Era uma vez (7): Picolina

(Do baú. Escrito em 17 de junho de 2002, no extinto SATVRNALIA. O certo seria reescrever e mudar um monte de coisas. Não. O certo é publicar de novo do jeito que está.)

Era uma vez uma sopradora de vidro. De sua oficina, modelados com graça e habilidade, saíam esculturas de peixes, aves, flores e todas as outras formas imagináveis, brilhando em reflexos de mil cores à luz do sol. Sua arte era inigualável. Não só porque Piccolina (assim era chamada) era dotada de um talento natural, mas principalmente porque amava o que fazia. Sim, amava suas criaturas de vidro mais do que qualquer outra coisa.

Bem, qualquer outra coisa pode ser exagero. Porém sem dúvida mais do que os homens. A estes Piccolina evitava. E, quando lhe perguntavam o motivo, ela sempre os comparava com as suas obras. “Se os homens fossem transparentes como o vidro”, dizia, “eu os admiraria. Mas são opacos, e escondem o que lhes vai no íntimo”.

Um dia expôs ese pensamento a uma bruxa que constantemente a visitava para encomendar bolas de cristal – pois ninguém as fazia com mais perfeição. Depois de ouvir com atenção, ao mesmo tempo que avaliava cuidadosamente as últimas peças que Piccolina havia produzido, a bruxa lhe sugeriu:

— E porque não modela um homem de vidro?

A sopradora de vidro ficou com a pergunta na cabeça. Durante dias e dias pensou no assunto, até que resolveu aceitar a sugestão da bruxa. E, com um cuidado que nunca antes dedicara a trabalho algum, começou a fazer um homem de vidro. Procurou a perfeição em cada detalhe, e tanto se esmerou que ao vê-lo pronto chegou a espantar-se de sua beleza.

Assim foi que Piccolina, como tantas vezes acontece com artistas, apaixonou-se pela sua obra.

Quando a bruxa voltou a procurá-la, dias depois, encontrou-a embevecida na contemplação do homem de vidro — de suas formas, de seus brilhos, da maneira como ele refletia o seu olhar.

— Você caprichou, menina! — disse.

Mas Piccolina não estava interessada em elogios. Pediu, implorou à bruxa que desse vida ao homem de vidro.

— Isso não vai ser fácil. Tem certeza de que quer mesmo? — perguntou, enquanto pitava seu cachimbo.

— Sim, sim! Diga o que devo fazer!

Ofereceu-lhe então o cachimbo.

— Fume, mas não trague. Beije a boca do moço bonito, soltando a fumaça. Quando você fizer isso, ele vai se tornar translúcido. Eu sinto muito, mas é a única forma. Os homens não podem ser transparentes. Não completamente. Você pode enxergar algumas coisas, mas não tudo.

Piccolina ficou ligeiramente desapontada. Mesmo assim, aspirou a fumaça e aproximou sua boca da estátua de vidro. Beijou-a, deixando sair a fumaça. “Só um pouquinho”, desejou, “só um pouquinho transparente”.

E foi assim que a fumaça mágica penetrou na estátua de vidro; e misturou-se aos seus brilhos e reflexos, e lhe deu novas cores, e a tornou translúcida. E lhe deu vida.

A sopradora de vidro ficou maravilhada. Mas a bruxa, tomando de volta o cachimbo e dirigindo um olhar de aprovação ao homem que sua amiga criara, fez uma última advertência antes de partir:

— Agora, lembre-se: daqui a três dias, você deverá matá-lo com as próprias mãos. Se não fizer isso, morrerá. O que você lhe deu não é o bastante para dois.

A frase gelou o coração de Piccolina; mas apenas por um instante, pois em seguida o homem de vidro — parecendo ser de carne — a envolveu num abraço caloroso, fazendo-a esquecer de tudo, olhando-a como se fosse impossível ela estar ali. E durante três dias ela permaneceu assim, vivendo puramente da magia que encontrara. Estava apaixonada: não mais pela estátua de vidro, mas por um homem. Que parecia transparente em alguns momentos, e opaco em outros; como se a fumaça que lhe dera vida por vezes se tornasse mais densa e por outras deixasse à mostra o cristal de que ele fora feito.

Passados os três dias, porém, o aviso da bruxa voltou à sua mente. E Piccolina não soube o que fazer. Não se sentia no direito de matar; não se sentia capaz de viver se o fizesse. Queria viver, mas com o homem. Queria-o, fosse de que forma lhe pudesse ser concedida. Pediu então a ele que a abraçasse, e abraçada com ele adormeceu. Se fosse para morrer, pelo menos morreria num abraço quente e agradável.

No dia seguinte, acordou. Estava viva, portanto; foi a primeira coisa que lhe ocorreu; procurou o homem, e ele estava ao seu lado, e igualmente vivo. Mas feito agora de carne.

Ela havia lhe dado mais do que desejo. Dera-lhe confiança. E amor. Isso seria o bastante para dois.

(Para ela, é claro.)

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s