Meninos, eu li (30)

A_SOCIEDADE_DO_ESPETACULO “A sociedade do espetáculo”, com os “Comentários sobre a sociedade do espetáculo” (Contraponto, 1997) era uma leitura atrasada. Não apenas porque o texto original já tinha 45 anos, mas também porque eu deveria ter lido quando ia tentar o mestrado na ECO, ali por 2003. De qualquer forma, o texto de Guy Debord permanece atual não apenas como crítica da mídia mas principalmente como análise da economia pós-industrial. Alguns parágrafos parecem ter sido escritos hoje, em reação às explosões de consumo e à euforia diante do lançamento de um novo aparelhinho. Mais do que em 67, quando foi escrito, ou em 88, quando nasceram os Comentários, é possível ver a sociedade do espetáculo se manifestando em cada atividade da vida social. Só é preciso filtrar o tom de autoelogio, necessário num texto que é muito mais político (e militante) do que acadêmico.

O_SECULO_DO_VENTO Outra leitura atrasada foi “O século do vento” (Nova Fronteira, 1988). Mais de dez anos depois de ter lido os dois primeiros volumes de “Memórias do fogo”, a conclusão da trilogia confirma Eduardo Galeano como um mestre na arte de contar as histórias que formam a História. A América (especialmente a América Latina) de 1900 a 1986 surge como um palco da luta dos povos e também de sua arte, indissociadas, dois lados da mesma moeda. O maior mérito do autor, e isso mesmo quem discorde dele politicamente se verá na obrigação de admitir, está na capacidade inesgotável de transformar o cotidiano em drama, e o drama em significado. Termina-se a leitura com uma sensação de pertencimento a uma dinastia de heróis, conquanto anônimos alguns, que atravessa o tempo e se perpetua na eternidade.

CONTOS_SINISTROS O maior defeito de “Contos sinistros/No olho do Outro” (Max Limonad, 1987) é ter pouco do primeiro e muito do segundo. Ou seja: apenas dois contos de E.T.A. Hoffmann e um longo estudo de Oscar Cesarotto tentando atualizar as observações de Freud sobre o escritor. Ignorei os ensaios e li apenas os contos. “O homem de areia” e “Os autômatos” ainda arrepiam, e permitem uma leitura surpreendentemente moderna em tempos transumânicos, ciborguianos. Os personagens de Hoffmann se horrorizam com a possibilidade de máquinas capazes de igualar o ser humano nas suas duas áreas de excelência, o amor e a arte. Duzentos anos depois, é fácil substituir as engrenagens dos relojoeiros por microchips. Mas as histórias seriam as mesmas? Essa é a segunda pergunta mais importante. A primeira é: por quê?

SWEET_TOOTH__DEPOIS_DO_APOCALIPSE O_INESCRITO Dois lançamentos (Panini Comics, 2012), dois volumes iniciais de séries da Vertigo. “Sweet Tooth – Depois do Apocalipse” avança pouco no tema. Jeff Lemire consegue provocar compaixão pelo pequeno mutante criado longe dos humanos perversos e depois abandonado num mundo hostil em “Saindo da Mata”. Mas isso era o mínimo que se esperava, e é só. Mike Carey e Peter Gross foram mais felizes em “Tommy Taylor e a identidade falsa”, primeira parte de “O Inescrito”. O Harry Potter genérico que sai das páginas do romance e se faz carne como um messias literário (mesmo que relutante) insinua futuras questões mais interessantes sobre o poder das palavras e os limites da criação. Se for pra seguir mais um novelão, fico com o segundo.

(Publicado também no skoob.)


Resumão de 2012: 58 livros, 33 gibis.

Melhores (com destaque para os mais surpreendentes): “Duas pessoas são muitas coisas” (Lisbôa), “Minha vida” (Crumb), “O senhor do lado esquerdo” (Mussa), “Os donos do poder” (Faoro), “Sinal e Ruído” (Gaiman & McKean), “A rosa do povo” (Drummond), “a máquina de fazer espanhois” (mãe), “A condessa sangrenta” (Pizarnik), “Morte e vida severina e outros poemas em voz alta” (João Cabral), “Histórias de cronópios e de famas” (Cortázar), “Valentina 66-68″ (Crepax), “O cavaleiro inexistente” (Calvino), “Orlando” (Woolf), “O evangelho segundo a serpente” (Hayat), “Poesia completa” (Cruz e Sousa), “Mafalda 10 años” (Quino), “Claros sussurros de celestes ventos” (Santos).

Piores: “Fábulas – O bom príncipe” (Willingham), “King Kong” (Lovelace), “Esquin de Floyrac: o fim do templo” (Rodrix), “Mulher-Gato: Cidade eterna” (Loeb & Sale), “Termo de ajustamento de conduta” (Santos), “Pornopopéia” (Moraes).

Metas para 2013:  Mais teoria. Menos autores homens-brancos-heterossexuais-europeus/americanos. E, no entanto, alguns clássicos que estou me devendo.

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