Meninos, eu li (34)

PEQUENO_IRMAOComo romancista, Cory Doctorow é um bom blogueiro. Metade do seu “Pequeno Irmão” (Record, 2011) é uma pregação panfletária sobre os males da vigilância governamental e a importância de preservar a privacidade, baseando-se quase sempre em informação despejada com a sutileza de um troll – num capítulo, uma professora resolve, do nada, dar uma aula sobre a história e as ideias dos yippies de San Francisco, convenientemente no momento em que o autor precisava dessa narrativa para contextualizar a ação. A outra metade mostra o heroi, Marcus/w1n5t0n/M1k3y, um adolescente branco heterossexual de classe média, praticamente um checklist de privilégios, vivendo uma fantasia de poder digna dos pulps mais simplórios, com a ajuda de uma galeria de personagens secundários estereotipados.

AS_CRONICAS_MARCIANASEu era criança quando li pela primeira vez, numa antologia de ficção científica, o conto-capítulo “Encontro Noturno”. Não entendi direito, mas fiquei com uma sensação de estranhamento que se repetiu agora, mais de 30 anos depois, lendo “As crônicas marcianas” (Francisco Alves, 1980) na íntegra. Ray Bradbury alterna humor, poesia, aventura e drama numa série de pequenas histórias interligadas, porém independentes, que ao fim são amarradas e transformadas num mosaico sobre a experiência humana.

CINEMA_E_MERCADOOs artigos reunidos por Alessandra Meleiro em “Cinema e Mercado” (Escrituras, 2010) acertam mais do que erram. Gonzaga de Luca, por exemplo, apresenta uma competente arqueologia das empresas exibidoras brasileiras, mas peca pela falta de documentação que deixa seu texto com jeito de testemunho oral. Antonio Leal e Tetê Mattos mapeiam bem os festivais de cinema, mas falham na hora de oferecer um mínimo de análise. Os textos mais inovadores, do ponto de vista de análise do mercado, são os de Arthur Autran e João da Matta. Além disso, a presença de dois artigos focalizados na economia digital valoriza o conjunto.

OLD_POSSUMS_BOOK_OF_PRACTICAL_CATSLer “Old Possum’s Book of Practical Cats” (Faber and Faber, 1985, desenhos de Edward Gorey) causa muitas emoções, mas sobretudo raiva. Raiva, é claro, de Andrew Lloyd Weber e daquele musical insuportavelmente tedioso em que ele transformou os poemas de T.S. Elliot. Desnecessário: os versos de Elliot já são musicais o suficiente. Seus gatos – Macvity, Mr. Mistoffelees, Jennyanydots – bailam de uma estrofe para outra, provocando risos, lágrimas ou uma piscada de olho de vez em quando. Assim como a “Arca de Noé” do Vinícius, esse é pra reler até decorar.

Y__O_ULTIMO_HOMEM“Rumo à extinção” (Opera Graphica, 2006), primeiro volume de “Y – O último homem”, é uma introdução competente às aventuras de Yorick. O protagonista, o único sobrevivente de um evento inexplicado que matou todos os mamíferos machos da Terra, tem justamente o nome do único personagem de “Hamlet” que só aparece em cena morto. Ora, um mundo em que Yorick está vivo e todos os outros (homens) estão mortos é um mundo fora do lugar. Tanto quanto o mundo que Brian K. Vaughan imagina, com as mulheres tendo que reconstruir tudo de que eram alijadas – política, finanças, governo, exércitos – e principalmente que decidir o que muda com isso.

A_LIGA_EXTRAORDINARIA__SECULO_1910Mesmo pulando o “Black Dossier”, deu para curtir e muito o volume “A Liga Extraordinária – Século: 1910” (Devir, 2010). Atrapalhou mais o desconhecimento de dois dos novos integrantes – Arthur Raffles e Thomas Carnacki. Mas nenhum dos dois importa muito: o que se destaca mesmo é o esperto triângulo amoroso formado por Mina, Allan e Orlando. Alan Moore mantém o tom dos volumes anteriores, buscando a cumplicidade com o leitor, deixando pistas que aos poucos se encaixam. Foi assim que eu, por exemplo, ao descobrir quem era de fato a filha do Capitão Nemo, não sabia se ficava furioso comigo mesmo por ter demorado tanto ou se simplesmente sorria pela sacada genial de Moore.

O_INESCRITO_VOL_02“O Informante” (Panini, 2013), segundo volume de “O Inescrito”, manteve o bom nível do primeiro. Mike Carey e Peter Gross continuam aproveitando muito bem o recurso de mostrar blogs, forums, Twitter e outras ferramentas online como parte da história, que assim incorpora as mudanças na forma como nos comunicamos (ou seja, como contamos histórias) e ao mesmo tempo reflete sobre as suas consequências na sociedade. Na segunda parte do encadernado, “Jud Süss”, as cores de Chris Chuckry e Jeanne McGee ajudam a pintar o monstro do Nazismo como resultado da deformação de uma história, uma proposta que praticamente obriga ao diálogo com a discussão anterior sobre as distorções da verdade no mundo contemporâneo.

(Publicado também no skoob)

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