Meninos, eu li (39)

A_DEFENSE_OF_MASOCHISM Há muito tempo um livro não me surpreendia tão agradavelmente quanto “A defense of masochism”. Num mundo em que qualquer texto de não-ficção leva o rótulo abrangente de “ensaio”, Anita Phillips fez just ao título de ensaísta stricto senso, na melhor tradição do patrono Montaigne: uma abordagem ousada aliada a um texto primoroso. A ousadia já começa na contestação do significado que a autora aplica a “masoquismo”, fugindo do diagnóstico psiquiátrico (de Krafft-Ebbing a Freud) que originou a palavra e de suas associações imediatas com dor, e propondo uma definição em que o cerne do fenômeno está nas fantasias altamente elaboradas e roteirizadas. Visto desta forma, o masoquismo deixa de ser um pólo oposto do sadismo e se revela como um elemento essencial da sexualidade humana, e, numa visão ainda mais abrangente, de todo processo criativo. Toda fantasia é, em algum grau, masoquista. Depois de estabelecer esta premissa, a autora analisa como o masoquismo se manifesta na arte, nas políticas de corpo e gênero, na formação da psique. Arremata com uma comparação entre a fantasia masoquista e a ascese mística.

COMO_GUA_PARA_CHOCOLATE Sinto uma certa inveja de quem leu “Como água para chocolate” antes de ter visto o filme, e se encantou em primeira mão com a fantasia de Laura Esquivel. O impacto logo nas primeiras páginas, com o choro de Tita ao nascer inundando a casa, e os quilos de sal recolhidos quando as lágrimas secam. mas o livro traz algo a mais, e não são apenas as (muitas) receitas. Principalmente, é a relação que a autora estabelece entre o texto e a vida. O que torna mágica a existência de Tita é a sua capacidade de criar. Mas também o que faz dela criadora é a necessidade de reagir ao drama da sua vida. Tita começa presa a esse destino, tanto quanto está ao de filha mais nova na tradição da família, mas consegue tomar conta dele, e faz isso como criadora.

POEMA_SUJO Na primeira vez que tive o “Poema Sujo” nas mãos, eu era tão criança que nem sabia o que era “cu” e porque era feio ler aquilo, ainda mais em voz alta, na sala. Muito menos podia entender o resto. Depois veio a adaptação do Milton Nascimento para “Bela, bela”, e a informação do que tinha sido o Poema e do que ele tinha representado para a cultura brasileira, e tal. Mas só agora fui ler – em voz baixa – e de fato entender do que se tratava. É uma daquelas obras que trazem a marca do momento histórico muito nítida e que mesmo assim permanecem atuais. Não porque o Maranhão dos Sarney seja o mesmo da infância de Ferreira Gullar (embora certos aspectos sociais sejam ainda muito relevantes), mas porque o poeta exilado no espaço está também exilado no tempo, o que o deixa perdido diante da cidade que se move, do rio que se move, do mundo que se move. Nesse sentido, a perplexidade do Poema Sujo é permanente.
Não, não ouvi o CD que acompanha o livro (José Olympio, 2006) com o Gullar declamando o texto.

AS_FLORES_DO_MAL Ler “As flores do mal” (Nova Fronteira, 1985, tradução de Ivan Junqueira) exige uma certa preparação, que começa a se estabelecer no “Convite à viagem”. É preciso querer acreditar no país onde tudo é ordem, beleza, luxo, calma e volúpia. Transposto esse limiar, Baudelaire cumpre o que promete. Tudo é beleza, porque só a beleza pode nos salvar de um mundo por natureza feio e cruel. A beleza e o amor, porque, mais até do que nas preces satanistas, é nos poemas eróticos (proibidos na primeira edição) que o poeta atinge mais claramente o seu objetivo.

A_VERDADEIRA_HISTORIA_DO_ALFABETO “A verdadeira história do alfabeto” (Companhia das Letras, 2012) é daqueles livros que despertam amor e ódio ao mesmo tempo. Amor porque é deslumbrante. Ódio porque eu queria ter escrito cada página dali. Alguns dos 26 mitos de origem são simplesmente sublimes, porque cumprem aquela promessa da ficção de criar um mundo. No caso, um mundo em que letras são inventadas conforme a necessidade de expressar coisas com elas, e onde portanto abundam letras, palavras e histórias que precisam ainda ser trazidas do nada para a realidade. Talvez Noemi Jaffe tenha criado este mundo em que vivemos. Eu não duvidaria.

WOLINSKI “Wolinski” (L&PM, 1987) perdeu um pouco da relevância com o tempo. Pelo menos nessa coletânea, reunindo quadrinhos publicados entre os anos 60 e os 80, o que se vê é uma crítica social e de costumes datada, que provavelmente fazia muito sentido na França daquele período mas que hoje perde boa parte da graça. Algumas histórias sobre maio de 68 e a repressão policial ainda encontram algum eco, por exemplo, nos protestos do Brasil de 2013, mas isso é mais uma coincidência do que uma virtude do autor. Vale mais para conhecer alguém que foi uma influência tão importante sobre Laerte e vários outros quadrinhistas brasileiros.

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