Meninos, eu li (29)

A última quimera Claros sussurros de celestes ventos É estranho como “A última quimera” (Companhia das letras, 1995) e “Claros sussurros de celestes ventos” (Bertrand Brasil, 2012) são tão semelhantes e diferentes. Os dois partem de princípios muito próximos: Ana Miranda escolhe como protagonista o melhor amigo de Augusto dos Anjos, no momento em que recebe a notícia da morte do poeta e vai contar a novidade a Olavo Bilac; Joel Rufino dos Santos inicia seu romance mais ou menos na mesma época, imaginando uma visita de Cruz e Souza ao leito de morte de Lima Barreto. O desenvolvimento, porém, é bem diferente. Miranda opta por uma narrativa tradicional, apoiada na pesquisa e na historiografia, para chegar a uma conclusão algo melancólica sobre a inutilidade da poesia. Rufino mistura personagens históricos (como João Cândido, Lobato, Friedenreich) com outros tirados da obra de Lima Barreto (a Olga de “Policarpo Quaresma”), numa prosa delirante que atravessa o século XX para tentar explicar uma formação da nacionalidade brasileira um pouco mágica, um pouco trágica emuito poética. O primeiro é mais bem resolvido, amarradinho, mas o segundo leva vantagem por ser mais ambicioso.

Teogonia Desde que li a enciclopédia de Mitologia da Abril Cultural, ali por 85, que eu tinha vontade de ler a “Teogonia”. Essa edição (Iluminuras, 2007) justificou a espera. O ensaio introdutório de José Antônio Alves Torrano, que também assina a tradução, faz você quase virar pagão e sair sacrificando cabras para os deuses do Olimpo. Torrano apresenta a poesia como expressão da Memória (mãe das Musas) e portanto como garantia da Ordem (ou seja, do poder de Zeus) num mundo oral, aliás mais próximo do nosso mundo digital, cibernético, do que das sociedades da palavra escrita. Criar e cantar é decidir o que deve ser lembrado – ou, em termos contemporâneos, o que deve ser posto em relevo e não afundar no Tártaro da hiperabundância de informação.

Cinema no mundo - ÁfricaO volume I da coleção “Cinema no mundo” (Escrituras, 2005), dedicado à África, é bem inferior ao II, da América Latina. O problema principal é que a maioria dos artigos fala do cinema africano como um bloco homogêneo (mesmo quando nega que ele seja) e portanto acaba se repetindo. A história de sucessivas ondas e tendências é contada pelo menos três vezes ao longo dos ensaios selecionados por Alessandra Meleiro. Além disso, os textos citam poucos dados e se concentram na análise do conteúdo dos filmes, raramente comentando questões de economia do audiovisual. As exceções são justamente os dois artigos com foco em países específicos: África do Sul (uma interessante história da evolução do setor e suas relações com o Estado, antes, durante e depois do apartheid) e Nigéria (um bom estudo do fenômeno dos vídeos de Nollywood).

A guerra dos bastardosUm daqueles famosos mandamentos para uma boa história da Pixar diz que coincidências podem criar problemas para os personagens, nunca resolvê-los. “A guerra dos bastardos” (Língua Geral, 2007) subverte essa regra. Não é que as coincidências ajudem ou atrapalhem: elas arrastam o personagem num turbilhão que nega qualquer possibilidade de escrever o próprio destino. Não importa o que eles façam, todos estão condenados ao sofrimento, pelo mero fato de existirem. Não é o melhor romance de Ana Paula Maia: tem alguns problemas sérios de revisão que uma edição mais caprichada teria resolvido. Mas mesmo assim mostra personalidade e uma visão única.

Magnetar Lá pelo fim de “Astronauta – Magnetar” (Panini, 2012), Danilo Beyruth ameaça enveredar pelo discurso de auto-ajuda. Felizmente passa rápido. A primeira graphic novel do selo MSP cumpre o que promete: dá um tratamento adulto e sofisticado ao personagem de Maurício de Sousa (que, eu não sabia, se chama mesmo Astronauta, como mostra uma tirinha de 1963 publicada como extra). Alguns recursos utilizados parecem referencia à metalinguagem que foi característiuca dos quadrinhos de Maurício numa certa época. É assim, por exemplo, na fantástica página em que os quadros são reduzidos e replicados ao infinito para mostrar a passagem do tempo.

Mafalda 10 anosGente en su sitio Na introdução de “Mafalda 10 años” (Ediciones de la Flor, 1991), o jornalista Rodolfo Braceli lembra uma entrevista com Quino, em 1967, durante a qual, para vencer a timidez do entrevistado, pediu que ele respondesse às perguntas com desenhos. Cada resposta era uma pequena obra-prima de humor gráfico. A anedota serviria melhor ainda para apresentar “Gente en su sítio” (idem, 1993), uma coletânea de cartuns e historietas que mostra a facilidade do argentino para dizer tudo o que queria com imagens. A capacidade de explorar detalhes e de mostrar o absurdo presente no cotidiano mas que normalmente passa despercebido lembra a do conterrâneo Cortázar. De Mafalda, então, não há mais o que dizer. Falta uma ou outra tira inesquecível, mas seria impossível uma antologia que agradasse a todos e não deixasse muita coisa boa de fora.

(Publicado também no skoob.)

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