Meninos, eu li (35)

COBRAS_E_PIERCINGS “Cobras e piercings” (Ediouro/Geração, 2007) poderia até ser descrito como “bom para um romance de estreia de uma autora que tinha menos de 20 anos quando o escreveu”, porém é mais do que isso. É um belo retrato de geração, além de uma jornada de autoconhecimento. O uso das modificações corporais de que fala o título como metáfora das mudanças na narradora Lui é meio óbvio: a língua bifurcada de Lui é uma cisão entre dois amantes, dois modos de vida, dois destinos possíveis. O que compensa essa obviedade é a intensidade com que Hitomi Kanehara mostra o quanto esse processo é doloroso, em descrições quase obscenas. É aí que a metáfora fácil se desdobra no processo de aprendizado da própria autora à procura por um modo de falar de si e dos seus.

GRANDE_SERTAO_VEREDAS Eu tinha medo de “Grande Sertão: Veredas” (Nova Fronteira, 27ª edição, 1994). Medo de abrir o livro, começar a ler e não passar da primeira linha, não conseguir decifrar a prosa de Guimarães Rosa. Nonada! Se o sertão (a terra, e do mesmo jeito a obra) é do tamanho do mundo, o conflito de Riobaldo Tartarana é do tamanho do homem, e por isso fala dentro de cada um. À medida que se aprende a entender a voz do jagunço, se percebe também o quanto ela é necessária para expressar as incertezas do personagem e suas conclusões inconclusivas. Assim é o sertão, a obra, o mundo: complexo e acima de tudo muito perigoso. Mas a maior dificuldade mesmo, vou admitir, foi não pensar em Diadorim com a cara da Bruna Lombardi.

SOB_MASOCH Flávio Braga fez literatura remix em “Sob Masoch” (Best Seller, 2010). Mesmo negando na introdução que estivesse utilizando qualquer coisa de “A Vênus das peles”, sua novela é, especialmente na primeira metade, uma repetição do clássico de Sacher-Masoch, quase página por página. A diferença é que, atualizando a linguagem para o século XXI, Braga torna mais explícitas as relações entre Severin/Gregor e Wanda. Da metade para o fim, o conceito de remix se amplia: o que era literatura erótica envereda pela aventura policial e pelo thriller psicológico, à medida que se afasta da história original. O recurso da mudança de narrador reforça essa estratégia, embora não tenha sido tão explorado quanto poderia.

AS_SETE_FACES_DO_DR_LAO Não, não é a Sessão da Tarde. “As sete faces do Dr. Lao” (Francisco Alves, 1979) não é aquela fábula com final feliz e moral da história da adaptação para o cinema. Charles G. Finney usa o circo do Dr. Lao e seu desfile de bizarrices e maravilhas para traçar um retrato pessimista da cidade de Abalone, microcosmo dos Estados Unidos sob a Grande Depressão. De certa forma, aliás, de toda a humanidade – desde a ancestral Woldercan até o último ser humano na Terra. O maior mérito é fugir da tentação do moralismo, sem contudo deixar de tomar partido.

A_JANGADA_DE_PEDRA Uma das coisas mais impressionantes em “A jangada de pedra” (Cia. das Letras, 1988) é ter sido escrito em 1986, e não na sequência da crise financeira de 2008. Quando Portugal e Espanha ficam à deriva da Europa e os jovens do continente vão às ruas gritar “nós também somos ibéricos”, o romance antecipa em vinte anos a falência dos PIGS e os protestos contra o desmonte do wellfare state. Mas o grande mérito é mesmo a forma como José Saramago imiscui o coletivo no individual, o pessoal no político, a História nas histórias, sem solução de continuidade, demonstrando como os dois são a mesma coisa ainda que diferentes, tanto quanto Portugal e Espanha são partes indissociáveis de uma Ibéria vagando pelo Atlântico.

ESTACAO_DAS_CHUVAS “Estação das chuvas” (Língua Geral, 2012) é, em primeiro lugar, uma aula sobre a História de Angola, mais precisamente do período que atravessa a descolonização, a guerra civil e a democratização. Sobre o pano de fundo da violência política e étnica, a obsessão do narrador em tentar reconstituir a figura da poeta Lídia do Carmo Ferreira espelha o esforço de José Eduardo Agualusa para criar o seu retrato de um país em reconstrução. A discussão sobre o que seria uma autêntica literatura angolana, tema fundamental na vida e obra de Lídia, fica sem resposta, mas com portas abertas.

O_MESTRE_E_MARGARIDA Existem pelo menos três romances em “O Mestre e Margarida” (Nosso Tempo, 1969). O primeiro é a história do “quinto procurador da Judeia, o cavaleiro Pôncio Pilatos”, escrita pelo Mestre. O segundo narra as aventuras de Satã e seus asseclas em Moscou, revirando a vida do mundinho literário-burocrático e encontrando a suprema bondade de Margarida. Já o terceiro, involuntário talvez, é a soma desses dois, transformada numa outra coisa distinta depois de passar pelos cortes dos censores soviéticos. Ao discutir a natureza do Mal e seu efeito sobre o ser humano, Mikhail Bulgakov acabou sendo vítima desse mesmo Mal e prova das suas hipóteses.

DEMOLIDOR_NOIR “Demolidor Noir” (Panini, 2012) não chega a ser ruim, mas é dispensável. Alexander Irvine, Tom Coker e Daniel Freedman acrescentam quase nada ao personagem Matt Murdock quando o situam na década de 1930. A mudança de profissão, de advogado para detetive, não faz diferença alguma. No fim o que fica é apenas uma história normal, que poderia estar em qualquer número de série. Muito pouco para uma edição especial.

AV_PAULISTA A técnica de Luiz Gê sempre foi o mais impressionante nos seus trabalhos. Tanto que ele é mais comentado pela sua influência sobre os outros quadrinhistas do que pelos seus próprios trabalhos. “Av. Paulista” (Quadrinhos na Cia., 2012), isso fica flagrante. É um trabalho admirável, mas que fica no vazio. A maior qualidade é a análise política sobre a história da avenida (e de São Paulo, e do Brasil), mas até isso se perde numa conclusão ingênua, em que inexplicavelmente o autor parece acreditar numa redenção pela tecnologia em si.

(Publicado também no skoob)

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