Meninos, eu li (41)

Excepcionalmente, vão num mesmo post as leituras de novembro e dezembro. E vamos ver se esse blog volta ao ritmo normal em 2014.

...Quando eu era criança, Marco Polo era um dos meus herois, talvez o primeiro personagem histórico que para mim era tão fantástico quanto os de ficção. Conhecer o Livro das Maravilhas era um desejo, mas teria sido uma grande frustração se na época eu tivesse lido essa edição do Clube do Livro (1989), “As viagens de Marco Polo”. Aos 10 anos, eu teria achado chatas as descrições repetitivas e sem a aventura que eu teria esperado. Adulto, valeu pela curiosidade de ver o mundo pelos olhos de um veneziano do século XIII, seus valores e o seu recorte da realidade que, de tão peculiar que parece hoje, relativiza a nossa experiência atual da realidade.

...A coleção Ponta de Lança, da Língua Geral, nunca me decepciona. “O melhor do inferno” (2011) é mais uma pérola no catálogo da editora. Christiane Tassis mostra muita habilidade narrativa no entrecruzamento dos discursos dos personagens (a começar pelo prólogo, na voz de um gato), na intersecção da literatura com outras formas de texto (vídeo, artes plásticas, web) e mais ainda ao apresentar esse diálogo como a verdadeira história por trás da história entre David, Isabel e Guadalupe. Mais um livro que me deixa querendo saber o que andaram botando na água dessas jovens escritoras.

...Difícil escolher o melhor de “Bolland Strips!” (Nemo, 2013). Tanto “A atriz e o bispo” quanto a saga de “Mr. Mamoulian” são histórias que desafiam o leitor, mergulhando num mundo onírico. Mamoulian acaba levando uma pequena vantagem pelos toques metalinguísticos e autocríticos. Mas, em todo o álbum, Brian Bolland mostra que é possível conciliar o trabalho numa linha de montagem de editora comercial com a produção de uma obra personalíssima, reveladora de influências variadas.

...A Xerazade tunisina pode ser menos prolixa que a sua congênere persa. Mas talvez seja mais eficiente, já que lhe bastaram os contos de “Cento e uma noites” (Hedra, 2002) para acalmar um rei ciumento. A coletânea de contos mantém o sabor das narrativas orais com suas fórmulas mnemônicas e suas estruturas concêntricas, contendo histórias dentro de histórias dentro de histórias. Como no seu melhor momento, o da disputa entre a mulher do rei e seus vizires sobre o destino do príncipe, toda mediada por fábulas que se digladiam.

...Anita Phillips foi uma das raras autoras a trocar o ensaio pela ficção e manter a qualidade. “The Virtues, the Vices and All the Passions” (Polygon, 1991), infelizmente seu único romance, é um quebra-cabeças que remete a Cortázar e, principalmente, Calvino: cada capítulo inicia com uma página da “Iconologie” de Boudard, representando uma das “virtudes, vícios e todas as paixões”, e que dá o tom do texto a seguir. Mas a Iconologia não é gratuita: é também o livro-dentro-do-livro, que Vira, a protagonista, está traduzindo. Phillips, assim como Vira, busca o tempo todo uma tradução, uma correspondência perfeita entre a imagem, o texto, a narrativa e a vida, apenas para revelar a impossibilidade dessa missão e a falta de qualquer sentido. (E sim, a capa é uma foto de Francesca Woodman).

...Eu vou puxar a brasa para a sardinha do amigo Silvio Essinger para dizer que ele foi um dos autores que escolheram o caminho certo em “Se7e: Anões” (Ímã, 2013). Dos oito contos, os melhores foram os que voaram para mais longe do conto de Branca de Neve, e utilizaram os personagens em contextos variados como o Soneca de ficção científica ou, no limite, o Feliz conquistador. Outros autores da coletânea optaram pela sátira escrachada e deixaram a desejar.

...“Tu, só tu, puro amor” (USP/Brasiliana, 2010) é uma raridade. Não apenas o volume, reprodução em fac-símile do exemplar nº 22 autografado pelo autor e dedicado a Joaquim Nabuco, mas o texto em si: uma comédia em que Machado de Assis presta sua homenagem a Camões e que soa até pós-moderno na sua transformação de autores clássicos em personagens de ficção. O poeta-personagem antecipa e justifica, nas suas aventuras românticas, o poeta real que viria a ser depois do exílio.

...Ana Rüsche é poeta do tipo que gosta de reinventar palavras (como se existisse outro tipo). “Sarabanda” (Patuá, 2013), por exemplo, não é uma sarabanda, é outra sarabanda: como nota Paulo Ferraz na carta-posfácio, tem um “samba” escondido ali no meio, fingindo que não é com ele. Boa parte dos poemas desse livro é assim: escondida no meio dos versos tem aquela palavra-tropeço, que depois da página já virada ecoa no fundo do cérebro e volta pra rir do sentido primeiro, mostrar sentidos segundos, provocar intenções terceiras.

...“Ícones dos Quadrinhos” (Nywgraf, 2013) foi o melhor projeto que já apoiei no Catarse, pelo menos na relação custo/benefício. Saiu uma pechincha esse álbum com 100 versões renovadas de personagens clássicos. Algumas, é claro, não tão boas, até mesmo preguiçosas. Mas os pontos altos compensam: o Sandman de José Aguiar, o Tio Patinhas de Danilo Beyruth, o Lobo Solitário de Rafael Grampá, a Morte de Roger Cruz. O texto é uma boa introdução para quem não conhece os personagens, apesar de depois de algum tempo ficar repetitivo (e desnecessário) dizer que Superman ou Mickey fizeram sucesso em diversas outras mídias. Outro problema, que a Alessandra apontou: de 100 personagens, apenas 12 são femininos. E, mais grave ainda, entre 101 artistas, só três são mulheres.

...Ler “Marvels” (Panini/Salvat, 2013) hoje pela primeira vez ainda é impactante. Mesmo que o estilo mostrado por Alex Ross tenha mais tarde se aprimorado em “Reino do Amanhã”, e que o próprio Kurt Busiek tenha desenvolvido melhor alguns dos temas ali presentes em “Astro City”, em que gozava de mais liberdade criativa. Na verdade, talvez a grande realização da dupla tenha sido justamente criar uma história tão forte apesar das limitações impostas pelo desafio de recontar aventuras clássicas dos personagens da Marvel e ainda amarrá-las num todo coerente.

...“O Inescrito” é, para mim, a melhor série de quadrinhos sendo publicada hoje no Brasil. E o volume 4, “Leviatã” (Panini, 2013) é o melhor de todos até agora. Mike Carey e Peter Gross levam Tom Taylor a bordo do Pequod e de lá para o ventre da baleia, onde ele se confronta com a força do arquétipo. Jonas, Pinóquio, Sinbad, Morus e Münchausen entrelaçam suas histórias, aprofundando tanto no protagonista quando no leitor a consciência do monomito.

...“Sabor Brasilis” (Zarabatana, 2013) justificou a expectativa criada pelas boas resenhas publicadas na época do lançamento. Hector Lima, Pablo Casado, Felipe Cunha e George Schall conseguem misturar a trama da novela Sabor Brasilis com as intrigas envolvendo a equipe de roteiristas, salpicando referências a alguns sucessos da TV brasileira. A narrativa é ágil e econômica, usando bem cada detalhe para reforçar os elemtnos da trama e dos personagens. Um exemplo do bom quadrinho independente feito hoje no Brasil.


Resumão de 2013: 54 livros e 27 quadrinhos (respectivamente 4 e 6 a menos que em 2012).

Os melhores: “The book of fantasy” (Borges/Casares/Ocampo), “As crônicas marcianas” (Bradbury), “Old Possum’s Book of Practical Cats” (Elliot), “O Mestre e Margarida” (Bulgakov), “A jangada de pedra” (Saramago), “Grande Sertão: Veredas” (Rosa), “Suíte Dama da Noite” (Sawitzki), “Solaris” (Lem), “A história de O” (Réage), “Eros e Psiquê” (Apuleio), “Fetiche: moda, sexo & poder” (Steele), “As flores do mal” (Baudelaire), “Poema sujo” (Gullar), “Como água para chocolate” (Esquivel), “Backlash” (Faludi), “Luka e o fogo da vida” (Rushdie), “Cento e uma noites” (Anônimo), “Estórias gerais” (Srbek/Colin), “As Cobras – antologia definitiva” (Verissimo), “O Inescrito” – volumes 2, 3 e 4 (Carey/Gross).

As ótimas surpresas: “Paisagem com dromedário” (Saavedra), “A verdadeira história do alfabeto” (Jaffe), “A defense of masochism” e “The Virtues, the Vices and All the Passions” (Phillips), “O melhor do inferno” (Tassis), “Sarabanda” (Rüsche), “Sabor Brasilis” (Lima/Casado/Cunha/Schall).

Os piores: “Pequeno Irmão” (Doctorow) foi o único realmente ruim. Outros foram apenas fracos, irregulares, ou ficaram aquém da expectativa: “Uma aula de matar” (Callado), “Gargantua” (Rabelais), “Sexo” (Sant’anna), “Máquina de pinball” (Averbuck), “Se7e: Anões” (Vários), “Simon’s Cat” (Tofield), “The last knight” (Eisner), “Elektra vive” (Miller), “Demolidor Noir” (Irvine/Coker/Freedman), “Superman – O que aconteceu com o Homem de Aço” (Moore).

Metas para 2014: Pelo menos voltar aos números de 2012. Diversificar a dieta, reforçando as leituras de africanos e asiáticos.

Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s