Meninos, eu li (33)

No mês de março, só livros escritos por mulheres:

A_MAO_ESQUERDA_DA_ESCURIDAO Existem dois grandes incômodos na leitura de “A mão esquerda da escuridão” (Aleph, 2008). O primeiro é a visão de um mundo em que os valores ocidentais se impõem naturalmente como único caminho válido mesmo para as potências vagamente orientalizadas ou sociedades comunistas. O segundo é a afirmação do masculino como neutro, marcando o feminino como outro (e um outro quase sempre desvalorizado, apontado como falho) mesmo numa sociedade hermafrodita (e no entanto paradoxalmente heteronormativa) como a do planeta Gethen. Ursula K. LeGuin disse, na introdução escrita em 1976, que seu livro era sobre o presente, não sobre o futuro. Um presente frio como o inverno permanente de Gethen.

UMA_APRENDIZAGEM_OU_O_LIVRO_DOS_PRAZERES “Uma aprendizagem ou o livro dos prazeres” (Francisco Alves, 1990) é Clarice Lispector em plena forma. No recorte da vida de Lóri, a aprendizagem do título atravessa bem mais de cinquenta tons de autoconhecimento. Ainda que a sereia Lorelei e o ardiloso Ulisses (em papeis apenas aparentemente opostos aos da lenda) só resolvam ir para a cama explicitamente nas suas últimas páginas, o livro inteiro é erótico na medida em que os dois personagens constroem uma relação amorosa entre si e consigo mesmos.

PO_DE_PAREDE “Pó de parede” (Não Editora, 2008) é um bom livro de estreia. O problema é que Carol Bensimon parece se envergonhar do que faz (e faz muito bem). Cada imagem, metáfora, símile ou o que seja vem acompanhada de um desnecessário pedido de desculpas, o que acaba travando um pouco o texto, principalmente nas duas primeiras histórias. Só no episódio final é que a autora se solta. Não por coincidência, a personagem principal desse epílogo é uma escritora em processo de autoflagelação. Somente para se torturar é que a autora consegue se libertar da censura que se impõe.

CINEMA_E_POLITICAS_DE_ESTADO “Cinema e Políticas de Estado” (Escrituras, 2010) é talvez a melhor análise já produzida — pelo menos, a melhor que já li — das relações entre o Estado brasileiro e o que Melina Izar Marson chama de “campo cinematográfico”, no período que vai da crise da Embrafilme até o surgimento da Ancine. Um dos maiores méritos da autora é, em cada um dos períodos no qual divide seu estudo, recuar um passo e observar, na leitura dos filmes mais representativos, um retrato dessas relações. Além disso, escapa do reducionismo comum a outros intérpretes, mostrando como a política cultural de FHC começou bem antes, ainda no governo Collor; na prática, os dois governos (mais o período Itamar) formam um continuum. Aborda ainda com propriedade a (falta de) integração entre o tal campo cinematográfico e os setores mais economicamente maduros da indústria audiovisual brasileira e aponta o fantasma do Cinema Novo pairando até hoje sobre a produção brasileira, que não consegue resolver seus dilemas internos e externos.

A empatia Denise Mina faz um bom trabalho com John Constantine em “A empatia é o inimigo” (Panini, 2013). Para o bruxo que sempre se esforçou para se mostrar mais cínico e indiferente do que realmente é, a seita da empatia representa um desafio. A trama é bem construída, revelando-se aos poucos, mantendo a consistência e provocando reflexões éticas. Só o desfecho é meio preguiçoso, apelando para elementos clássicos da série Hellblazer e deixando um fim aberto, na verdade um gancho para uma outra história.

SHUNKADEN“Shunkaden: A nova lenda de Chun Hyang” (New Pop, 2013) toma como base uma lenda coreana sobre um amor proibido (e, é claro, eterno). O grupo CLAMP, ao que parece, tomou várias liberdades ao adaptar a história, fazendo da protagonista Chun Hyang uma mestra das artes marciais. Isso permitiu que ela se tornasse uma heroína de ação, inserida em conflitos grandiosos, com boa tensão dramática. Em comepnsação, um pouco por isso e também por Hyang ser uma adolescente, a sua relação com o nobre Mong Ryong aparece infantilizada. Mesmo sendo um volume único, dá a impressão de que se trata apenas do início das aventuras, e que os dois teriam muito a aprender um com o outro.

(Publicado também no skoob)

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