Meninos, eu li (31)

UM_ROMANCE_DE_GERACAO “Um romance de geração” (Civilização Brasileira, 1980) era o único livro do Sérgio Sant’anna nesse período dos anos 70-80 que eu ainda não conhecia. A crítica que se poderia fazer ao mestre era ter inspirado e influenciado tanta autoficção vagabunda que se vê por aí atualmente, mas a verdade é que ele não tem nada com isso: a falsa peça, escrita para não ser montada, quebra não só a quarta parede do teatro mas todas as paredes do edifício literário. O jogo entre autor, ator, personagem, leitor, público, forma, conteúdo, linguagem, texto, corpo e política é atordoante. Cumpre com folga a missão autoimposta de escrever o romance daquela geração, dos anos da Abertura. Ainda traz, de brinde, a declamação de Coração Subalterno, o melodrama celestino virado pelo avesso por Sebastião Nunes, poeta da mesma turminha mineira.

41_POETAS_DO_RIO Todos os autores de “41 poetas do Rio” (Funarte, 1998) foram participantes das Quintas de Poesia no Espaço Cultural Moacyr Félix, em 97. E o trocadilho é inevitável: tem uita poesia de quinta na antologia organizada pelo próprio Félix. Em compensação, tem Alexei Bueno, Antônio Cícero (muito melhor como poeta do que como letrista), Denise Emmer e mais um punhado de outros que justificam a edição. Da leitura de todos, ressalta-se a diversidade de origens. Os “poetas do Rio” são paulistas, goianos, gaúchos, mineiros, cearenses e até mesmo cariocas. De alguma forma, todos eles, inclusive os nativos, compartilham uma sensação de desterramento, talvez mais do tempo que propriamente do espaço.

PAISAGEM_COM_DROMEDARIO “Paisagem com dromedário” (Companhia das Letras, 2009) poderia ser apenas um exercício técnico. A estrutura composta pelas transcrições de 22 gravações deixadas pela protagonista Érika, porém, em nenhum momento ameaça virar um daqueles fogos de artifício narrativos que distraem da absoluta falta de conteúdo. Pelo contrário. Carola Saavedra usa o triângulo amoroso formado por Érika, Alex e Karen, bem como seus desdobramentos em outras relações, para questionar o papel da arte e do artista. Ao mesmo tempo, desenha um outro triângulo amoroso, formado por texto, história e subtexto.

CINEMA_E_ECONOMIA_POLITICA Dessa vez, a organizadora Alessandra Meleiro escalou mal o time. É erdade que não existe texto neutro nem desinteressado, mas a maioria dos autores reunidos em “Cinema e Economia Política – Indústria Cinematográfica e Audiovisual Brasileira Vol. II” (Escrituras, 2009) está longe de qualquer objetividade acadêmica. Então, o que fica é um bocado de wishful thinking e muita autopropaganda (nos casos flagrantes de Bitelli, competente como de hábito na arte de vender seu peixe por muito mais do que ele vale, e Teixeira). Sá Earp e Guimarães e Souza, nessa mesma linha, são convincentes na sua proposta de desoneração fiscal, mas sequer se dão ao trabalho de avaliar seus custos. Do ponto de vista econômico, a melhor contribuição fica sendo mesmo a de Brittos e Kalikoske sobre as barreiras de entrada no mercado. Já a pesquisa sociológica de Botelho, apesar de relevante, parece fora de lugar nesse volume.

SIMONS_CAT Sabe quando o filme é melhor do que o livro? “Simon’s Cat” (L&PM, 2012) inaugura a era do “gostei mais do canal no YouTube”. As animações de Simon Tofield são muito melhores que a adaptação para o papel. Tem um ou outro personagem carismático, como o porco-espinho. O problema é que, de forma geral, o gato de Simon perde a sua principal característica, o exagero catunístico em que no entanto qualquer um reconhecia o comportamento de um gato real. Em vez disso, os quadrinhos mostram um felino antropomorfizado, um sub-Garfield sem personalidade.

ESTORIAS_GERAIS Na linguagem e no tema, “Estórias Gerais” (Conrad, 2007) remete imediatamente a Guimarães Rosa, influência assumida pelo roteirista Wellington Sbrek. De fato existe uma toada rosiana ao longo de todo o álbum. Mas Srbek invoca outros patronos – Lobato, Suassuna, João Cabral – enquanto enovela um causo no outro, incorporando a oralidade sertaneja na narrativa gráfica. Flávio Colin traduz bem essa trama com um traço que remete á expressividade do cordel. A dupla ainda assina o bônus “Estória da Onça”.

(Publicado também no skoob)

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