Meninos, eu li (20)

Seis álbuns do Robert Crumb (editora Conrad) de uma vez, para aproveitar uma promoção. Promoção também no Almanaque: seis resenhas no mesmo parágrafo. Porque a vantagem foi ler todos os seis livros como se fosse uma coisa só, uma grande antologia de Crumb. O suficiente para mostrar por que o cara é um dos melhores de todos os tempos. A exceção é Bob e Harv, o mais fraco do pacote, até por ser o único em que as histórias não são de Crumb e sim de Harvey Pekar. Pekar tem algumas coisas interessantes, mas a maior parte do tempo é tedioso. Tanto que o melhor momento é a história em que ele conta como conheceu Crumb. Aí a coisa se aproxima do que a gente vê nos outros livros: a rabugice do anti-herói, sempre pronto para reclamar de tudo o que vê na América. Mas Crumb mata a pau mesmo é quando fala de si mesmo, especialmente em Minha vida e Meus problemas com as mulheres – as vezes, eu me senti como se ele estivesse falando da minha vida e dos meus problemas com as mulheres. A maior diferença é que ele não tem o menor medo de expor as fraquezas, mostrar-se falho, humano, incoerente. O fato de dar a cara a tapa lhe dá o direito de reclamar de volta, criticando o próprio meio da contracultura que fez dele um ídolo. Isso acontece de forma primorosa em Mr. Natural, o mais bem resolvido nesse aspecto e, paradoxalmente, o menos autobiográfico (ao menos aparentemente). Também em Blues, ao falar de uma música que não existe mais e talvez só exista na cabeça de colecionadores nostálgicos, lendas melhores que os fatos e que por isso se sobrepõem a eles, expõe um desejo de beleza que é de certa forma o desejo de uma vida diferente. Às vezes dá vontade de esfregar isso na cara de Crumb; que ele mesmo é tão ridículo e mesquinho e decadente quanto aqueles (e aquelas!) que critica. Aí o espelho me olha de volta.

Não li as duas primeiras partes da trilogia A Saga dos Brutos, de Ana Paula Maia. Vou ter que ler, no mínimo para saber se estão no mesmo nível da terceira, Carvão animal (Record, 2011). É um romance incômodo. Primeiro achei que fosse por causa do naturalismo que marca todos os personagens – o bombeiro, o operador de forno crematório, os carvoeiros, todos com psiques que são uma extensão dos seus trabalhos ou das suas origens. Mas isso se justifica, e ganha credibilidade, à medida que o leitor se vê também capturado no círculo vicioso da cidade de Abalurdes. Quando isso acontece, basta mais um passo atrás para que o diálogo entre os funcionários do crematório (“- O que nós fazemos aqui? – Nós fazemos carvão”) se revele estruturante não só do romance mas também de uma cosmovisão.

Sequências são caça-níqueis, bobagens feitas para aproveitar o que for possível dos restos de um sucesso. Não é isso? Não é assim que funciona no cinema? Mas não é assim com Duas pessoas são muitas coisas (Memória Visual, 2011), uma espécie de prequel de Papel manteiga para embrulhar segredos. Já não basta ser bom. É melhor que o primeiro. É o melhor livro da Cristiane Lisbôa até hoje. Virgínia diz que aos 17 anos viveu mais que a maioria das pessoas numa vida inteira (melhor a vida larga do que longa, diz João). Pois o livro é isso: uma novelinha (melhor dizendo, um idílio) de 64 páginas, e quando termina é intenso, dizendo mais do que muitos romances em centenas de páginas. De brinde, o caderno de receitas, que dessa vez vai no fim, reesecreve a história, dialoga com a narradora e abre significados. Não conheço mais ninguém que consiga fazer isso com uma receita de macarrão.

(Publicado também no skoob)

Anúncios

Uma resposta para “Meninos, eu li (20)

  1. Pingback: Estrelinhas da… Ah! Muitas estrelinhas! « Isaac Sabe!

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s