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Bestiário (158): Onça imprecisa

Quem vê a onça imprecisa nunca tem muita certeza do que viu. Seus contornos são indefinidos: às vezes parece que acaba aqui, às vezes parece que continua lá. Não é surpresa que poucos caçadores possam se gabar de algum dia ter conseguido acertar uma delas (e os que o fazem, em geral passam por mentirosos).

Em certas ocasiões, a onça imprecisa milagrosamente perde a sua fluidez e surge sólida, insofismável. Mas então, quando a gente chega perto para conferir, descobre que já não é mais onça, é tamanduá, capivara ou até teiú.

A verdade é que da onça imprecisa ninguém escapa se ela não quiser. Por sorte, seus desejos também são inconstantes.

Bestiário (157): Zuctlan

Da mesma forma que o papagaio, a cacatua e algumas variedades de morcegos imitam a voz humana, o zuctlan é capaz de imitar pensamentos.

Husserl, ao que parece, tinha um zuctlan, que de tanto emular a lógica transcendental do seu dono, chegou a ser melhor que o original. Mas de forma geral o zuctlan prefere imitar pensamentos mais simples, adaptando-se muito bem a think tanks liberais, por exemplo.

Conta-se que no reinado do imperador Huītzilihhuitl (1396-1417), para estimular a diversidade de opiniões no Grande Conselho, havia sempre um zuctlan nas reuniões. Se o animal, exposto a ideias divergentes e conflitantes, apresentasse sinais de sofrimento interno, tudo estava bem. Se, reforçado por uma unanimidade cega, se mostrasse forte e bem disposto, os conselheiros eram castigados.

Bestiário (156): Gato-agrícola

O gato-agrícola é o único animal conhecido (além do homem) a cultivar plantas. Não para a sua alimentação, porém, já que, como todos os outros felinos, esse gato selvagem é exclusivamente carnívoro. O seu objetivo é outro.

No território de todo gato-agrícola há um pequeno trecho dedicado à plantação de erva-de-gato (Nepeta catharia), cujas folhas e flores tem efeito alucinógeno sobre gatos em geral. O controle das plantas, inclusive, é fator determinante nas suas disputas territoriais e nos seus rituais de acasalamento.

No outono, o gato-agrícola recolhe cuidadosamente as sementes caídas e as enterra, garantindo a continuidade do seu suprimento. Além disso, defende ferozmente as mudas, às quais parece dar mais valor até do que ao próprio território de caça.

Bestiário (155): Tartaruga sem cabeça

É incrível, mas muita gente ainda duvida da existência da tartaruga-sem-cabeça. Por mais espécimes que sejam apresentados, os acefaloqueloniocéticos insistem que são apenas tartarugas comuns, que apenas estão com a cabeça escondida dentro da carapaça, admitindo no máximo que sejam tartarugas tímidas. Como se a tartaruga-tímida não fosse uma espécie inteiramente diferente, aliás.

É verdade que algumas vezes houve fraudes, com tartarugas comuns sendo apresentadas como acéfalas. Fica na conta da precipitação em se comprovar a existência deste animal tão raro. Ainda mais porque, em muitos casos, a tartaruga-sem-cabeça também não tem patas, o que torna ainda mais difícil encontrá-la.

Bestiário (154): Hurminto

Papagaios e corvos reproduzem sons. Certos insetos e peixes conseguem imitar a aparência de animais maiores. Mas só o hurminto consegue copiar aromas. Suas glândulas conseguem expelir hormônios com o mesmo cheiro de suas presas, quando deseja atraí-las, ou o de grandes predadores, quando quer afastar os inimigos.

Em cativeiro, já puderam ser adestrados para cheirar como flores diversas, frutas maduras, livros velhos e o suor de um mentiroso.

Hurmintos só não conseguem imitar o cheiro de outro da sua espécie.

Bestiário (153): Preguiça Satori

Ao contrário das outras preguiças, esta espécie não apresenta as características de metabolismo lento, baixo percentual de massa muscular e membros adaptados para permanecer a maior parte do dia agarrados a uma árvore. A Preguiça Satori, de fato, poderia teoricamente correr tanto quanto um veado ou uma onça.

Apenas acha que não vale a pena.

Bestiário (152): Coala do Espaço

Foi a única criatura inteligente vinda do espaço sideral a visitar a Terra. Aqui chegando, descobriu a boa vida que levava por aqui o coala, tranquilamente mastigando seus eucaliptos na Austrália, e decidiu substituí-lo.

Foi uma operação discreta. As naves chegaram sem serem notadas, e se autodestruíram sem deixar vestígios. Os alienígenas se estabeleceram e rapidamente eliminaram os coalas verdadeiros, ocupando seus lugares.

Ninguém jamais suspeitou.