Meninos, eu li (28)

Os maiores méritos e os maiores defeitos de “A cidade e as ruas – Novelas cariocas” (Lidador, 1965) estão na sua concepção. São dez contos encomendados a diferentes autores para comemorar o IV Centenário do Rio de Janeiro, cada um tendo como tema um bairro da cidade (Barra, Botafogo, Catete, Centro, Copacabana, Glória, Ipanema, Laranjeiras, Mangueira e Tijuca). O resultado foi amplamente satisfatório como celebração de um Rio bossa-nova, que ainda não sentia tanto os impactos a transferência da capital para Brasília. Também executa muito bem aquilo que Beatriz Jaguaribe, nas aulas que dava na ECO, chamava de “cartografia simbólica”. A fraqueza é justamente essa tendência para a crônica que predomina ao longo dos dez textos, levando até um Marques Rebelo a se perder em descrições dos encantos e tradições de Laranjeiras. Só Guido Wilmar Sassi e Carmen da Silva (nenhum dos quais eu conhecia) conseguem voos um pouco mais amplos que o mero registro de personagens da cidade. Outra falha é ignorar o subúrbio carioca, que teria rendido bons retratos, aumentando a diversidade do painel.

Anne McCaffrey fez quase tudo certo em “A diversity of dragons”. Usou o pretexto da visita de um fazendeiro irlandês que tem um “problema com dragões” para oferecer um quadro de lendas e histórias de dragões desde os sumérios e hebreus até os romances de fantasia de Pratchett, LeGuin e dela própria, passando pelas diversas versões da luta de São Jorge. Só tropeça, em termos de texto, quando exagera nas longas transcrições de obras recentes – o que só se justifica como forma de abrir espaço para mais ilustrações de John Howe, que capricha na variação de estilos conforme o tipo de narrativa que acompanha. O livro também deixa a desejar em termos de amplitude: os dragões orientais são pouco explorados, e as tradições ameríndias, africanas (com exceção do Egito) e da Oceania completamente ignoradas.

Frederico de Santa-Anna Nery escreveu em 1887 o que é considerado o primeiro livro dedicado à cultura popular brasileira. Lido hoje, “Folclore brasileiro” (Massangana, 1992) sofre muito com o peso de mais de um século. Isso acontece, por exemplo, quando o autor atribui traços que considera predominantes no folclore nacional a uma tristeza característica das três matrizes étnicas – o índio expropriado, o português exilado e o negro escravizado. Abundam estereótipos desse tipo. Além disso, por ser originalmente uma série de palestras proferidas como apresentação do folk-lore brésilien ao público erudito de Paris, falta rigor teórico: informações são lançadas e amontoadas sem qualquer preocupação sistemática. Também transcreve sem a menor necessidade um longo conto baseado na lenda da Iara. Mas vale, principalmente, pelas histórias da tradição oral reunidas nos últimos capítulos.

Meu primeiro contato com Cruz e Sousa foi nas aulas de literatura no segundo grau. Eu, adolescente fã de rock progressivo, ouvinte de Marillion e Genesis, pirei com versos como os de “Pressago”, com os climas e cenários minuciosamente elaborados mas onde nada acontecia (e por isso mesmo tudo podia acontecer). Mais de vinte anos depois, a leitura da “Poesia completa” (Fundação Catarinense de Cultura, 1981) ainda me causou arrepios, mas diferentes. Porque ou eu não lembrava ou não tinha reparado no erotismo de “Broquéis”. É interessante ver como, nos “Faróis”, o poeta se solta na forma e se controla no conteúdo. A lamentar apenas a falta de uma revisão crítica mais caprichada, que contextualizasse a obra um pouquinho melhor do que faz a breve introdução escrita por aria Helena Camargo Régis.

O maior triunfo de Kyung-Sook Shin em “Por favor, cuide da mamãe” (Intrínseca, 2012) é a imersão que consegue provocar no leitor. Especialmente na primeira parte, com a sua incomum narrativa na segunda pessoa (você vai, você faz, você lembra): a identificação com a personagem que busca a mãe perdida no metrô de Seul é imediata. A mudança de ponto de vista quebra um pouco essa intimidade conquistada, mas transforma a busca pela velhinha numa busca por memórias, e o romance numa desesperada tentativa de estabelecer o quanto podemos conhecer do outro, portanto o próprio status das relações pessoais. No epílogo, o ponto de vista volta para a personagem da filha, e a autora consegue sustentar a emoção no limite das lágrimas.

Agora pare o que estiver fazendo e vá ler “O evangelo segundo a serpente” (Língua Geral, 2006), ou pelo menos as vinte e poucas páginas que a editora deixou abertas no site. Ainda que mais não seja, só pela ourivesaria verbal de Faíza Hayat, que elabora frases como “Um espelho é o retrato órfão de um gêmeo” ou “Sempre suspeitei nela, é certo, um destino de ave”. Não fica nisso: para além das observações que o olhar de cronista dispara, a romancista traça o seu caminho dentro de um labirinto borgiano onde questões metafísicas sobre Deus e o mal são parte de uma busca por um homem perdido (um arqueólogo carioca e rubro-negro!), equalizando amor e verdade, inclusive no quanto é ilusório encontrar uma e o outro, e no quanto a busca é necessária mesmo como ilusão.

Não conhecia nada da literatura iraniana contemporânea (sem contar os quadrinhos de Marjane Satrapi) até ler “Mulheres sem homens” (Martins Fontes, 2010), de Shahrnush Parsipur. E foi estranhamente familiar. Algumas personagens parecem saídas do realismo fantástico – por exemplo, a solteirona que decide virar árvore e cria raízes no jardim, ou a outra que passa a ler a mente das pessoas depois de morrer e ressuscitar duas vezes. Reunidas e depois separadas, numa estrutura quase cíclica, as mulheres de Parsipur formam uma espécie de mosaico da mulher iraniana (da mulher, simplesmente? do ser humano?) e das possibilidades de escrever seu próprio destino, sem homens ou com eles.

“Wolverine Noir” (Panini, 2012) me parece, até agora, a mais bem sucedida das edições “noir” dos personagens da Marvel. Logan convence como o detetive durão, porém como bom coração. É um clichê, mas o roteirista Stuart Moore explora bem as possibilidades de fundi-lo com o personagem, sem cair na armadilha de reproduzir os superpoderes dos quadrinhos originais, efetivamente criando uma nova versão de Wolverine. O ilustrador C.P. Smith também acerta mais que os outros da série na reprodução (atualizada e estilizada, evidentemente) de um clima noir.

William Messner-Loebs (roteiro) e Sam Kieth (arte) fazem um bom trabalho em “Epicuro, o sábio” (Conrad, 2007). A proposta meio anárquica (para usar uma palavra de origem helênica) de misturar personagens históricos sem qualquer rigor cronológico (idem) e fazê-los contracenar com figuras da mitologia funciona como artifício para apresentar os filósofos gregos de forma satírica e com algum espírito crítico — as participações de Sócrates e Platão, em especial, são excelentes. Não é nenhuma obra-prima, mas diverte.

O segundo volume de “Príncipe Valente na corte do Rei Artur” (Ebal, 1984) éuma boa mostra da extraordinária técnica de Harold Foster, tanto no texto quanto na narrativa gráfica. Personagens e cenários são deslumbrantes, a atenção aos detalhes torna cada uma das 96 pranchas um tesouro a ser lido e relido. Mas também é um retrato da visão simplória e até preconceituosa dos quadrinhos de jornal de 1939-40. O bem é identificado com o belo, o herói é um irretocável modelo de virtudes. Até o gigante do vale e seu exército de freaks, o personagem mais interessante da série, só é redimido quando a bondade de Val permite que ele se torne um servidor da sociedade.

O nome do roteirista Garth Ennis foi o maior chamariz na capa de “Jennifer Blood” (Panini, 2012). A arte ser de um brasileiro, Adriano Batista, também influenciou. Mas o resultado foi uma decepção. A premissa é boa: uma dona de casa que à noite dopa o marido e os filhos para sair caçando mafiosos nas ruas. Um “Sr. e Sra. Smith” sem o sr. Smith. O problema é que Ennis aos poucos revela que sua justiceira é apenas mais uma mafiosa em busca de uma vingança pessoal. Esvazia a heroína. Além disso, Jennifer não corre risco em momento algum. A tensão é zero. O que salva são alguns comentários da personagem, que às vezes parecem uma autocrítica do roteirista em relação aos clichês e ao sexismo das histórias em quadrinhos. Batista, por sua vez, é uma decpção total. Fica apenas um pouco acima daqueles garotos da escola que desenham super-heróis com mais músculos do que humanamente possível.

(Publicado também no skoob.)

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