Brasyl

Ian McDonald, Brasyl O escritor britânico Ian McDonald é um dos autores indicados à edição de 2008 do Prêmio Hugo, um dos mais importantes do mundo no gênero Ficção Científica/Fantasia. Ele concorre pelo livro “Brasyl”, um romance que entrelaça as histórias de três personagens no Brasil: um jesuíta no século XVIII, um empresário no ano de 2030 e uma produtora de TV em 2006.

Esta é uma tradução das primeiras páginas, disponíveis para leitura (em inglês) no site da Amazon. Por ela dá para ver que o autor aprendeu algumas coisas sobre o Brasil (especificamente sobre o Rio de Janeiro e os cariocas), mas ainda tropeça no Português.

Começa a contagem regressiva para a patrulha do “estão difamando nosso país”.

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Nossa Senhora da Qualidade da Produção (1)

Marcelina viu-os pegando o carro na Rua Sacopã. Era um Mercedes Classe C, um carro de traficante, tunado pela equipe do Pimp My Ride: Brasil (2) com calotas, traseira e luzes azuis que desciam até o quadro da suspensão. Os subwoofers eram do tamanho de malas. Os caras tinham feito um bom trabalho; parecia ter custado mais caro que os quatro mil reais (3) que Marcelina tinha pago no depósito da cidade.

Na primeira vez eles passaram pelo carro: três caras com calção, camiseta e boné de jogador de basquete. A primeira vez foi para olhar. Na segunda, para dar uma checada, fingiram estar interessados nas rodas, no terço e no escudo do Flamengo pendurados no retrovisor (um toque delicado), e aquilo era aparelho de CD ou entrada para MP3?

Vamos, meus filhos, vocês sabem que querem, pensava Marcelina no banco de trás do carro de perseguição, numa rua particular a duzentos metros dali. Está aí pra vocês, fui eu quem fiz, como vocês podem resistir?

A terceira vez foi pra levar. Eles esperaram dez minutos por segurança, dez minutos em que Marcelina se debruçava sobre o monitor, temendo, será que eles vão voltar, será que vem outra pessoa antes? Não, lá vinha eles no seu balançado, descendo o morro, rapazes grandes e bonitos, pernas compridas e soltas, e eles eram bons, muito bons. Ela mal os viu forçar a porta, mas sem dúvida o ar em seus rostos era de surpresa quando ela se abriu. Sim, estava destrancada. E sim, as chaves estavam lá. E eles estavam do lado de dentro, portas fechadas, motor ligado, luzes acesas.

“Começou!”, Marcelina gritou para o seu motorista, e imediatamente foi arremessada para trás, quando a van arrancou. Jesus e Maria, eles foram com tudo, o motor roncando na entrada da Avenida Epitácio Pessoa. “Todos os carros, todos os carros!”, Marcelina gritava no comunicador enquanto a Cherokee driblava o trânsito. “Temos um roubo, temos um roubo! Seguindo para o norte, para o Túnel Rebouças”. Ela cutucou o ombro do motorista, que já tinha confessado ser um fã de corridas. “Não perca de vista, mas não assuste o cara”. O monitor estava apagado. Ela bateu no aparelho. “O que houve com esse troço?”. A tela se encheu de imagens, vindas das microcâmeras da Mercedes. “Preciso de codificação em tempo real”. Não deixe que eles encontrem as câmeras, Marcelina pediu a Nossa Senhora da Qualidade de Produção (4), sua santa padroeira. Três caras, um de roupa preta e dourada dirigindo, outro vestindo Nike e um sem camisa e com um nó de pelos encaracolados entre os mamilos. As sirenes soaram, passando por ali; Marcelina tirou os olhos da tela e viu um carro de polícia atravessar as quatro pistas da lagoa e acelerar. “Me dá o áudio”. João-Batista, o técnico de som, balançou a cabeça como um índio, um gesto que seus headphones tornavam mais caricatural. Ele mexeu no mixer pendurado em seu pescoço e tentou fazer um sinal de positivo. Marcelina tinha ensaiado — ensaiado e ensaiado e ensaiado — e agora não conseguia se lembrar de uma palavra sequer. João-Batista olhou para ela: Vá em frente, é o seu programa.”Gostaram do carro? Gostaram?” Ela esganiçava como uma apresentadora de programa de auditório. João-Batista deu-lhe um olhar de pena. Pelas câmeras do carro, os rapazes davam a impressão de que uma bomba tinha acabado de explodir bem debaixo das luzes do seu carrão. Não larguem. Nossa, nossa, nossa, não larguem. “É seu! É o seu grande prêmio. Está tudo bem, vocês estão num programa de TV!””É uma merda de uma Mercedes velha com uns acessórios baratos pra enfeitar”, murmurou Souza, o motorista. “E eles sabem disso”.Marcelina cortou a comunicação.

“Você é o diretor aqui? É? É? Para o piloto, vai servir”.

A van deu uma guinada repentina, jogando Marcelina para o outro lado do banco de trás. Os pneus cantaram. Deus, ela adorava aquilo.

“Eles decidiram não pegar o túnel. Em vez disso estão seguindo pelo Jardim Botânico” (5).

Marcelina checou a navegação por satélite. Os carros da polícia eram bandeiras laranjas, sua cuidadosa formação em torno da Zona Sul do Rio se quebrando e se reordenando enquanto o carro perseguido se recusava a cair na armadilha. Essa é a jogada, Marcelina disse para si mesma. É isso que faz sucesso na TV.

De volta para o microfone.

“Vocês estão no Fuga. É um novo reality show do Canal Quatro (6), estrelando vocês! É, vocês vão ser grandes astros!” Com isso eles começaram a olhar uns para os outros. Cultura da atenção. Nunca falha para seduzir os vaidosos cariocas. São os melhores participantes de reality shows do mundo, os cariocas. “O carro é de vocês, absolutamente, garantido, legal. Vocês só precisam escapar da polícia durante meia hora, e nós já dissemos a eles que vocês estão aí. Querem jogar?” Esse poderia ser o bordão: Fuga: quer jogar?

O garoto de roupa da Nike estava se mexendo.

“Preciso do áudio deles”, gritou Marcelina. João-Batista girou outra chave. Um baile (7) funk sacudiu a van.

“Quer dizer, por essa merda aqui?” gritou o garoto de Nike, por cima do pancadão. Souza virou outra esquina em velocidade de rasgar os pneus. As bandeiras laranjas da polícia estavam se juntando, cortando rua por rua qualquer rota de fuga possível. Pela primeira vez, Marcelina achou que o programa daria certo. Ela desligou o microfone. “Para onde estamos indo?”

“Pode ser pra Rocinha ou pra Tijuca, pela Estrada Dona Castorina”. A van deslizou por outro cruzamento, assustando malabaristas, que deixaram suas bolinhas caírem em cascata, e lavadores de pára-brisas, com seus baldes e rodos. “Não, é Rocinha”. “Dá pra usar o material?” Marcelina perguntou a João-Batista. Ele balançou a cabeça. Ela nunca tinha trabalhado com um cara de som que não fosse um fdp lacônico, e isso incluía as mulheres.”Ei, ei, ei, dá pra baixar o som um pouquinho?”A batida do baile do DJ Furacão diminuiu até João-Batista fazer um sinal de positivo.”Qual é o seu nome?” Marcelina gritou para o da Nike.

“Você acha que eu vou falar, num carro roubado e com metade da Zona Sul atrás do meu rabo? É armação”.

“Eu tenho que te chamar de alguma coisa”, insistiu Marcelina.

“Bom, Canal Quatro, então me chama de Malhação, e esse aqui é o América” — o motorista tirou uma das mãos do volante e acenou — “e O Clone” (8). O de peito cabeludo fez biquinho na direção na minicâmera atrás do apoio de cabeça do banco da frente, numa clássica pose de astro da MTV.

“Isso vai ser igual o Ônibus 174?” (9) ele perguntou.

“Você quer terminar igual o Ônibus 174?” murmurou Souza. “Se eles tentarem entrar na Rocinha, isso vai fazer o Ônibus 174 parecer uma festa de Primeira Comunhão”.

“Vou virar celebridade então?” perguntou O Clone, ainda mandando beijos para a câmera.

“Você vai sair na Contigo. Eu conheço um pessoal de lá, dá pra arrumar.”

“Vou conhecer a Gisele Bündchen?”

“Vamos armar uma foto com a Gisele Bündchen, vocês três, e o carro. Os astros do Fuga e seus carros”.

“Eu gosto daquela Ana Beatriz Barros”, disse América.

“Escutou? Gisele Bündchen!” O Clone estava com a cabeça entre os bancos da frente, berrando no ouvido de Malhação.

“Cara, não vai ter Gisele Bündchen nem Ana Beatriz Barros”, disse Malhação. “Isso é televisão; eles falam qualquer coisa pra segurar a gente. Ei, Canal Quatro, e o que acontece se pegarem a gente? A gente não pediu pra entrar no programa”.

“Vocês pegaram o carro”.

“Vocês armaram pra gente pegar o carro. Deixaram a porta aberta e a chave dentro.”

“Ética é bom”, disse João-Batista. “Não tem muita ética nos reality shows”.

Sirenes para todo lado, chegando mais perto, sincronizando. Os carros da polícia passavam dos dois lados, um raio, um borrão de som e luzes piscando. Marcelina sentiu o coração na boca, aquele momento lindo em que tudo funciona, perfeito, automático, divino. Souza passou a marcha da van e acelerou, passando pelos tapumes de uma obra onde uma nova favela estava se erguendo.

“E não é pra Rocinha”, disse Souza, passando por um vagão-tanque. “O que mais tem pra lá? Vila Canoas, talvez. Eca.”

Marcelina tirou os olhos do monitor, em que já estava planejando a edição. Alguma coisa na voz de Souza. “Cara, você está me assustando”.”Eles deram um trezentos e sessenta no meio da estrada.””Cadê eles?””Vindo pra cima da gente.”

“Aí, Canal Quatro”. Malhação ria para a câmera do pára-sol. Ele tinha ótimos dentes, grandes e brancos. “Acho que tem uma falha nesse formato. Olha, não tem nenhuma motivação pra eu me arriscar a ir em cana por uma merda de Mercedes de segunda mão. Agora, se fosse alguma coisa com valor de revenda…”

A Mercedes veio deslizando pela pista do meio, deixando pedaços de acessórios por toda a estrada. Souza pisou no freio. A van parou a uma cuspida de distância da Mercedes. Malhação, América e O Clone já tinham saído, segurando as armas de lado, daquele jeito que ficou na moda depois de Cidade de Deus (10).

“Sai sai sai sai sai”. Marcelina e a equipe pularam para a rua, os carros passando batidos.

“Eu preciso da gravação. Sem ela eu fico sem programa, pelo menos deixa eu ficar com isso”.

América já estava no volante.

“Coisa boa”, ele declarou.

“Ok, pode levar”, Malhação disse, entregando a Marcelina o monitor e o LaCie de um terabyte.

“Aí, seu cabelo é tipo o da Gisele Bündchen” falou O Clone, do banco de trás. “Só que o dela é mais liso e ela é mais alta”.

O motor cantou, os pneus soltaram fumaça. América soltou o freio de mão, a van passou por Marcelina e queimou o asfalto na direção oeste. Segundos depois, os carros da polícia apareceram.

“Isso sim”, disse João-Batista, “é o que eu chamo de TV”.

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(1) No original, “Our Lady of Production Values”.
(2) No original, “Pimp My Ride: Brasileiro”.
(3) No original, “reis”.
(4) No original, “Nossa Senhora da Valiosa Produção”.
(5) No original, “Jardim Botânica”.
(6) Em português no original.
(7) Idem.
(8) No original, “Malhação, “América” e “O Clono”.
(9) No original, “Bus 174“.
(10) No original, “City of God“.

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