Meninos, eu li (23)

Perdi boa parte do impacto que “Lugar Nenhum” (Conrad, 2007) deveria ter me causado. Em primeiro lugar, já tinha lido boa parte da versão em quadrinhos publicada na Vertigo. Depois, porque não conheço Londres, e tanto o mapa quanto a história da cidade são elementos fundamentais da história. Mesmo assim, foi possível apreciar a aventura de Richard Mayhew e Lady Porta pelo mundo subterrâneo. O que me pareceu mais interessante foi identificar em “Lugar Nenhum” muitos dos personagens (ou pelo menos traços característicos), situações, tramas e outros elementos que Neil Gaiman desenvolveria de maneira bem mais satisfatória em “Deuses americanos”. Esse, talvez, foi o terceiro e mais importante redutor de impacto: foi como testemunhar o ensaio geral depois de já ter visto a obra acabada.

O que há de melhor nesse “O Romance de Amadis” (Martins Fontes, 2008) não é tanto o trabalho de reconstituição do original medieval de João de Lobeira, feito na medida do possível por Affonso Lopes Vieira. O romance vale mais pelo que reflete e pelo que não diz, no seu capítulo crucial. Amadis, depois de salvar a donzela Briolanja, é por ela obrigado a trair sua amada Oriana, a sem-par, segundo quis el-rei Dom Afonso que Lobeira narrasse; mas Lobeira chama a atenção para o fato de que na verdadeira história isso não aconteceu, e Amadis se manteve fiel. A traição que não houve (ou que pode ter havido, se acreditarmos mais no pragmatismo do rei do que no idealismo do trovador), e que desencadeia uma série de eventos e peripécias, é, quer Lobeira pretendesse dizer isso ou não, uma reflexão sobre as relações entre o poder, a arte e a verdade.

Eu boiei em mais de metade de “Desigualdade reexaminada” (Record, 2001). Faltou conhecimento de teoria econômica para acompanhar boa parte do raciocínio de Amartya Sen. Isso não impediu de aproveitar as perguntas iniciais, que orientam todo o livro e que basicamente terminam sem resposta: afinal, igualdade de quê? igualdade em quê? Além de bombardear certezas, como todo bom autor deve fazer, Sen aponta caminhos interessantes, por exemplo, quando identifica a defesa da liberdade como uma forma de defesa da igualdade (e vice-versa).

As três coleções de poesia reunidas nesse volume (Le Livre de Poche, 1980) são um dos casos em que a biografia explica a obra mas depois a obra explica melhor ainda a biografia. Verlaine bebia e batia em Mathilda. Verlaine traiu Mathilda – com Rimbaud! Mas Mathilda certamente só tomou a decisão de se separar de Verlaine e, principalmente, de nunca mais aceitá-lo de volta, depois de comparar os poemas escritos para ela (de “La bonne chanson”) com os inspirados pelo amante (“Romances sans paroles”). Verlaine sai de um idílio açucarado para uma torrente de paixão e verve que é para acabar com qualquer casamento mesmo. Depois disso, sem Rimbaud nem Mathilda, ele ainda tenta se refugiar no amor a Deus (“Sagesse”), mas nem Deus ganha poemas tão bons quanto os da fase pecaminosa. Eu apostaria que Verlaine foi para o inferno. E lá deve ter encontrado Rimbaud. Final feliz, dansons la gigue.

Mesmo para uma história em quadrinhos de super-heróis dos anos 70, “Superman vs. Muhammad Ali” (Panini, 2011) é tosca. Ridícula mesmo. Neal Adams força a credibilidade do leitor além de qualquer limite. Não falo aqui de bobagens como façanhas fisicamente impossíveis: isso vai de barato no que, repita-se, é um gibi do Super-Homem. Mas a total implausibilidade de todo o argumento (que já começa pelo pretexto criado para transformar Ali em personagem e fazê-lo exibir sua técnica ao longo de uma página de “treinamento”) parece se alimentar de si mesma, sem limites. No fim, a salvação da Terra é obtida convencendo-se os extraterrestres de todas as galáxias de que o ser humano não é violento e, quando luta, sempre o faz com honra. Isso logo depois de o Super-Homem se passar por outra pessoa para poder destruir uma frota inteira de alienígenas.

Gosto mais da Liga Extraordinária do que dos Vingadores. Ou da Liga da Justiça. Ou dos dois juntos. Isto posto, “The League of Extraordinary Gentlemen – volume 2” (Wildstorm, 2004) é uma continuação estranha. O que tem de bom é justamente o que tem de pior: o fato de os heróis vitorianos estarem perdidos a maior parte do tempo, quase impotentes diante da Guerra dos Mundos. Enquanto eles são usados como peões pela inteligência britânica, o que sobra para agitar as páginas é justamente aquilo que Alan Moore sabe fazer melhor – explorar as relações entre os personagens, ou mais exatamente as relações de cada um com Mina.

“Astro City – Vida na cidade grande” (Pandora, 2002), assim como “The League”, também é um falso gibi de super-herói. Ou melhor, é o que deveria ser um bom gibi de super-herói. O Samaritano, Crackerjack, Vitória Alada e outros fazem o que se espera deles: capturam bandidos, protegem os inocentes, enfrentam o mal, salvam o mundo. Porém, Kurt Busiek subverte os cânones e dá não apenas a voz mas também o ponto de vista a pessoas comuns. Mesmo quando os heróis são os personagens principais, “Astro City” fala muito mais sobre pessoas do que sobre poderes. Sobra espaço até para reflexões sobre feminismo, no meio do diálogo entre Vitória Alada e Samaritano, na história que encerra a coletânea.

Outro engambelo, e dos bons. “Sandman apresenta: Destino” (Panini, 2012) quase não mostra o personagem-título. Em vez disso, conta a história do cavaleiro da Peste e da devatsação que ele traz, primeiro na Constantinopla de Justiniano, depois na Inglaterra medieval e por último nos Estados Unidos de 2000 (vistos de 1990, portanto um futuro do pretérito). Ninguém sente falta. John Ryder (apesar da excessiva “sacada” no nome) e principalmente a rancheira Ruth Knight (mais uma referência dispensável) são personagens que despertam o interesse do leitor. O fim pareceu mal resolvido, como se a autora tivesse ficado com medo de explorar os conflitos. A arte (de Kent Williams, Michael Zulli, Scott Hampton e Rebecca Guay, dando estilos diferentes a cada período da história) funciona muito bem.

(Publicado também no skoob).

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