Meninos, eu li (40)

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Continuação do maravilhoso “Haroun e o mar de histórias”, “Luka e o fogo da vida” (Cia das Letras, 2010) não chega a ser tão arrebatador quanto o primeiro. Em compensação, é mais ousado na derrubada de barreiras estilísticas, já anunciada na primeira página, quando aparecem um urso chamado Cão e um cão chamado Urso. Ali já fica claro que as coisas não ficam presas a seus nomes. É assim que Salman Rushdie escreve ao mesmo tempo uma aventura fantástica, um romance de formação e um jogo. Pode não ser o único autor a fazer isso, e nem o primeiro, mas fora das fronteiras da literatura “de gênero”, foi quem melhor incorporou o universo dos videogames a um livro. O que já é uma grande conquista em si.
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Escrever é um ato de narcisismo, mas não precisa exagerar. “Máquina de pinball” (Conrad, 2002) é Clarah Averbuck tentando se inscrever como herdeira de uma tradição literária que vem de Fante e Bukowsky mas que raras vezes passa do “eu sou melhor que vocês pequenos-burgueses acomodados, porque levo uma vida intensa de sexo-drogas-rock’n’roll”. Quando passa, porém, é bom. É nas (infelizmente poucas) páginas em que sai da egotrip autocondescendente pra fazer literatura.

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“Backlash” (Rocco, 2001) é assustador. Não tem outro jeito de descrever. Cada capítulo descreve um contra-ataque brutal a (pequenas) conquistas feministas em diversos segmentos – do cinema à moda, do mercado de trabalho aos sistemas de saúde. O pulo do gato está na forma como Susan Faludi mostra que a reação conservadora não é uma guerra abstrata entre homens e mulheres, mas uma ação política, integrada ao rearranjo de forças que caracterizou os EUA dos anos Reagan. Portanto, uma disputa de poder, com raízes na estrutura econômica. Indispensável para qualquer jornalista que queira, em primeiro lugar, aprender como se faz uma grande reportagem, e, em segundo lugar, entender como as mentiras se propagam (e o papel da mídia nisso tudo).

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Noely Montes Moraes e os outros terapeutas junguianos que assinam “É Possível Amar Duas Pessoas ao Mesmo Tempo?” (Musa, 2010) fazem um ótimo trabalho dentro dos limites da psicologia analítica. Ou seja: constroem uma boa narrativa mitológica em torno da pergunta que motiva o livro (alerta de spoiler: a resposta é sim), mas que não se mostra muito sólida a ataques externos. O maior problema é que, por mais que avancem na desconstrução de códigos e limitações estabelecidos pela sociedade patriarcal (e isso é um ponto forte do livro), fica sempre a impressão de que estão escrevendo apenas sobre heterossexuais cisgêneros ocidentais, o que não seria grave se não estivessem tratando essa parcela como idêntica a toda a humanidade. Faltou à própria equipe aquilo que é cobrado da sociedade: uma integração maior entre aspectos ditos masculinos e femininos, sem amarrar características psicológicas a determinado gênero (ou sexo). O outro problema é que toda vez que o texto sugeria entrar em contato com a deusa eu pensava em E.L. James.

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A grande vantagem de “As Cobras – Antologia definitiva” (Objetiva, 2010) é o excelente trabalho de seleção. Ao contrário de outras edições, esta mostrou uma preocupação nítida de trazer para o leitor contemporâneo apenas aquilo que se manteve de fato relevante nas tiras de Luis Fernando Veríssimo, deixando de fora muita coisa que era dependente demais do contexto e que perderia a graça hoje. Não é esse o caso, definitivamente, das participações de Dudu, o Alarmista, e das lesmas Flecha e Shirlei, que me deixaram rindo alto.

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O mais interessante de “Mandrake, o mágico – O mundo do espelho e outras histórias” (Pixel, 2013) é reunir uma gama variada de aventuras, todas assinadas por Lee Falk e Phil Davis. Especialmente em “O Colégio de Magia”, temos Mandrake fazendo o que sabe fazer melhor – criar ilusões com seus gestos hipnóticos – mas ele também recorre a outros expedientes (em “O Chefe”), é uma vítima inerte (na história qe dá título à coletânea) ou simplesmente ouve uma história ser contada, sem qualquer participação sua (“O Rei”). Só não disfarça o reacionarismo da série, com suas posturas explicitamente racistas e sexistas.

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A coleção Graphic MSP tinha começado muito bem com “Magnetar” e “Laços”, mas caiu de qualidade em “Chico Bento – Pavor Espaciar” (Panini, 2013). A ideia de fazer Chico e Zé Lelé serem capturados por alienígenas foi boa, mas Gustavo Duarte (ao contrário de Danilo Beyruth e dos irmãos Cafaggi) não conseguiu imprimir um estilo pessoal aos personagens. O traço é até interessante, mas a história poderia ter sido resumida e publicada em qualquer gibi de linha. Não justificou a edição. Agora é torcer para que o álbum do Piteco recupere o padrão.

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