Meninos, eu li (36)

VASARELY A primeira vez que ouvi falar de Viktor Vasarely tinha sido nas aulas da Miriam Fonseca de Carvalho, na ECO. Na época eu fiquei embasbacado com os efeitos sensórios que ele obtinha manipulando formas e cores, mas foi só. “Vasarely 2” (Griffon, 1973), mesmo se apresentando como um livro para ser visto, e não lido, apresenta também alguns dos pressupostos teóricos por trás das obras que fazem dele, 40 anos depois, ainda um artista atual. Em especial, o uso da programação (na época, ainda muito longe das ferramentas tecnológicas de que dispomos hoje), mas com a ressalva de que o resultado dela depende do filtro humano para fazer sentido.

NEUROMANCER No prefácio à edição de aniversário de “Neuromancer” (Aleph, 2008), William Gibson pede desculpas por não ter previsto o futuro. Um mundo de ficção científica sem celulares onipresentes, para ele, parece ridículo visto hoje. Não é nisso, porém, que o livro envelheceu. Pelo contrário. Até mesmo a parede de telefones públicos tocando à medida que Case passa por eles continua funcionando muito bem, com a carga dramática intocada. O que marca “Neuromancer” como uma obra dos anos 80 é outra coisa, e é o que o tornou popular. É o estranhamento diante de uma ciborguização do corpo e da mente, que em si ainda é atual, mas que na época só podia ser vista de uma perspectiva individual (sim, eram os anos 80), enquanto a de hoje é principalmente coletiva.

GARGANTUA A maior dificuldade de “Gargantua” (Atena, 1957) nem é a falta de familiaridade com a cena política francesa do século XV, que me impediu de entender todas as referências. Isso uma edição mais caprichada, com notas explicativas, teria resolvido. Chato é que, especialmente nos primeiros capítulos, François Rabelais parece conhecer apenas duas formas de humor — o exagero numérico e a escatologia. A partir do capítulo em que começa a educação formal de Gargantua em Paris, o tom de sátira às instituições melhora um pouco. O que, de certa forma, trai um certo moralismo do autor: com todo o seu liberalismo, ao mudar significativamente o estilo ao longo do texto ele reforça a ideia de que o corpo é impuro e inferior, e a mente, pura e superior. E é assim que ele conduz até o único capítulo que justifica a permanência do livro como um clássico, que é a descrição utópica da Abadia de Telema.

UMA_AULA_DE_MATAR Ana Arruda Callado foi a melhor professora que eu tive na vida e eu não vou falar mal dela por nada nesse mundo. Isto posto, eu preciso lamentar o fato de não ser parte do público (mais jovem, creio) a que se dirige “Uma aula de matar” (Rocco, 2011). É divertido de se ler, e deve ter sido ainda mais divertido de se escrever: dá para imaginar a autora montando um mosaico de personagens e cenas a partir de pedaços da sua experiência jornalística, política e acadêmica, mais uma boa dose dos seus romances policiais preferidos. Duas coisas, porém, atrapalham um pouco: o didatismo em alguns trechos e a alternância entre a narrativa no presente e no passado, sem razão aparente.

SUITE_DAMA_DA_NOITE Não é exagero nenhum dizer que “Suíte Dama da Noite” (Record, 2008) está entre os melhores romances brasileiros deste século. Manoela Sawitzki parte de elementos simples — um casamento sem amor, uma relação extraconjugal — e usa a mitômana Júlia Capovilla para questionar sutilmente as possibilidades e os limites (tanto ontológicos quanto éticos) da própria ficção. Nos capítulos finais, flerta perigosamente com a solução de uma metáfora redentora fácil, mas sai pela tangente e arremata com uma profissão de fé no seu ofício. E ainda faz isso tudo com uma prosa fluida, encaixando duas ou três linhas memoráveis.

O_INESCRITO_3 A melhor coisa de “O retorno de um morto”, volume 3 de “O Inescrito” (Panini, 2013), não está nas aventuras de Tom/Tommy Taylor. É a personagem secundária Lizzie Hexam, que finalmente ganha algum relevo, antes mesmo de protagonizar a segunda parte da revista. No mais, Mike Carey e Peter Gross continuam o ótimo trabalho de construir uma história em cima de todo tipo de referência literária possível. O trecho no formato “escolha sua aventura” é um pouco longo demais (além de no fundo uma trapaça, pois quase sempre leva ao mesmo fim — mas não é isso que acontece em toda ficção?), porém não chega a incomodar.

(Publicado também no skoob)

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