Meninos, eu li (25)

A leitura de “a máquina de fazer espanhois” (Cosac Naify, 2011) demorou um pouco a engrenar, mas depois do segundo ou terceiro capítulo começou a fluir que foi uma beleza. Os velhinhos do valter hugo mãe recuperam os temas principais de Fernando Pessoa, especialmente partindo do “Tabacaria”, que serve de contraponto ao romance, e conduzem uma reflexão sobre a sociedade portuguesa, perdida entre uma saudade do salazarismo e uma perplexidade diante do mundo contemporâneo, que aos poucos transborda da lusitanidade para uma experiência universal. É aí que o tema da morte passa a predominar, deixando ainda mais direta a identificação com os personagens. Ainda mais porque o autor escapa daquela armadilha do sentimentalismo luso, fadista, anedótico; não que fuja da melancolia, mas torna a relação com a melancolia uma coisa diferente.

“A parábola do cágado velho” (Nova Fronteira, 2005) é justamente o que o título promete: uma parábola. Fiel a esse princípio, Pepetela batiza seu protagonista de Ulume (“o homem”) e sua personagem feminina principal de Munakazi (“a mulher”). Ulume atravessa as páginas do romance dividido entre a obediência à tradição e a necessidade de se adaptar às mudanças na sociedade angolana, seja na língua, nos costumes, nas relações sociais. Não é simplesmente uma questão de resistir à mudança: é que o mundo novo dos moradores da cidade grande também não entrega o que promete. Então, a solução tanto para Ulume quanto para Pepetela é tentar extrair de cada lado o que melhor se aproveite em cada situação.

Não precisava de Itabira, nem de pedra no caminho, nem de José, nem de quadrilha. Bastaria ter escrito “A rosa do povo” (Record, 20ª edição, 1999) para Drummond ser reconhecido como o maior poeta brasileiro de todos os tempos. Está tudo ali. O funcionário do MEC que ao fim de uma noite na repartição descobre a possibilidade de “uma coisa bela” resume um percurso mais longo que começa com a reação à II Guerra Mundial (“este é um tempo de partidos/tempo de homens partidos”) e, quando recorre à poesia, o faz não porque ela traga beleza, porque afinal a rosa que brota do asfalto é feia, mas ela existe. E, existindo, seca e murcha que seja, é a vida possível.

O curioso em Almeida Fischer é que seus contemporâneos criticavam nele aquilo que hoje parece justamente seu ponto forte – o flerte com o fantástico e o surrealismo, que nesse “A ilha e outros contos” (MEC, 1954) dá as caras apenas no conto “O mastro”, sobre um perna-de-pau que se habitua a viver nas alturas e abandona o convívio com os homens comuns. Quando tenta ser sério e realista, fica preso a dramas da classe média dos anos JK, cujos conflitos existenciais não dizem quase nada ao leitor de hoje. Em resumo, envelheceu mal.

Eu tenho que deixar registrado o meu profundo respeito pelos amigos advogados e estudantes de Direito, que precisam enfrentar coisas como esse “Termo de ajustamento de conduta” (Editora Jurídica, 2006). Mas também é em parte culpa deles se autores como Jerônimo Jesus dos Santos acham que sabem escrever. O que se aproveita realmente são os anexos com modelos e exemplos, porque a parte teórica da obra poderia ser resumida à introdução. O resto ou é digressão sobre temas genéricos ou esmiuçamento de questões extremamente específicas.

Publicado, provavelmente, para aproveitar o sucesso da aventura do Homem-Aranha nos anos 30, “Homem de Ferro Noir” (Panini, 2012) não tem, entretanto, absolutamente nada de noir. O Tony Stark alternativo criado por Scott Snyder é muito mais um cyberpunk tardio. A mudança de cenário faz bem ao personagem – como acontece em geral com heróis de poderes diminuídos, em vez de aumentados como costumam fazer as editoras. A melhor personagem, porém, acaba sendo mesmo a Pepper Potts em versão ghost-writer.

Acho que foi Arnaldo Branco quem disse que gibi de super-herói é como filme pornô: tem um fiapo de história para justificar as cenas de sexo explícito, num caso, ou de pancadaria, no outro. “Mulher-Gato: Cidade eterna” (Panini, 2012) é quase um meio-termo, já que usa qualquer pretexto para mostrar Selina Kyle seminua ou em seus uniformes fetichistas, o que dá quase no mesmo. O argumento, em diversos momentos, leva o leitor a duvidar de que está entendendo direito, tamanha é a falta de coerência, que irrita ainda mais quando envelopada em alguma pretensão de quadrinho sofisticado.

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