Meninos, eu li (32)

A_MAQUINA Existe uma falsa oralidade na narrativa de “A máquina” (Objetiva, 2006) que tenta convencer o leitor de estar dentro de uma fábula, ou parábola. Na verdade, porém, o cuidadoso jogo vocabular de Adriana Falcão trai essa ideia à medida que se revela uma tecnologia verbal, e assim se ientifica com o outro gênero que ela resolveu espelhar – o da novela de ficção científica. A máquina do tempo de Antonio, nesse sentido, é tão falsa (como macguffin propulsor da trama) quanto a voz do narrador. A máquina verdadeira, que se pretende com potencial transformador, é o próprio livro.

ELEGBARA Alberto Mussa ainda era Beto Mussa quando assinou “Elegbara” (Revan, 1997). A mudança no nome é significativa: o autor cresceu e muito desde esses contos, mas o embrião do que seriam seus ótimos romances já estava presente. Isso aparece tanto na temática (ficção histórica, tomando figuras como Zumbi, Dom Sebastião e até Exu como seus personagens) quanto no tratamento. O autor disseca as ações, analisando os motivos e as razões por trás deles, explicitando o desenvolvimento dos personagens, transformando as histórias em verdadeiros silogismos narrativos. Um pouco secos, mas bastante precisos.

TERRA_E_CINZAS Um menino ensurdecido acha que os bombardeios roubaram não a sua audição, e sim as vozes de todo o mundo. A perda da voz dos oprimidos grita logo nas primeiras páginas de “Terra e cinzas” (Estação da Liberdade, 2001). Mas o menino-metáfora fica para trás. Num cenário de aldeias devastadas por bombardeios e famílias destruídas, o mais incômodo em acaba sendo a narração em segunda pessoa (mais ainda porque o texto em português, traduzido da versão francesa e não do original em dari, deliberadamente mistura a segunda pessoa gramatical com a terceira, sem explicações). Com isso, Atiq Rahimi força o leitor na pele do protagonista Dastaguir na sua jornada inglória. Aos oprimidos não resta sequer a metáfora. Só o absurdo.

THE_BOOK_OF_FANTASY Um belo dia, Jorge Luis Borges, Adolfo Bioy Casares e Silvina Ocampo conversavam sobre suas histórias preferidas e resolveram reuni-las num só volume. “The book of fantasy” (Carroll & Graf, 1990) é a tradução inglesa para a terceira edição da “Antología de la literatura fantástica”, aquela mesma mencionada por Borges no pós-escrito de seu conto “Tlön, Uqbar, Orbis Tertius”. Mistura alguns clássicos (“A pata do macaco”, “A casa tomada”) com histórias menos conhecidas de autores consagrados (Kafka, Hawthorne) e um punhado de garimpagens. No total, e relevando-se as idiossincrasias dos editores, uma ótima panorâmica do que se pode chamar de literatura fantástica desde Petrônio até o século XX.

ELEKTRA_VIVE Eu passei os anos 90 ouvindo falar que “Elektra vive” (Abril, 1991) era uma obra-prima, a grande prova do talento genial de Frank Miller. Se eu tivesse lido na época, talvez até achasse também. Hoje, achei apenas um gibi melhorzinho, mais pelo traço estiloso do que pelo roteiro. Metade da história é o Demolidor chorando seus traumas ou delirando, e o resto é pancadaria. O grande mérito é funcionar como uma obra quase independente, exigindo pouquíssimo conhecimento prévio dos personagens.

THE_LAST_KNIGHT “The Last Knight” (Nantier, 2000) ganhou o subtítulo de “An Introduction to Don Quixote”. Seria melhor se fosse chamado de “uma história vagamente inspirada em Dom Quixote”, pois foi o que Will Eisner fez. E nem é por ver nos moinhos um dragão em vez de gigantes. A versão em quadrinhos é exatamente o oposto do romance de Cervantes – que ainda aparece em participação especial nas páginas finais, visitando Don Alonso Quijano em seu leito de morte. No fim, “The Last Knight” serve como introdução ao Quixote tanto quanto uma paródia da Turma da Mônica serviria. Vale como passatempo, mas também está longe dos melhores trabalhos do autor.

(Publicado também no skoob)

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