Meninos, eu li (37)

PORRAJoão Ximenes Braga é melhor cronista do que romancista. A prova disso é que “Porra” (Objetiva, 2003) vai muito bem na primeira parte, construída sobre monólogos dos personagens. Ainda que beirando os estereótipos (o pitboy homofóbico e enrustido, o arquiteto gay moderno e sofisticado, o vaporzinho arrependido e confuso), os três funcionam bem como câmeras que registram cenas do dia-a-dia e principalmente da noite-a-noite da Zona Sul carioca. Quando as três histórias se entrelaçam e forçam o autor a assumir um papel de narrador em terceira pessoa, a história cai um pouco, e se recupera justamente quando os monólogos interiores retomam o foco. Talvez esse desconforto do autor em ficar acima (e fora) dos personagens seja o que o livro tem de melhor, se visto como uma recusa proposital a ser um árbitro das vidas alheias.

LESBIA“Lésbia” (Mulheres, 1998) vale como curiosidade e como registro histórico de um romance protofeminista escrito no Brasil em 1890. Mas a personagem principal Arabela/Lésbia (que é heterossexual – eta título enganoso!), mesmo sendo capaz de empolgar pelas atitudes independentes (a partir do momento em que descobre ser capaz de viver fora da sombra dos homens), decepciona pela falta de profundidade. É talentosa, rica, bonita, amada, invejada, generosa — em resumo, uma heroína pra lá de idealizada. E ainda assim Maria Bormann/Délia não consegue encontrar uma solução satisfatória para o único conflito real com que a protagonista se defronta como mulher adulta. Pelo menos serve como metáfora do quanto o feminismo avançou em cento e poucos anos.

MIDIA_E_POLITICA_NA_AMERICA_LATINACarolina Matos atirou no que viu e acertou no que não viu. “Mídia e Política na América Latina” (Civilização Brasileira, 2013) é cheio de defeitos, a começar pela tradução a cargo da própria autora (o original foi escrito em inglês) e se estendendo pela falta de profundidade e de rigor teórico disfarçada de multidisciplinaridade. A falha mais grave, creio, é quando a autora não se envergonha de apresentar uma enquete entre estudantes de Jornalismo da UFRJ como representativa do público de TV do Brasil. Apesar de tudo, nas conclusões surge uma constatação de um país desiludido com as instituições e tomado pelo “cinismo político”, que se encaixa perfeitamente nos protestos de junho de 2013. Também acerta em cheio quando aponta a complexidade do problema da democratização da mídia no Brasil, e suas relações, por exemplo, com o baixo investimento em educação.

SOLARISEntre as múltiplas camadas de “Solaris” (Europa-América, 1983, traduzido da versão em inglês), a que parece mais atemporal é a da relação entre Kevin e Rheya. Mesmo que sua intenção primordial fosse outra, Stanislaw Lem escreveu não apenas um clássico da ficação científica mas também uma história de amor, talvez a maior da literatura mundial em todo o século XX. Quando Rheya se descobre um instrumento de tortura do homem que ama (o que é aliás recíproco), sofrendo por ter consciência do seu papel, ela sintetiza a condição de todo amante. Ainda que se discorde da sua decisão.

A_HISTORIA_VERDADEIRALogo na abertura de “A história verdadeira” (Ateliê, 2012), Luciano de Samóstata inventa o gênero fantástico. Não que antes não houvesse histórias fantasiosas. A diferença é que ele é o primeiro autor a assumir que tudo o que narra não só é mentira (que afinal é apenas outro nome para ficção), mas também algo impossível, que só pode existir na imaginação do escritor e do leitor. Estabelecida a premissa, a viagem do narrador até a Lua e Vênus se torna verossímil, na verossimilhança que pode existir dentro das regras da fantasia, assim como seus encontros com gigantes e monstros marinhos. As ilustrações de Alexandre Camanho, Carlos José Gama e Jaca atualizam a imaginação do século II para o leitor moderno.

SUPERMAN__O_QUE_ACONTECEU_AO_HOMEM_DE_ACO“Superman – O que aconteceu com o Homem de Aço” (Panini, 2013) deveria ter sido aquilo que sequer fingia ser: a última história em quadrinhos do Super-Homem. Alan Moore conseguiu amarrar direitinho os principais elementos (vilões, aliados, amigos) relacionados com o personagem e levá-lo a um fim digno, convincente. Das histórias-bônus, só “A Linha da Selva” vale a pena, pela participação do Monstro do Pântano. “Para o Homem que Tem Tudo” apenas engrossa o volume o suficiente para justificar a capa dura.

JOHN_CONSTANTINEN_HELLBLAZER“A empatia é o inimigo” tinha deixado um fim aberto. Aliás, tinha terminado sem um fim. “A mácula vermelha” (Panini, 2013) completa a aventura de John Constantine em Glasgow de forma satisfatória. O roteiro de Denise Mina consegue manter a escalada de suspense do confronto de Constantine com entidades malignas amarradinha com um prosaico mas igualmente tenso jogo de futebol entre Portugal e Inglaterra pela Copa do Mundo de 2006. A virada de roteiro tem a dose de sarcasmo que se espera de um volume de Hellblazer.

HITGIRLMark Millar cumpre o que promete em “Hit Girl” (Panini, 2013), fazendo jus ao subtítulo “Prelúdio para Kick Ass 2”. Recupera os personagens do filme, mostrando o que aconteceu a Mindy Macready e Dave Lizewsky, e, depois de uma aventura com mais ação do que cérebro, deixa-os prontos para a continuação na tela. É moralista, muitas vezes reacionário, mas distrai.

THE_INNOCENTGlobalização é isso: um quadrinista israelense radicado nos Estados Unidos criando um mangá. Tudo bem que Avi Arad escreveu “The Innocent” (JBC, 2013) com a colaboração de Fujisaku Junichi e Ko Ya-Seong. Mas dá para ver a marca das suas décadas de Marvel Comics na história do justiceiro que volta da morte. A trama segue assim, meio detetive americano, meio sobrenatural coreano-japonês, e se resolve sem problemas mas também sem grandes brilhos.

VIZINHOSO traço propositalmente rústico de “Vizinhos” (Cachalote, 2013) chama a atenção para a técnica preciosa de Laerte, que consegue contar uma história de 32 páginas inteiramente sem palavras. Porém o resultado fica, da mesma forma que os desenhos, um pouco abaixo do que se esperava. O próprio autor já tinha feito coisas parecidas e bem melhores na antiga revista “Piratas do Tietê”. Mas é claro que até um Laerte mediano já é bem melhor que a maioria do que se encontra por aí.

(Publicado também no skoob)

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2 Respostas para “Meninos, eu li (37)

  1. Ola,

    Os comentarios a respeito do meu livro sao totalmente injustos, e mostram uma recusa de reconhecer um trabalho que foi feito na dificuldade, e que mesmo assim esta sendo apresentado para premios, inclusive de melhor livro sobre o Terceiro Mundo. Que faca melhor, sem dinheiro e oprimido pela inveja de seus pares contra alguem que sempre foi excelente profissional sempre e agora esta tendo um reconhecimento para la de tardio, enquanto muitos outros avancaram desde cedo fazendo muito menos e com todos os paparicos. O livro eh muito profundo sim senhor, e foi revisado por varias pessoas e esta sendo reconhecido por estudantes, pelo publico, por todos e adotado pelo mundo afora.

    • Carolina: não conhecia as condições em que você escreveu o livro, e considero seu esforço digno de todos os aplausos. O resultado, porém, nem tanto. Mantenho minhas críticas e os elogios (que você não quis ver). Realmente, não era caso para isso.

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