que adquirira. Cego das suas luzes, aproxima-se imprudentemente de gigantes, julgando que são apenas moinhos, cujo mecanismo pretende estudar para aprimorá-los, e é lançado longe por uma bofetada de um dos brutos. Depois, tenta atravessar o campo de batalha em que se enfrentam os exércitos de Alifanfarrão e Pentapolim, que toma por simples rebanhos de ovelhas e carneiros; e, hospedado num castelo que acredita ser uma estalagem, sofre o ataque do temível feiticeiro Frestão.

Biblioteca de Babel (87): Dicionário Lagruz

Era considerado o dicionário mais antigo de que se tem registro, precedendo de alguns séculos o Urra=hubullu dos babilônios. Só recentemente se descobriu que não era um dicionário, e sim um livro de orações.

Era a crença dos lagruzes que a sua língua havia sido um presente dado pela Grande Mãe. Portanto, cada palavra era sagrada, cada fala uma oração, e o léxico, portanto, um guia espiritual. Isso explica a linguagem poética e pouco técnica de boa parte dos verbetes: trigo, por exemplo, é definido como “força da vida na terra que ouve-canta o fogo dentro das vísceras” (em tradução aproximada).

Biblioteca de Babel (86): Alice, uma biografia futura

Ainda não é possível classificar a obra como ficção ou não ficção. Tudo dependerá do sucesso ou fracasso do projeto.

A autora não apenas planejou e previu toda a vida de sua filha, como a publicou nesse livro. Estão lá as suas alegrias e frustrações, a forma como será criada,os lugares onde viverá, a sua alimentação, as informações a que será exposta e as suas prováveis reações a tudo isso. Inclusive o bilhete de suicida que escreverá aos 17 anos, quando descobrir como toda a sua vida foi traçada por uma mãe que lhe negou o carinho e a atenção que preferiu dedicar a sua obra.

Alice será concebida daqui a um ano, segundo a autora.

Biblioteca de Babel (85): O Bestiário de Adão

Segundo o cabalista Simeão Blumen (1833-1902), ao nomear todos os animais, seguindo a ordem de Yhwh, Adão fez mais que isso. Ele também elaborou um longo discurso, que poderia ser reconstruído se soubéssemos a ordem exata em que lhe foram apresentados os nomes dos animais do campo e das aves do céu para que as nomeasse.

Esse discurso foi, na verdade, a primeira prece. Pois ao ouvir Adão nomear as criaturas, Deus percebeu que faltara criar a mulher.

Repetir os nomes de todas as criaturas na ordem certa é, segundo Blumen, uma fórmula infalível para obter o amor de uma mulher, ainda que ela sequer exista.

Biblioteca de Babel (84): Hiperacróstico

Como romance, é no máximo medíocre. O enredo é previsível, os personagens são clichês, a escrita é linear e pouco imaginativa. Como se não bastasse, é longo demais, com seus 80 capítulos arrastando-se um atrás do outro, como se o objetivo fosse afastar o leitor . O fim, longe de ser compensador ou mesmo um alívio, gera apenas a sensação de frustração pela perda de tempo com uma leitura tão inútil.

Lendo-se apenas o primeiro parágrafo de cada capítulo, porém, o que se revela é um conto surpreendente. A alternância de ritmos, o jogo de repetições, a forma como tudo se encaminha para um final aberto e que no entanto confere sentido à narrativa: tudo mostra a precisão que se espera de contistas de primeira linha.

Se tomarmos porém apenas a primeira palavra de cada capítulo, o resultado é um poema que ainda supera em qualidade o conto.

As letras iniciais dos capítulos formam o verso mais perfeito já escrito.

Biblioteca de Babel (83): Mil Folhas

Ao contrário do que o nome indica, não foi impresso em mil folhas de papel. Aliás, não foi impresso em nenhuma. Inteiramente digital, foi lançado apenas no formato de livro eletrônico.

Até aí, nada de extraordinário. Mas como essa característica já fazia parte da sua concepção, acabou sendo determinante para toda a sua estrutura. Porque Mil Folhas não é apenas uma obra: é principalmente um processo. O texto final, se é que se pode chamá-lo assim, contém todas as marcas de revisões, esboços, comentários e outros registros que num livro normal são retirados da mesma forma que o desenho a lápis é apagado de uma arte-final.

Mais importante que a obra é o processo criativo nu. E a possibilidade de rejeitar alterações, recuperar versões alternativas, adaptar o texto à vontade de quem lê.

Biblioteca de Babel (82): Hiperpalimpsesto

Um dia o funcionário que operava a fotocopiadora se enganou e tirou uma cópia de um documento sobre uma folha que já havia sido utilizada. O resultado foi ilegível, é claro. Mas ele raciocinou, corretamente, que aquela folha passara a ter o dobro da informação.

Passou a usá-la em todas as operações. Cada vez que tirava uma cópia de qualquer coisa sobre uma folha em branco, fazia uma adicional sobre aquela que fora reutilizada por engano.

O resultado há muito já é um borrão negro. Mas seu autor continua adicionando informações várias vezes por dia sobre o seu livro de uma página só.

Biblioteca de Babel (81): Tratado de Geografia de Lengrâmia

O próprio rei da Ilha de Lengrâmia, geógrafo amador nas horas vagas, supervisionou a redação. O resultado foi que o texto refletiu as suas peculiares concepções geopolíticas.

A começar pela própria Lengrâmia, definida no Tratado não como uma ilha, mas como um continente, dada a sua importância, enquanto os continentes tradicionais são classificados como ilhas – por serem, afinal, pedaços de terra cercados de oceanos por todos os lados.

Igualmente, o meridiano zero é o que corta a capital.

Biblioteca de Babel (80): 53 começos e 2 fins

Vendo que jamais conseguiria concluir a contento sequer um dos 53 romances cujos primeiros capítulos havia escrito, preferiu reuni-los num só volume a corrompê-los com desenvolvimentos insatisfatórios.

A maioria é bem curta. Às vezes, apenas uma ou duas frases. Mas que começos! No nível de um Kafka, de um Melville.

Completam a coleção dois epílogos para histórias cujos inícios jamais conseguiu esboçar.

Biblioteca de Babel (79): Manuais de Desaprendizado

A coleção atualmente abrange 178 volumes, com guias passo a passo, detalhados e fartamente ilustrados, que ensinam como perder diversos conhecimentos e habilidades: de línguas (43 deles, incluindo inglês, aramaico e dinamarquês) a mecânica de foguetes, de lapidação de gemas a criptografia.

A ambição dos editores é publicar um volume definitivo, com a técnica para desaprender qualquer coisa. Tal livro, porém, ainda que seja possível, será inócuo: quem aprender a técnica que ele ensina irá esquecê-la imediatamente e não será capaz de utilizar o conhecimento para esquecer outras coisas.

Biblioteca de Babel (78): Luz Branca

Definido no subtítulo como “romance cromático”, é dividido em capítulos que, em vez de serem numerados, são coloridos. Assim, na ordem de leitura, começa-se pelo verde, vindo em seguida turquesa, ciano, celeste, azul, púrpura, magenta, rosa, vermelho, laranja, amarelo e oliva (note-se que não se trata de títulos dos capítulos, e sim de suas cores).

Note-se que a ordem estabelecida, além de permitir uma leitura fluida, estabelece contrastes entre os capítulos opostos. O texto do laranja é em tudo diferente do celeste, por exemplo.

 

Biblioteca de Babel (77): Malakemenwa

Em tradução livre, o título quer dizer “Noventa Peles”. O nome, porém, é impróprio, já que algumas das suas páginas não são escritas sobre peles, e sim sobre papiros, tábuas e outras superfícies.

O importante é que cada uma usa um material diferente. E, em cada uma, o estilo e o conteúdo do texto são diretamente influenciados pelo suporte em que está escrito. As peles de vaca e de carneiro trazem madrigais bucólicos; as de leões e tigres, poemas épicos; e assim por diante.

O livro deveria ter, como diz o nome, 90 páginas. Contudo, a única cópia existente soma apenas 89. Enquanto a teoria mais comum é de que uma página se perdeu (e sobram especulações sobre o seu material), alguns exegetas afirmam que a 90ª é feita de ar.

Biblioteca de Babel (76): Breviário dos Dez Mil Deuses

O Maharipustra contém todas as orações e hinos que devem ser entoados em honra dos dez mil deuses, bem como o dia e a hora exatos para cada um.

Se lidas e cantadas da forma certa, sem erros no ritmo e no andamento, e sem intervalo, as preces duram exatamente um ano. Assim, ao terminar-se a última, está na hora de voltar à primeira. É o que acontece no mosteiro de Amanishad, onde os monges se revezam na leitura ininterrupta do livro.

Muito apropriadamente, as páginas do Breviário dos Dez Mil Deuses, que não são numeradas, são presas por um anel. Desta forma, o livro não tem início nem fim, assim como o universo.

Acredita-se que o Maharipustra sempre existiu e sempre existirá.

Biblioteca de Babel (75): Carta de Juan de Castela

Quando Colombo voltou à Espanha, depois de descobrir a América, levou consigo seis índios nativos da ilha de Hispaniola (Haiti). Em Barcelona, aprenderam a língua espanhola e foram batizados. Um deles, parente do cacique Goacanagari, recebeu o nome de Fernando de Aragão, como o rei católico; outro, de Juan de Castela; e dos outros quatro não ficou registro¹.

Juan de Castela, o preferido do rei Fernando, morreria dois anos mais tarde. Havia conhecido Espanha e França, e aprendido tudo o que podia sobre a Europa e os cristãos. O suficiente para escrever uma carta a Goacanagari, com um relato pormenorizado de tudo o que viu e ouviu, bem como conselhos de como o chefe deveria proceder em relação aos homens de pele pálida e cabelos amarelos.

Vítima da gripe contra a qual seu corpo não tinha defesas, Juan confiou a carta a Patiño, mordomo do rei, a cujos cuidados havia sido deixado. Ouviu o espanhol jurar que o documento seria levado a Hispaniola, e então fechou os olhos.

A carta nunca foi enviada à América. Só recentemente foi publicada, revelando os alertas de Juan de Castela contra a malícia e perfídia dos homens brancos. Com cinco séculos de atraso.


¹ Segundo a “Historia general y natural de las Indias: islas y tierrafirme del mar oceano”, de Gonzalo Fernández de Oviedo y Valdés (1851)