Meninos, eu li (42)

Neil Gaiman claramente precisava resolver alguns problemas quando escreveu “O oceano no fim do caminho” (Intrínseca, 2013) – e nem estou falando das teorias conspiratórias sobre Cientologia. A fantasia do protagonista sem nome se transforma num pesadelo freudiano que de certa forma retoma temas já explorados antes (em “Coraline” e “Os filhos de Anansi”, principalmente) mas que dessa vez são explicitados num nível que chega a ser quase grosseiro (no sentido de que mereciam um tratamento ficcional mais sofisticado, de que ele certamente seria capaz). O desfecho é um pouco precipitado, como se houvesse uma pressa de se livrar do conflito o mais rápido possível. Mas Gaiman continua sendo muito bom na arte de transitar no limite entre realidade e fantasia, e isso compensa os defeitos.

A primeira reação à leitura do “Caderno de sonhos” Dantes, 2000) é de uma certa irritação, uma sensação de que Ana Miranda publicou um caça-níqueis, uma mera descrição de sonhos, sem mérito autoral algum. Mas basta um pouco mais de atenção para perceber, por trás da aparente intervenção mínima da autora no fluxo de imagens do seu inconsciente, uma proposta literária bem interessante, e corajosa em dois níveis. O primeiro, justamente o de se disfarçar de não-literatura. O segundo, o de expor traumas, fantasias e delírios, abrindo uma janela para a alma.

METAMORFOSES Não vou negar os méritos de Vera Lúcia Leitão Magyar de se aventurar a traduzir a íntegra das “Metamorfoses” (Madras, 2003). O esforço em si é digno de elogios, mas o resultado deixa a desejar. Tem até um “círculo redondo” que duvido muito que esteja no original. Além disso, a edição não traz sequer um breve prefácio que ajude a guiar o leitor pelas diversas histórias que se encadeiam e entrecruzam ao longo dos cantos de Ovídio. Entre um tropeço e outro, porém, sobra a viagem através das inúmeras intervenções dos deuses, sempre transformando a vida dos mortais, levando à conclusão de que a vida em si é eterna mudança.

ZUMBIS1ZUMBIS2ZUMBIS3ZUMBIS4 A série “Zumbis Marvel” (Panini, 2013-2014) começa meio sem saber para onde vai. Robert Kirkman, Sean Phillips e June Chung parecem apenas estar se divertindo muito com o nonsense da premissa, e chutando todos os baldes que estejam ao seu alcance. A partir do segundo volume, com a entrada de Mark Millar e outros, a história fica não mais séria, que seria justamente o pior erro possível, porém mais imaginativa, explorando possibilidades que vão além da caricatura – por exemplo, com a entrada dos Filhos da Meia-Noite, compondo o tipo de conflito que se espera de um gibi da Marvel. As homenagens a capas clássicas da editora são um dos pontos fortes.

2 Respostas para “Meninos, eu li (42)

  1. Eu achei o Oceano fraco. Repetitivo. Eu lia e me espantava, meu deus, por quê? Quebrei um dos meus paradigmas mais queridos: se é Gaiman, é bom. Não. Não é um bom Gaiman. É raso, com perdão do trocadilho. Tem um gosto de café requentado. Talvez – quem sabe? – precisasse de mais alguns anos dormindo numa gaveta. Talvez não. Dá a impressão que o editor estava nos calcanhares dele, e ele deu ao mundo um livro com potencial – mas que precisava de muito, muito mais trabalho.

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