Meninos, eu li (38)

FETICHE Existem dois pontos altamente positivos em “Fetiche: moda, sexo & poder” (Rocco, 1997). O primeiro é quando Valerie Steele recupera os diversos usos da palavra “fetiche”, desde o religioso-antropológico, passando por Marx e Freud, e consegue relacioná-los todos com o seu objeto de estudo, mantendo uma saudável postura crítica. Infelizmente, essa postura não se mantém quando a autora aceita sem exigir maior rigor a afirmação genérica de que homens são mais visuais e fetichistas que mulheres, e menos ainda quando adota apressadamente as explicações da psicologia evolutiva. O outro elogio, é claro, vai para o ótimo trabalho de inventário da moda fetichista e sua evolução. Ficou faltando ir mais fundo na relação entre sexo, moda e poder prometida no subtítulo.

EROS_E_PSIQUE A tradução de Ferreira Gullar renova o frescor da história de “Eros e Psiquê” (FTD, 2009), séculos depois de Lúcio Apuleio escrever as “Metamorfoses”. A jornada de Psiquê parece familiar não por ter sido recontada das mais diversas formas, e sim porque todos nós passamos pelos mesmos caminhos. Análises filosóficas e psicológicas à parte, como história de amor. Como a história arquetipal de amor, com seus estágios de encanto, de provação, de dúvida e de júbilo. Continua sendo preciso buscar o reencontro com Eros a todo custo, mesmo depois de magoá-lo.

HISTORIA_DE_O“A história de O” (Brasiliense, 1985) é provavelmente o maior romance erótico já escrito. O melhor que eu já li, pelo menos, e um daqueles livros que você fica sem entender por que demorou tanto tempo para ler. Isso porque é excelente nas duas coisas: um romance marcante (sem trocadilhos) pela construção e desenvolvimento dos personagens e ao msmo tempo embalado num texto erótico que provoca da primeira à última página. O fim aberto, na verdade menos que uma sugestão de desfecho, pode parecer frustrante mas acaba sendo a melhor saída.

SEXO O fato de André Sant’anna (7Letras, 1999) ser publicitário explica muita coisa em “Sexo”. Principalmente a opção por um romance em que os personagens não são personagens: são clichês, ou na melhor das hipóteses perfis demográficos e de consumo ambulantes. É uma opção consciente, ressaltada pelo tratamento anônimo dado a todos (e pelo uso de dois deles como peças intercambiáveis), mas nem por isso menos incômoda. Especialmente quando reflete estereótipos classistas e racistas: por exemplo, para o autor todos os negros fedem em seu estado natural, ao contrário dos brancos. A sensação no fim é de se submeter a um bombardeio de anúncios não de sabonete nem de creme dental, mas de, vejam só, sexo. Que Sant’anna parece considerar algo geralmente melancólico e sem sentido.

TURMA_DA_MONICA__LACOS Eu achava o trabalho do Vítor Cafaggi (especialmente em “Valente”) meio bobo, sentimental demais. Da Lu cafaggi não tinha visto quase nada, e o pouco que vi não tinha me interessado. Felizmente dei uma chance a “Turma da Mônica: Laços” (Panini, 2013) depois de ver algumas boas recomendações. A dupla acerta no tom, no ritmo e nas referências, criando uma história que poderia até ser a primeira de Mônica, Cebolinha, Cascão e Magali. O flashback com Cebolinha ganhando o Floquinho filhote é covardia.

O_FANTASMA “Piratas do Céu” (Pixel, 2013) é basicamente uma curiosidade histórica. Tudo bem, Lee Falk sabia tudo de aventura serializada e Ray Moore foi um bom parceiro, mas as aventuras do Fantasma, lidas hoje, são de uma ingenuidade risível. Claro que isso reforça ainda mais o seu valor como documento de época. Afinal, mostra o que é um mundo em que os leitores conseguiam acreditar num herói branco reverenciado pelas tribos de selvagens, e que com apenas um beijo transformava vilãs crueis em mocinhas arrependidas e apaixonadas.

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