Meninos, eu li (22)

A edição que li de “O gene egoísta” foi a de 2001, da Itatiaia, tradução do original de 1976. Parece que Richard Dawkins, numa edição recente, se desculpou pelas interpretações conservadoras dos seus conceitos. Mas, francamente, o que ele esperava? Na hora em que atribuiu uma atitude essencialmente moral (e portanto humana) aos genes, e a responsabilizou pelo sucesso evolutivo – em última análise, pelo fato de existirmos -, ele não apenas legitimou-a mas a transformou em virtude. Metaforicamente, é claro, mas é o que basta considerando-se que a batalha das ideias se dá sempre num plano simbólico. Existiam dúzias de outros adjetivos que poderiam caracterizar o gene bem-sucedido. A escolha da metáfora foi uma escolha política, por mais que o autor tenha se arrependido dela. Se você não quer que as pessoas sejam egoístas, não diga que o egoísmo é uma coisa boa para elas. Tudo isso acabou escondendo o que há de mais interessante no livro, que é a teoria dos memes no último capítulo, igualmente prejudicada pela infeliz caracterização deles como “egoístas”.

O que mais chama a atenção em “Palestina: uma nação ocupada” (Conrad, 2011) é o aspecto formal, ou seja, o uso de uma história em quadrinhos como forma de reportagem. Não que isso seja novidade: antes do Joe Sacco, já tinha sido feito algumas vezes. Robert Crumb, por exemplo, teve seus momentos jornalísticos, e Art Spiegelman também experimentou o estilo. Mas, pelo menos que eu tenha visto, esta série foi a mais bem acabada tanto como jornalismo quanto como narrativa gráfica. O trabalho de repórter é irretocável – dando voz aos entrevistados, contexto aos leitores e ponto de vista pessoal quando necessário para pontuar a história.

A leitura de “Esquin de Floyrac: o fim do templo” (Record, 2007) me fez refletir sobre algumas questões. A mais importante delas: por que, POR QUE eu perdi meu tempo com um tijolo de 650 páginas tão ruim? Talvez pelo mesmo motivo que tenha me levado a começar a ler, apesar de o primeiro volume da trilogia ter sido medíocre, e o segundo, execrável. Eu queria acreditar que haveria alguma redenção possível. Não há. Na trama mais desinteressante da série, Rodrix repete os erros: diálogos e monólogos que vomitam clichês de auto-ajuda pseudoespiritualizados, repetidos por personagens caricatos (especialmente os vilões). O samba do maçom doido mistura templários, pedreiros e mendigos (estes, pintados como os maiores bon-vivants do mundo) na tentativa de escrever a História da maçonaria, com um proselitismo descarado. Ainda por cima, os heróis do Templo consideram a homossexualidade como a maior das vergonhas e veem as mulheres meramente como objetos sexuais ou reprodutoras. BÔNUS: Troféu Doutor Terror de uso mais tosco do tarô como recurso narrativo.

“Fazes-me falta” (Alfaguara, 2011) é uma dolorida sinfonia da perda. Melhor ainda, é uma cantata e fuga para duas vozes. Não sei se é como foi pensado pela @inespedrosa_pt, mas o romance começa como uma elaboração de luto pela morte de uma pessoa e se desenvolve (especialmente do meio para o fim) como terapia de ultrapassagem da morte de um amor, discutindo as possibilidades de se sobreviver a ele. É nessa hora, quando se percebe que os narradores estão falando de rompimentos e separações, que tudo faz sentido e os sentimentos desabam. Lindo, lindo, lindo.

Eu não vou me atrever a falar mal de “Rei Emir Saad – O monstro de Zazarov” (2011) porque prezo a minha vida. E os meus órgãos vitais, e os não vitais também. Aliás, eu nem quero saber qual foi o destino dos funcionários da LeYa e da Barba Negra que deixaram passar algumas tirinhas repetidas, além de (aparentemente) errar a sequência de publicação de outras. Repito: essas falhas não diminuem em nada minha admiração pelo bom Emir. Divertido como uma execução de rebeldes por esquartejamento.

O melhor de um romance tão multifacetado quanto “Minha querida Sputnik” (Objetiva, 2003) é a variedade de leituras que ele permite, conforme a chave de interpretação que se pretenda. Para mim, por exemplo, o fio condutor quase invisível do texto é a pergunta que Miu/Sputnik faz a Sumire e que mais tarde Sumire repete a K. – qual é a diferença entre um signo e um símbolo. Todo o jogo de replicações e inversões a partir daí serve apenas para responder à pergunta. Sim, isso foi um chute semiológico, sem um pingo de vergonha, só porque eu queria escrever alguma coisa inteligente. Mas até esse chute pode ser interpretado como uma camada a mais de interação signo-símbolo. Como queríamos demonstrar.

(Publicado também no skoob)

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