Arquivo do mês: abril 2017

Postais do Exílio (138): Paredão de Las Palmas

Sim, é o que você está pensando: no paredão eram fuzilados os inimigos do regime de Las Palmas.

Eram muitos, esses inimigos, e não diminuíam com as sucessivas execuções. Dia após dia algum líder político, sindicalista, poeta ou simplesmente alguém que havia por qualquer motivo desagradado a alguma autoridade era levado ao paredão. Chegou-se ao ponto de qualquer um na rua poder ser levado á toa, apenas porque ninguém ainda havia sido executado naquele dia.

Dia após dia, portanto, uma vida se acabava ali. Depois do fuzilamento, ficavam apenas as suas marcas no muro: os buracos dos tiros, mais as manchas de sangue, pólvora e merda.

Essas marcas aos poucos foram formando um desenho. No início não se distinguia muito bem o quê, mas aos poucos percebeu-se que era uma figura humana. Um dia, uma mancha vermelho-escura completou o que já não se podia negar. Era um retrato inconfundível do ditador.

Foi o toque final. Naquela mesma noite, um levante popular derrubou o regime.

Anúncios

Dramatis Personæ (207): Ada

Como guardiã do harém, era responsável por escolher qual dos esposos e concubinos da sultana a atenderia a cada noite.

No início, ainda perguntava o que ela desejava. Mas em pouco tempo aprendeu a interpretar os menores sinais que a soberana emitia ao longo do dia, e a escolher os amantes adequados às suas necessidades. Às vezes um bruto, outras um delicado, raramente um de fôlego muito longo, e para certas ocasiões havia aquele que passava a noite apenas massageando os pés. Aos sábados era comum mandar dois ou três juntos. Qualquer que fosse a escolha, era sempre complementada por instruções e recomendações detalhadas sobre o que fazer naquela noite específica.

Ada foi a maior amante que a sultana conheceu, sem jamais ter tocado o seu corpo.