Arquivo do mês: maio 2012

Criptoetimologia (54): Bergamota

“Tangerina”, como se sabe, quer dizer “oriunda de Tânger”. As frutas vinham do Marrocos e foram chamadas inicialmente de “laranjas tangerinas”. Mas e “bergamota”, como se diz no Rio Grande do Sul?

A hipótese que deriva o nome da expressão turca “beg armúdi” (literalmente “pêra do príncipe”) exige um certo esforço de imaginação: que alguém, algum dia, tenha considerado a tangerina uma espécie de pêra. Um duplo twist carpado etimológico, digamos assim.

A verdade é que quem levou as primeiras tangerinas (vindas do Marrocos, decerto) ao sul do Brasil foram mercadores italianos, em sua maioria da cidade de Bérgamo. “Bergamotos” era como os gaúchos se referiam a esses comerciantes, de forma mezzo afetiva, mezzo pejorativa. E as tangerinas se tornaram bergamotas.

As restrições às importações trazidas pelos italianos, aliás, foram o principal motivo da Revolta da Bergamota, em 1836. Até então, no Rio Grande do Sul eram igualmente usados os dois nomes, “tangerina” e “bergamota”. Este, a partir do conflito, ficou tão associado à fruta que acabou prevalecendo.

143, 144, 145, 146…

hermes.jpg O pessoal com mais tempo de serviço (“idade”, em funcionalês) talvez se lembre de “Quem está guardando essa erva?” (“Who’s minding the mint?”), comédia de 1967 com Milton Berle. Jim Hutton faz o papel de Harry Lucas, um funcionário da casa da moeda americana que enfrenta a dura marcação do seu chefe, Samson Link (David J. Stewart) e por causa de um descuido acaba tendo que imprimir dinheiro às escondidas para cobrir um desfalque.

Logo no começo, Link desconfia (equivocadamente) de que alguma coisa está errada e ordena uma auditoria nos arquivos de Lucas. O auditor responsável não só constata a total lisura do funcionário como elogia seus números, ressaltando como os quatros são desenhados nitidamente diferente dos noves, por exemplo, o que é deveras importante, porque afinal, nove é cinco a mais do que quatro; já alguns outros servidores, aponta (e aqui fica a insinuação de que a crítica é ao próprio Link) são descuidados, fazendo quatros que parecem noves.

Claro, esse filme é do tempo em que relatórios eram feitos na mão. Hoje, trabalhando nos seus computadores (aqui ou nos EUA), ninguém dá mais tanta importância a desenhar quatros que não se confundam com noves. Até cair na sua mão um processo de duzentas páginas que precisam ser carimbadas e numeradas uma a uma.

Lá pela página 143, quando você mesmo não entende que número é aquele que escreveu, vem a sensação de que curso de Caligrafia deveria contar como capacitação.

Estamos de luto

O negócio é que desse jeito vai ficar complicado para cumprir as metas semestrais de bom astral.

É o relatório.

Biblioteca de Babel (80): 53 começos e 2 fins

Vendo que jamais conseguiria concluir a contento sequer um dos 53 romances cujos primeiros capítulos havia escrito, preferiu reuni-los num só volume a corrompê-los com desenvolvimentos insatisfatórios.

A maioria é bem curta. Às vezes, apenas uma ou duas frases. Mas que começos! No nível de um Kafka, de um Melville.

Completam a coleção dois epílogos para histórias cujos inícios jamais conseguiu esboçar.

Dramatis Personæ (150): Lourival Batista

Mais de quarenta anos ao microfone (primeiro no rádio, depois na TV) o consagraram como o maior locutor esportivo do país.

Seu timbre carregado de emoção, seu ritmo, suas expressões peculiares, sua rapidez de raciocínio tornavam cada transmissão um espetáculo. Até mesmo os jogos mais desinteressantes ganhavam ares épicos na sua voz.

Começou a explorar seu talento de outras formas, gravando narrações para vinhetas, documentários, trailers.

Os cachês mais altos, porém, são para narrar relações sexuais. Apimenta transas descrevendo ao vivo as ações, reações e contorções, lançando mão dos seus bordões como “é lá, é lá, é lá” e “vai que tá gostoso”. Uma vez por semana, atua como locutor numa casa de suingue.

100.000

Obrigado.

Sem pobrema

Ideia dela.

Biblioteca de Babel (79): Manuais de Desaprendizado

A coleção atualmente abrange 178 volumes, com guias passo a passo, detalhados e fartamente ilustrados, que ensinam como perder diversos conhecimentos e habilidades: de línguas (43 deles, incluindo inglês, aramaico e dinamarquês) a mecânica de foguetes, de lapidação de gemas a criptografia.

A ambição dos editores é publicar um volume definitivo, com a técnica para desaprender qualquer coisa. Tal livro, porém, ainda que seja possível, será inócuo: quem aprender a técnica que ele ensina irá esquecê-la imediatamente e não será capaz de utilizar o conhecimento para esquecer outras coisas.

Postais do Exílio (98): Interponte

Para aumentar a integração e promover os contatos entre os moradores das duas margens do rio que corta a cidade de Soante, o prefeito mandou construir não apenas uma, mas duas pontes.

Os problemas, porém, continuaram. Cedo uma distinção se estabeleceu entre os que utilizavam mais frequentemente a Ponte Norte e os que preferiam a Ponte Sul. A ponto de surgirem desavenças entre “sulistas” e “nortistas”.

Construiu-se, então, uma terceira ponte, ligando uma ponte à outra, para promover a paz.

Postais do Exílio (97): Caverna Astronômica

No teto abobadado do seu imenso salão principal foram instaladas milhares de pequenas lâmpadas. A posição e a intensidade do brilho, astronomicamente corretas, reproduzem o céu como seria visto da superfície no céu de equinócio, caso a poluição luminosa das cidades vizinhas não tivesse ofuscado tantas estrelas.

Dramatis Personæ (149): Turana Doll

Seu último projeto multimídia, o mais ambicioso da sua carreira, é também o de maior orçamento. Para concluir a obra, precisará, entre outras coisas, coletar materiais na Lua, gravar uma orquestra sinfônica na Antártida e incendiar uma plantação de açafrão.

O único meio que encontrou de arrecadar os fundos necessários foi vender seu corpo. Em partes.

Cada financiador recebe um certificado que lhe garante a posse de uma parte do corpo da artista, a ser entregue logo depois que ela morrer (sem obrigações de prazo, contudo). Os órgãos serão entregues em perfeito estado de conservação, podendo ser usados para transplante, alimentação, mera exposição ou de qualquer outra forma que o comprador desejar.

O cérebro, naturalmente a parte mais cobiçada, foi dividido em lotes. O mais caro foi o lobo occipital esquerdo.

Faltam apenas três dedos e o baço para completar o orçamento.

Postais do Exílio (96): Monumento aos Vivos

Em Panacará há um parque com estátuas representando toda a população da cidade.

Cada vez que nasce um bebê, seus pais são responsáveis por incluir uma estátua representando-o.  Algumas permanecem assim; outras são substituídas por estátuas de crianças, adolescentes, jovens, adultos e velhos, à medida que o homenageado cresce e providencia a atualização do monumento. Nem todo mundo, porém, se preocupa com isso e a média de idade representada no parque é bem menor que a real.

Também há os que deliberadamente se passam por mais jovens ou mais velhos do que são; assim como os falsos heróis, montando cavalos e desembainhando espadas que só existiram no bronze e na imaginação. Ou os poetas que, ao menos nas suas estátuas, ganham coroas de louros.

Uma coisa, porém, é comum a todas as estátuas: quando os seus representados morrem, são destruídas sem clemência.

Meninos, eu li (22)

A edição que li de “O gene egoísta” foi a de 2001, da Itatiaia, tradução do original de 1976. Parece que Richard Dawkins, numa edição recente, se desculpou pelas interpretações conservadoras dos seus conceitos. Mas, francamente, o que ele esperava? Na hora em que atribuiu uma atitude essencialmente moral (e portanto humana) aos genes, e a responsabilizou pelo sucesso evolutivo – em última análise, pelo fato de existirmos -, ele não apenas legitimou-a mas a transformou em virtude. Metaforicamente, é claro, mas é o que basta considerando-se que a batalha das ideias se dá sempre num plano simbólico. Existiam dúzias de outros adjetivos que poderiam caracterizar o gene bem-sucedido. A escolha da metáfora foi uma escolha política, por mais que o autor tenha se arrependido dela. Se você não quer que as pessoas sejam egoístas, não diga que o egoísmo é uma coisa boa para elas. Tudo isso acabou escondendo o que há de mais interessante no livro, que é a teoria dos memes no último capítulo, igualmente prejudicada pela infeliz caracterização deles como “egoístas”.

O que mais chama a atenção em “Palestina: uma nação ocupada” (Conrad, 2011) é o aspecto formal, ou seja, o uso de uma história em quadrinhos como forma de reportagem. Não que isso seja novidade: antes do Joe Sacco, já tinha sido feito algumas vezes. Robert Crumb, por exemplo, teve seus momentos jornalísticos, e Art Spiegelman também experimentou o estilo. Mas, pelo menos que eu tenha visto, esta série foi a mais bem acabada tanto como jornalismo quanto como narrativa gráfica. O trabalho de repórter é irretocável – dando voz aos entrevistados, contexto aos leitores e ponto de vista pessoal quando necessário para pontuar a história.

A leitura de “Esquin de Floyrac: o fim do templo” (Record, 2007) me fez refletir sobre algumas questões. A mais importante delas: por que, POR QUE eu perdi meu tempo com um tijolo de 650 páginas tão ruim? Talvez pelo mesmo motivo que tenha me levado a começar a ler, apesar de o primeiro volume da trilogia ter sido medíocre, e o segundo, execrável. Eu queria acreditar que haveria alguma redenção possível. Não há. Na trama mais desinteressante da série, Rodrix repete os erros: diálogos e monólogos que vomitam clichês de auto-ajuda pseudoespiritualizados, repetidos por personagens caricatos (especialmente os vilões). O samba do maçom doido mistura templários, pedreiros e mendigos (estes, pintados como os maiores bon-vivants do mundo) na tentativa de escrever a História da maçonaria, com um proselitismo descarado. Ainda por cima, os heróis do Templo consideram a homossexualidade como a maior das vergonhas e veem as mulheres meramente como objetos sexuais ou reprodutoras. BÔNUS: Troféu Doutor Terror de uso mais tosco do tarô como recurso narrativo.

“Fazes-me falta” (Alfaguara, 2011) é uma dolorida sinfonia da perda. Melhor ainda, é uma cantata e fuga para duas vozes. Não sei se é como foi pensado pela @inespedrosa_pt, mas o romance começa como uma elaboração de luto pela morte de uma pessoa e se desenvolve (especialmente do meio para o fim) como terapia de ultrapassagem da morte de um amor, discutindo as possibilidades de se sobreviver a ele. É nessa hora, quando se percebe que os narradores estão falando de rompimentos e separações, que tudo faz sentido e os sentimentos desabam. Lindo, lindo, lindo.

Eu não vou me atrever a falar mal de “Rei Emir Saad – O monstro de Zazarov” (2011) porque prezo a minha vida. E os meus órgãos vitais, e os não vitais também. Aliás, eu nem quero saber qual foi o destino dos funcionários da LeYa e da Barba Negra que deixaram passar algumas tirinhas repetidas, além de (aparentemente) errar a sequência de publicação de outras. Repito: essas falhas não diminuem em nada minha admiração pelo bom Emir. Divertido como uma execução de rebeldes por esquartejamento.

O melhor de um romance tão multifacetado quanto “Minha querida Sputnik” (Objetiva, 2003) é a variedade de leituras que ele permite, conforme a chave de interpretação que se pretenda. Para mim, por exemplo, o fio condutor quase invisível do texto é a pergunta que Miu/Sputnik faz a Sumire e que mais tarde Sumire repete a K. – qual é a diferença entre um signo e um símbolo. Todo o jogo de replicações e inversões a partir daí serve apenas para responder à pergunta. Sim, isso foi um chute semiológico, sem um pingo de vergonha, só porque eu queria escrever alguma coisa inteligente. Mas até esse chute pode ser interpretado como uma camada a mais de interação signo-símbolo. Como queríamos demonstrar.

(Publicado também no skoob)

Gugleiros (90)

As melhores buscas entre os visitantes do Almanaque no mês de abril:

Domingo, 1 -sonhar com cupim dentro do armario
It gets better.

Segunda, 2 -levando em conta o que foi apresentado no capitulo você concorda com a afirmação bacteria boa é bacteria morta?
Boa pra quem?

Terça, 3 -“minha bunda é um gorila”
A da Mulher Melancia, então, é o próprio King Kong.

Quarta, 4 -creolina serve para matar pulgas no local
Em outro local é que não deve matar, né?

Quinta, 5 -bichinhos em ovo de galinha
Chamam-se “pintos”.

Sexta, 6 -bacteria que matou beto carrero
E o Sarney aí, vivinho. Ops, desculpe, baixou o Tas aqui mas foi sem querer.

Sábado, 7 -imagens do mundo da biologia
É um parque temático?

Domingo, 8 -parábolas curvas
Todas. Não existem parábolas retas.

Segunda, 9 -rimas para cantar para meninos que cagarão nas calças
Vaca amarela.

Terça, 10 -sonho com a estrela de davi em azul e cantar em hebraico dias quarta e sexta feira
Então canta assim: “Eu vi a estrela de Davi brilhar no céu, fui testemunha do amor de Rapunzel, e praquele que provar que eu estou mentindo eu tiro o meu chapéu”.

Quarta, 11 -gravuras com a letra o
É importante não confundir com aquelas que tem o número zero.

Quinta, 12 -o que e sonhar comendo minhocas,lacraias, minhocas e orelha de porco
O que me intriga é comer minhocas duas vezes.

Sexta, 13 -amai o teu inimigo como se fosse
…aquela gostosa do terceiro andar que você fica olhando trocar de roupa que eu sei.

Sábado, 14 -bace nogau
Calinaru tolomega ton-ton.

Domingo, 15 -porno dezesenho com elefante
Estrelando: Formiguinha.

Segunda, 16 -15 especies de fungos no brasil
A pior é quando você acorda de nariz entupido, fungando, e não tem papel higiênico perto.

Terça, 17 -oque se deve fazer para o morsego não morder bizerras com 4 mes entre cinco na manguera
Guirlandas de alho. Não falha.

Quarta, 18 -queimar o sensor da biometria
Olha o espertinho querendo chegar tarde no trabalho. Coisa feia.

Quinta, 19 -um vaqueiro chega numa cidade na sexta-feira, fica por tres dias
charada: um vaqueiro chega numa cidade na sexta feira, fica por tres dias
charada um vaqueiro chega numa cidade na sexta feira, fica por tres dias

Charada: Três gugleiros chegam no Almanaque, não encontram o que procuram.

Sexta, 20 -pessoas se alongando
A Inquisição era boa nisso.

Sábado, 21 -panfletos evangelicos para analfabetos
Pra ficar pior ainda.

Domingo, 22 -pq ninguem gosta do marcio silva
Como assim? Eu gosto, ele é gente boa.

Segunda, 23 -funeraria ja fui
Ótimo nome.

Terça, 24 -dor de barriga não dá só uma vez
Quem dera.

Quarta, 25 -larva de bundinha pretaem alface
Não é a bundinha, é a cabeça e ela só anda de ré.

Quinta, 26 -cadeia alimentar plantas, garfanhoto galinha ser humano qual é o papel da galinha
Pode ser à cabidela ou xinxim.

Sexta, 27 -exercicios de piramides poema batatinha quando nasce se esparrama pelo chao
A não ser que você plante a batatinha no alto da pirâmide.

Sábado, 28 -músculos relevantes do braço
Dependendo do que você faz com o braço, nenhum deles é relevante.

Domingo, 29 -o bicho da goiaba nasce espontaneamente da goiaba qual teoria sobre a origem da vida tem explicaçao semelhnates oq o cientista faz? p
Senta e chora.

Segunda, 30 -empresas que empregam carpinteiro em são gonçalo do amarante ceará
Boa sorte.


E as dez expressões mais procuradas do mês foram:

almanaque 123
tigre de bengala 34
tigre 21
dia do inimigo 18
bicho geométrico 14
sonhar com lacraia 12
tigres de bengala 11
unhas com desenhos de bichinhos 10
o que é almanaque 9
chafariz 8