Meninos, eu li (26)

Já dá para perceber que “Pornopopéia” (Objetiva, 2009) não vai ser coisa boa logo nas primeiras páginas, quando o narrador se revela como um cineasta. Daí até o fim, só piora. Reinaldo Moraes tenta ser um Henry Miller, um Bukowsky, sei lá. Mas só consegue ser um tiozinho daqueles que ficam contando proezas sexuais inventadas enquanto despeja preconceitos dignos de comentarista de portal de notícias. A virada da primeira para a segunda parte ameaça uma pequena melhora, mas só serve para confirmar o egocentrismo do protagonista, que logo retorna à cansativa rotina de beber e trepar.

Logo no começo, “Leite derramado” (Companhia das Letras, 2009) parece que vai ser uma versão remixada e estendida de “O velho Francisco”, do mesmo Chico Buarque (já gozei de boa vida, tinha até meu bangalô, vida veio e me levou). A diferença é que o romance serve como pano de fundo para uma discussão sobre a memória. Uma memória em crise, não só por causa da idade e da esclerose do narrador, mas porque ela é falha por natureza. E, da mesma forma que a memória, falham a percepção, a racionalidade, todas as ferramentas da mente. Resta a narrativa como refúgio, como maneira de dar sentido ao mundo.

O que há de melhor em “Histórias de cronópios e de famas” (Civilização Brasileira, 1998) é a capacidade de Julio Cortázar de não apenas desnaturalizar o cotidiano (como fazem questão de ressaltar quase todos os críticos), mas também de, ao forçar a repensar a realidade, perceber que ela é múltipla. Assim, as partes aparentemente desconexas do livro se completam: se é preciso pensar sobre a técnica de subir uma escada, então também é possível esbarrar em famas, cronópios e esperanças por aí, dançando trégua e catala.

A maioria dos ensaios de “O cinema e a invenção da vida moderna” (Cosac Naify, 2004) tem muito pouco de cinema. Às vezes, enfiado de qualquer jeito no fim, como se tivesse sido um enxerto para justificar a
inclusão na coletânea de Leo Charney e Vanessa Schwartz. Mesmo assim, vale pelo que mostra sobre a invenção dessa tal de vida moderna. Montagens que põem em xeque a credibilidade da fotografia? Ciência apresentada como espetáculo? Fascinação pelo mórbido? Fragmentação do conhecimento? Essa vida moderna na verdade é praticamente pós-moderna! A conclusão principal da leitura de todo o volume é de que a História, afinal, não mostra o passado, e sim a forma como o presente vê o passado, e que revela muito mais o que somos do que o que fomos.

A melhor coisa da coletânea da Granta com “Os melhores jovens escritores brasileiros” (Alfaguara, 2012) é saber que (alguns d)os melhores mesmo não estão lá. Porque o sabor que fica é de picolé de chuchu. Quase todos os autores selecionados, alguns deles bem fracos, escrevem sem um pingo de ousadia. Salvam-se, nesse aspecto, Cristhiano Aguiar (o que mais me impressionou), Michel Laub, Antonio Xerxenesky e até a Luisa Geisler, que errou muito mas pelo menos arriscou. Impressiona negativamente o fato de que, na média, o jovem escritor brasileiro (conforme os padrões da Granta), além de ser crítico, editor, ou alguém de certa forma ligado ao mundo editorial, também só sabe escrever sobre escritores, tradutores, jornalistas. Falta a capacidade de olhar para fora, de buscar o olhar do outro. Talvez isso tivesse aparecido se os editores não ficassem tão restritos a um universo de autores bem apresentáveis, “com cara de escritor”, como disse o Santiago Nazarian. Fica difícil acreditar que não haja bons escritores negros, e que tão poucos não sejam cariocas, paulistas ou gaúchos, e que quase todos sejam homens.

Temos que reconhecer as boas intenções de Augusto Emílio Zaluar, que em 1875 tentou repetir no Brasil o que Jules Verne vinha fazendo com sucesso na França. “Doutor Benignus” (Editora UFRJ, 1994), porém, fica
longe do modelo. O principal motivo é a falha de leitura do próprio autor, que achou que o mais importante num romance “científico” seria acumular informações sobre a fauna, a flora, a geologia e a etnografia do Brasil. Acabou deixando em segundo plano qualquer preocupação com um enredo minimamente interessante ou personagens capazes de despertar identificação. No fim, precisou de um deus-ex-machina (aliás, machina-ex-machina) para resolver o conflito. Ficou mais improvável que os habitantes do sol cuja existência o Doutor Benignus defende. Se alguém quiser uma boa aventura pelo Brasil do século XIX, é melhor ficar com o original e ler “A Jangada”, de Verne.

“Morte e vida severina” (José Olympio, 1980) deve ser lido como pede seu subtítulo (“e outros poemas em voz alta”). Em primeiro lugar, porque os versos de João Cabral de Melo Neto realmente ganham vida e força quando lidos mesmo que num sussurro. E depois, pela outra e menos explícita afirmação, de que o poema-título deve ser considerado em conjunto com os “outros”. Embora isoladamente já seja uma obra-prima, a história de Severino cresce se vista como clímax de um discurso construído pelas “Paisagens com figuras” e pelos “Dois parlamentos”, cada vez mais desumanizando os personagens até se contrapor à personalização do
Capibaribe em “O rio”.

A visão de Alejandra Pizarnik da história de Erszébet Bárthory, em “A condessa sangrenta” (Tordesilhas, 2011), é de início uma mistura de fascínio e repulsa. Depois, diante dos relatos históricos ou folclóricos sobre a figura da condessa, essa mistura se torna uma espécie de perplexidade, diante da dificuldade de estabelecer limites entre o fato e a ficção. O sangue das donzelas se mostra necessário não apenas para manter a juventude da condessa, mas para alimentar a lenda. Afinal, é preciso que seja uma lenda, porque a alternativa de que seja tudo verdade – de que a crueldade humana seja de fato tão intensa – é inaceitável. Assim, quanto mais terrível a história, mais o horror se sacia na ficção e se afasta da realidade. As ilustrações de Santiago Caruso acompanham a reflexão, com os vestidos impossivelmente brancos da protagonista pedindo para serem tingidos de vermelho numa explosão grotesca.

Eugenio Colonnese foi absolutamente fiel ao original na sua adaptação de “Drácula” (Escala, 2010). Fiel demais. Esse é o problema num álbum que, para condensar o livro de Bram Stoker em cem páginas de quadrinhos, recorre a artifícios como intercalar páginas de texto (as cartas de Lucy e Mina, o diário de bordo do Deméter). Uma opção por menos texto e mais narrativa gráfica, mesmo deixando de lado parte do conteúdo, teria melhorado a fluidez. Na arte, a predominância dos tons escuros foi uma escolha um pouco óbvia mas que funcionou bem. Os extras, com uma história dos quadrinhos de vampiro, foram uma boa surpresa.

Eu nunca tinha sequer ouvido falar do videogame em que “Pandora, a namorada do Death Jr.” é baseado antes de ver a revista na banca. Mas, pelo menos neste mangá, os personagens tem carisma. A história de Hai segue as regras básicas de qualquer grupo de aventureiros, juntando os nerds, o louquinho, etc. (alguns deles muito bem bolados), para depois jogá-los contra uma vilã e seus asseclas, exigindo um crescimento moral para obter a vitória. Nada de marcante, mas um entretenimento bem realizado. Funciona para os adolescentes a que é direcionado.

A primeira coisa a ser dita sobre “Erma Jaguar” (L&PM, 2012) é que a sua protagonista é um mulheraço. Com tudo. Alex Varenne convence porque as aventuras eróticas de Erma não parecem direcionadas à satisfação do olhar de um leitor-voyeur. Ao contrário, dão a impressão de que ela de fato é sujeito de seu desejo – embora no fim não seja exatamente isso.

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s