Era uma vez (6): Um conto de Natal

(Reciclagem: esse é de 2006, originalmente postado no extinto Saturnália)

Era uma vez uma frondosa mangueira que ficava bem no meio da praça central de uma cidade. Todos os moradores de lá tinham orgulho dela, pois haviam crescido vendo seus ramos darem sombra nos dias quentes e também as mais deliciosas mangas.

Um dia, e era véspera de Natal, a árvore viu algo muito estranho na cidade. Bem, você vai me perguntar como uma árvore pode ver se ela não tem olhos; e eu respondo: quem disse a você que não? Eles podem muito bem estar escondidos. Portanto, da próxima vez que estiver perto de uma árvore, principalmente se for uma mangueira, procure bem. E de qualquer forma isso não vem ao caso, porque saber ver é muito mais importante do que ter olhos.

Então, como eu dizia, a árvore viu uma movimentação estranha. E percebeu, olhando através das janelas, que todas as famílias enfeitavam outras árvores — árvores que, veja só!, estavam dentro das casas. Curiosa, perguntou a um passarinho que passava por ali o que estava acontecendo.

— São árvores de Natal — disse ele.

— O que é isso? — quis saber a mangueira.

— Ora, você não sabe? Nessa época do ano, para comemorar o Natal, as pessoas enfeitam pinheiros com bolas coloridas, luzes e estrelas. E, no dia de Natal, ele amanhece com um monte de presentes para as crianças.

— E só pinheiros podem ser árvores?

— Bem, acho que sim. Na verdade, não entendo muito disso, mas nunca vi uma árvore de Natal de outro tipo.

A mangueira, que sempre se orgulhara de ser mangueira, mesmo quando a Estação Primeira de Mangueira não ganhava o Carnaval, nesse momento não chegou a desejar ser um pinheiro, mas ficou morrendo de vontade de ser também uma árvore de Natal. Ficou tão triste que chorou, ao seu modo: deixou cair uma folha, e o outono já tinha passado há muito tempo. A folha foi caindo de leve até bater num anjo que dormia junto à sua raiz.

— Nossa! Que horas são? Já devo estar atrasado! — disse ele, acordando de repente.

— Atrasado para quê? — perguntou a mangueira, que, como você já deve ter percebido, era muito curiosa.

— Para o ensaio do coro de Natal dos anjos. Se bem que não sei por que ensaiamos, já que todo ano cantamos as mesmas músicas: “Noite feliz”, “Jesus, alegria dos homens”…

— Puxa! Você, como anjo, deve entender muito de Natal. Será que poderia me ajudar? — pediu a árvore, que lhe revelou seu desejo. O anjo pensou um bocado e disse:

— Ora, eu não posso transformar você numa árvore de Natal. Você vive para dar frutas e sombra e beleza o ano inteiro. Se entrar dentro de uma casa como aqueles pinheiros, depois vai ser guardada num armário o resto do ano — explicou.

A árvore entendeu. Mas isso não diminuiu a sua tristeza. O anjo cantor, percebendo isso, teve uma idéia. Começou a voar em torno dela, dizendo:

— Mas você é uma árvore de Natal completa! Veja só como seus ramos estão cheios de frutos, que são os mais lindos enfeites! Os seus galhos guardam os risos das crianças que brincaram de se pendurar neles, ressoando como sinos! E no seu tronco estão gravados corações, que brilham com a luz das declarações de amor!

Lembra de quando eu disse que o importante é saber ver? Pois é: a mangueira nunca tinha visto que ela era na verdade uma autêntica árvore de Natal, e o que é melhor: o ano inteiro. Nesse instante, um coro de passarinhos se reuniu sobre a sua copa, numa cantata cheia de alegria. E, no dia seguinte, todas as crianças foram para a praça com seus brinquedos novos, para brincar ao pé da mangueira de Natal.

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3 Respostas para “Era uma vez (6): Um conto de Natal

  1. Que é isso, Marquito… snif, snif… \o/

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