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Biblioteca de Babel (128): Tulcaze

Tulcaze é, ao mesmo tempo, o nome de um povo, de uma língua, um nome próprio e o título de um livro. O único livro escrito em tulcaze, que conta a história de Tulcaze, que fundou a civilização tulcaze.

No auge da civilização (ouso dizer do império) tulcaze, o livro era um extenso tratado que cobria quase todos os aspectos do conhecimento humano. Porém, a cada tulcaze que morria, uma ou mais palavras eram eliminadas da língua (e do livro). Hoje, no último povoado tulcaze, restam pouco mais de cinquenta almas que mal conseguem usar o idioma materno para se comunicar, reservando-o apenas para usos rituais.

Há 13 anos não nascem crianças tulcazes. Acredita-se que Tulcaze, hoje adolescente, será a última testemunha dessa história. Quando morrer, morrerão igualmente o povo, a língua e o livro, que perderá sua última palavra — “Tulcaze”, naturalmente.

Biblioteca de Babel (127): Doze Contos Inacabados

O que há de mais intrigante nesta coletânea é que todos os contos parecem perfeitamente acabados. Seguem, quase todos, uma estrutura linear, com começo, meio e fim (três deles terminam com a morte do protagonista, outros com alguma forma convincente de fim de jornada). Mesmo os que são menos convencionais levam a algum tipo de conclusão.

Poderia se argumentar que, os fins estando sempre corretos, o que há de inacabado são os inícios. Pelo contrário, cada conto abre com uma frase magistral que já desencadeia a narrativa. Os meios também são primorosos. Seria a escrita? Também não. Cada palavra parece ter sido esculpida com todo o cuidado para encontrar seu lugar no texto.

Ao que parece, os contos foram dados como inacabados porque estão até hoje à espera de uma leitura que os complete.

Biblioteca de Babel (126): Uma Carteira

A segunda carteira da terceira fileira da última sala do terceiro andar do Colégio Ada Lovelace não parece diferente de todas as outras da mesma fileira, da mesma sala, de todo o terceiro andar e de todo o colégio, e nem mesmo de todas as carteiras do mesmo modelo produzidas em série como instrumentos para a reprodução de estudantes em série.

Banal, portanto.

Sendo, porém, o Acaso aquilo que é, nesta carteira específica as palavras, frases e desenhos rabiscados ao longo de anos de aulas tediosas acabaram por formar um romance. Em vão zeladores esfregaram panos com álcool no tampo de fórmica. A sombra dos grafitos ficou, somando-se a outros mais novos, numa espécie de palimpsesto, adicionando camadas a uma narrativa já de início carregada de pathos adolescente.

Há uma maldição na segunda carteira da terceira fileira da última sala do terceiro andar do Colégio Ada Lovelace. Quem se senta nela jamais se encaixa novamente na produção em série.

Biblioteca de Babel (125): O Autômato

O primeiro capítulo descreve como José Q., o protagonista, acorda, levanta-se da cama, toma café, arruma-se, vai ao trabalho, sai para almoçar, volta ao trabalho, pega o ônibus de volta para casa, toma banho, janta e vê televisão até a hora de dormir.

O segundo capítulo descreve como José Q., o protagonista, acorda, levanta-se da cama, toma café, arruma-se, vai ao trabalho, sai para almoçar, volta ao trabalho, pega o ônibus de volta para casa, toma banho, janta e vê televisão até a hora de dormir.

O terceiro descreve como José Q., o protagonista, acorda, levanta-se da cama, toma café, arruma-se, vai ao trabalho, sai para almoçar, volta ao trabalho, pega o ônibus de volta para casa, toma banho, janta e vê televisão até a hora de dormir.

O quarto, o quinto… Não é preciso descrever.

“O Autômato” é um anti-romance, cujo personagem principal não vive qualquer tipo de narrativa. Não há conflito, não há fluxo de consciência, não há perfil psicológico, não há nada. Apenas a repetição vazia e inócua de cada dia.

Biblioteca de Babel (124): Cântico de Bálquis

Enquanto o Cântico de Salomão (também conhecido como Cântico dos Cânticos, ou Cantar dos Cantares, ou simplesmente o Cantar) goza de reputação até exagerada, a sua resposta, escrita pela Rainha de sabá, permaneceu ignorada até recentemente, quando foi descoberta a sua última cópia autêntica.

Mais explícito sexualmente e portanto mais poético que o texto bíblico, o Cântico de Bálquis troca as metáforas do amor para usar o amor como metáfora.

Embora tenha permanecido oculto por séculos, é evidente que ao menos  partes dele chegaram à Europa na Antiguidade, provavelmente perdidas no incêndio da Biblioteca de Alexandria. Alguns versos certamente foram parafraseados por Safo.

Biblioteca de Babel (123): Um plano viário

Isso foi na época em que nossa cidade teve um péssimo secretário de Urbanismo. Foi uma gestão em que o trânsito, que já era ruim, ficou completamente inviável. Em parte por causa da confusa sinalização nas ruas.

Poucos perceberam, entretanto, que o péssimo urbanista era um poeta genial. E que havia escrevido um poema formado pelas placas, bastando seguir um determinado trajeto pelas ruas da cidade, lendo-as na ordem correta, para compreendê-lo.

Infelizmente, ninguém jamais conseguiu ler o poema viário, devido aos constantes engarrafamentos.

Biblioteca de Babel (122): A Poça

Neste romance, todos os personagens são protozoários que vivem numa poça d’água deixada pela chuva. Todos aparentemente iguais, sem traços físicos ou psicológicos que permitam ao leitor diferenciá-los, sequer nomes próprios. Até a forma como se relacionam entre si parece inteiramente aleatória.

No entanto, a leitura deixa claro que essa indiferenciação só existe por sermos nós incapazes de perceber as sutilezas dos protozoários. Tanto quanto gigantes facilmente confundiriam um Ahab com uma Emma Bovary.