Meninos, eu li (21)

É difícil escrever um comentário de “Os duelistas” (L&PM Pocket, 2008) que não seja junguiano. Parece até que Joseph Conrad escreveu a história com um manual de Psicologia Analítica debaixo do braço. Os confrontos de D’Hubert (que nem por um instante deixa dúvidas quanto a quem é o personagem principal, o representante da razão contra os instintos animais, da civilização contra a barbárie) e Feraud são um caso clássico de conflito entre Persona e Sombra. Até mesmo a sucessão das armas (espada, sabre, habilidades de sobrevivência, pistolas – para não falar no outro duelo, o permanente, das manobras políticas) é uma forma de ilustrar a variação dos arquétipos. Vai assim até a resolução, com D’Hubert absorvendo Feraud e com isso tornando-se capaz de finalmente ser inteiro, casar-se com a mocinha, reconciliar-se consigo mesmo, ser feliz. Só faltou receber alta do terapeuta.

Não tenho muito o que dizer de “Mr. Punch” e “Sinal e Ruído” (Conrad, 2010 e 2011 respectivamente). Neil Gaiman e Dave McKean são como Lennon e MacCartney, Ginger e Fred, Bebeto e Romário. O que mais impressiona não é o talento imenso de cada um, que já não seria pouca coisa. É o fato de os dois se completarem em total harmonia e, ainda por cima, encontrarem jeitos diferentes de fazer isso. “Mr. Punch” é bizarro, sombrio. Como disse  a Ale, é para nos lembrar como a infância é macabra. “Sinal e Ruído” é poético, filosófico. Por um momento eu pensei como teria sido se eles realmente criassem uma história sobre o Milenarismo, mas depois vi que aquela era a história possível (e relevante) a ser contada. Não digam isso para Mr. Punch, mas preferi o conto do cineasta.

Quatro anos de serviço público, e eu só comecei a entender de fato o que faço depois de ler “Os donos do poder” (Folha, 2000). Raymundo Faoro foi buscar na Idade Média, praticamente na fundação do reino português, a origem do Estado patrimonialista e do estamento burocrático. Lá estava o João das Regras (esse nome é uma piada pronta) a encontrar o argumento jurídico para o país ser propriedade do rei e fundar uma casta de rábulas. A associação entre os dois surfa tranquilamente sobre as ondas das mudanças econômicas. Depois de 600, 700 anos de variações sobre o mesmo tema, reformas cosméticas para manter tudo como está, e uma fraude permanente no abismo que separa o país legal do país real, chega a dar um certo desespero. É como uma versão sociológica de “1984”: se você quer ver um retrato do passado, imagine uma máquina de manutenção do poder — para sempre.

Depois de “O senhor do lado esquerdo” (Record, 2011), não tenho medo de dizer: Alberto Mussa é o melhor escritor carioca hoje. O “Romance da Casa das Trocas” ameaça repetir o bom “O trono da rainha Jinga”, com uma trama policial com toques de misticismo ambientada no Rio Antigo, apenas com diferença de alguns séculos. Mas logo as histórias e anedotas paralelas (melhor: tangentes) começam a lembrar outro livro de Mussa, “O enigma de Qaf”. E, assim como “O movimento pendular”, flerta com teorias pseudocientíficas sobre amor e sexo. O resultado dessa mistura é uma obra que burla os falsos limites de gênero — e “gênero” aqui é tanto o literário quanto o masculino/feminino. Carioca, eu disse, e tão carioca que é universal. E o epílogo, okê okê!, arrepia dos pés à cabeça.

Existe coisa mais fofa e delicada do que “A Arca de Noé” (Cia. das Letras, 1991)? Nem um erro grosseiro da editora neste exemplar, com inversão da ordem das páginas no primeiro poema, foi capaz de estragar. Eu sou da geração que não consegue ler “O Pato”, “A Casa”, “São Francisco” sem cantar, pelo menos dentro da cabeça, as músicas de Toquinho. Viraram cantiga de roda, parecem ter sempre existido, serem domínio público. No papel, sempre se força um pouco mais a procura de outras camadas, que sempre existem em se tratando de Vinícius de Moraes. Mas nem precisa. Cantar já basta.

O último do mês foi “A orelha de Van Gogh” (Companhia das Letras, 1993). Moacyr Scliar era mestre do conto, e mais ainda do microconto. Subvertia as narrativas bíblicas e mitológicas, tirando o chão dos pés do leitor (que só então descobria que já estava de cabeça para baixo há muito tempo). No caso de um contista, é meio clichê elogiar a concisão, a economia de meios, mas nesse caso não tem como evitar. Cada conto é uma pequena preciosidade, e mais ainda quando se vê que só poderia existir daquela forma.

(Publicado também no skoob)

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