Mitolorgias (2): Eurídice

– Olha pra mim, Orfeu. Olha. Você nunca olha pra mim, não é, Orfeu? Então pelo menos me escuta. Pior ainda. Você nunca me ouve, Orfeu. Você acha que todo mundo vai sempre parar tudo o que está fazendo para ouvir você, não é, Orfeu? E vão adormecer como Cérbero, vão se emocionar como Caronte, vão se comover como Hades. E você, Orfeu, quando foi a última vez que você parou para me ouvir, Orfeu? Você me perguntou se eu queria que você viesse aqui me buscar, Orfeu? Eu sei, tudo o que você fez foi muito lindo, e eu agradeço do fundo do coração, Orfeu. Mas a verdade é que eu nunca quis voltar, Orfeu. Desde que aquela víbora me picou eu sou livre. Eu não tenho o medo da morte que vocês na terra sentem, Orfeu. Eu não tenho mais preocupações. Eu sou feliz. Eu sou feliz sem você, Orfeu. Pronto, era isso que você não suportaria ouvir, não é, Orfeu? Que toda essa sua jornada heróica não foi para me salvar, mas sim porque você não queria abrir mão de mim. Mas você vai ter que viver sem mim, Orfeu. Eu quero ficar, Orfeu. Orfeu, olha pra mim. Me escuta. Olha pra mim. Isso, Orfeu. Obrigado, Orfeu. Eu te amo, Orfeu. Adeus, Orfeu. Adeus. Adeus. Adeus.

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