Meninos, eu li (27)

“Orlando” (Nova Fronteira, 1978) é desconcertante. Não pela mudança de sexo do personagem, nem pela sua imortalidade, nem pela falta de explicação para as duas coisas. Nem mesmo pela grandiosa constatação feminista de que, o se tornar mulher, Orlando permanecia a mesma pessoa, e de que feminino e masculino não passam de construções sociais e tal. É a prosa de Virginia Woolf, aqui em tradução de Cecília Meirelles, que desnorteia e deixa o leitor equilibrando-se na ponta dos pés o tempo todo. Porque é essa prosa profunda, na sua revelação das transformações internas de Lord/Lady Orlando ao longo dos séculos nas suas relações com o amor e a arte, que obriga a constatar que contra todas as aparências se trata de um romance realista, retratando uma realidade incômoda que desperta nas doze badaladas de quinta-feira, 11 de outubro de 1928.

Não li o livro da moda mas peguei esse “S.M.” (Blanche, 2005). O romance epistolar de Joël Hespey (provavelmente um pseudônimo), censurado quando da publicação original em 1974, na coleção L’Or du Temps de Régine Deforges, tem alguns méritos. O primeiro é a verossimilhança dos personagens: a troca de cartas entre Sylvain e Marc parece real, cria uma cumplicidade voyeurista de quem observa o desenrolar de um relacionamento. O segundo é a franqueza: já na primeira carta, Sylvain deixa claro que “chama um cu de cu”, sem eufemismos. Isso, mais algumas espertezas – o título ser formado também pelas iniciais dos personagens, a conclusão cíclica inserindo a história dos dois numa longa trajetória que atravessa as gerações. O maior problema é ser longo demais. Na metade do livro praticamente todos os conflitos estão resolvidos e o que se segue é uma arrastada sequência de mais do mesmo, além do mais açucarada em excesso. Outra falha é o desequilíbrio entre o tratamento dos dois amantes. Sylvain surge pronto e acabado: o personagem da primeira página é exatamente igual ao da última, servindo apenas como referência para a transformação radical que Marc atravessa.

Um Borges menor ainda é um Borges. “O Fazedor” (Difel, 1984) chega a repetir alguns textos publicados em outros livros. Alguns dos microcontos parecem esboços deixados preguiçosamente do jeito que estavam. Mesmo assim, é ótimo. Jorge Luís Borges às vezes só precisa de um parágrafo ou de um soneto para fazer o leitor se perder em espelhos, labirintos, paradoxos, bibliotecas, tigres, pampas, tabuleiros de xadrez. Às vezes parece marcado pela chegada da cegueira, assim como pela ideia da morte. Por isso, talvez, a brevidade: é um livro sem tempo a perder, sem desperdícios de escritura.

Até agora não sei como classificar “Meu destino é ser onça” (Record, 2009). A ficha catalográfica diz que é um ensaio. O autor diz explicitamente na introdução que o seu objetivo era fazer literatura. Mitopoiese é a palavra mais correta para o meio-termo que saiu. Alberto Mussa assumiu a tarefa de ser um Hesíodo brasileiro, recolhendo as diversas fontes e dando uma forma final, literária, ao nosso mito de origem. “Nosso”, leia-se tupinambá: a premissa é de que, mesmo escondida das estatísticas, das genealogias e das políticas oficiais, a herança tupiniquim está presente na maioria da população brasileira, tanto na genética quanto na cultura. É aí que reside a importância da tarefa de Mussa. Se, como dizia Oswald, só a antropofagia nos une, é necessário reviver a mitologia que fundou esse nosso traço característico, definidor. Assumir a antropofagia é assumir também a sua origem metafísica, a história de Maíra e de Sumé.

Ítalo Calvino propõe uma série de jogos em “O cavaleiro inexistente” (Companhia das Letras, 1998). Para começar, é Calvino escrevendo um livro sobre uma monja que escreve uma história de uma armadura que não tem ninguém dentro. À primeira vista, é uma crítica da própria literatura, e em especial a do século XX, que de tanto elaborar discursos sobre si mesma acaba se perdendo no vazio. Enquanto isso, do outro lado, o de fora da armadura, as pessoas reais vivem, amam, sofrem, traem, se acovardam. Esse outro lado, porém, é também impotente sem a forma estruturante que a armadura proporciona. Sem ela, acaba ficando como o louco que acha que é pato quando está no meio dos patos, porco quando está no meio dos porcos e rei quando está diante de Carlos Magno. O final feliz depende da síntese bem sucedida, que depende de as duas partes abrirem mão do que são para se tornarem algo maior.

A edição de “O segredo da Flor de Ouro” (Vozes, 1983) com as notas de Richard Wilhelm e os comentários de Carl Gustav Jung mostram a psicologia analítica junguiana fazendo o que sabe de melhor: funcionar como ferramenta de crítica textual. O manuscrito chinês do século XVIII em si é praticamente ininteligível nas suas metáforas taoístas que não encontram referência para o leitor ocidental contemporâneo. Só faz sentido depois de depurado pelos conceitos do suíço, que teve a sacada genial de confrontar Lü Yen com os alquimistas europeus e mostrar que todos eles estavam falando dos mesmos processos psíquicos. E faz mais sentido ainda quando se percebe a imensa carga de preconceito presente na própria análise – por exemplo, na visão de um texto específico de determinados momento e local como retrato fiel de um “Oriente” homogêneo e idealizado, antítese de um “Ocidente” igualmente idealizado.

“O mestre de esgrima” (Companhia das Letras, 2003), de Arturo Pérez-Reverte, começa devagar. Mas, quando Don Jaime Astarloa começa a se mostrar de verdade, dá para perdoar tranquilamente os personagens secundários estereotipados. O que importa é acompanhar o duelo de lâminas, palavras e gestos entre o mestre e a misteriosa Adela de Otero. A trama cresce, envolve, e chega a um diálogo, pouco antes do clímax dramático, que parece amarrar todo o romance e dar a ele um significado ainda maior – a figura de Astarloa como antítese do real, com todas as implicações que isso traz para a história. A essa altura, o autor abre a guarda do adversário e fica com tudo pronto para a estocada final. O que estraga é o que vem em seguida. O último capítulo despenca para um clichê vagabundo de vilão explicando ao herói seu plano diabólico e rocambolesco, digno do folhetim mais barato.

Um mérito temos que reconhecer em Alan Moore: ele virou H.P. Lovecraft pelo avesso em “Neonomicon” (Panini, 2012, arte de Jacen Burrows). A história recupera diversos elementos do mito de Cthulhu e procura vê-los de uma forma diversa. Como se fossem algo real que o autor americano descreveu de forma imperfeita, e que se transforma quando visto por outros olhos. Com isso surgem algumas adaptações brilhantes, como a linguagem perdida Aklo sendo na verdade uma chave neurolinguística que abre portas para outros mundos, consumida como uma droga e levando à aparente demência. O que atrapalha é o tratamento da sexualidade. Se ela estava sublimada no original do pudico Lovecraft, em Moore ela é o motor da trama, mas apresentada na forma da violência sexual. Pior ainda é a reação da heroína da história a essa violência.

Eu conhecia apenas a figura de Valentina, meia dúzia de desenhos e uma ou outra página, quase sempre de conteúdo erótico, fora de contexto. Então, foi uma surpresa ler os dois álbuns reunindo as suas primeiras histórias (“Valentina 65-66” e “Valentina 66-68”, Conrad, 2006-2007) e encontrar o universo de ficção científica criado por Guido Crepax, inicialmente para o herói paranormal Neutron e mais tarde para a coadjuvante que assumiu o papel principal. Melhor ainda foi entender como a Valentina fetichista se encaixava ali, de forma fluida. Crepax explora a atmosfera do fim dos anos 60 lançando mão de todos os recursos disponíveis na narrativa gráfica. A forma como os quadros ditam o ritmo da história, o uso dos detalhes, tudo isso faz de Valentina, a personagem e a série, muito mais que uma fantasia erótica.

(Publicado também no skoob).

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s