Meninos, eu li (18)

Todas as resenhas que encontrei de “O centauro no jardim” (edição de 2011 da Cia. de Bolso), de Moacyr Scliar, viam a história de Guedali como uma fábula sobre o difícil equilíbrio entre integrar-se a uma cultura diferente e manter as tradições. E essa leitura vinha sempre, de forma mais ou menos explícita, com o carimbo de “literatura judaica”, uma estrela de Davi amarela pregada na lombada. É verdade que isso está lá. Mas, na minha opinião, as memórias do (ex-)centauro são principalmente um romance de formação, clássico, com o qual é muito fácil qualquer um se identificaro . A inadequação do personagem não vem somente do fato de ter nascido com torso e patas de cavalo. Ele sabe que nunca vai se encontrar, qualquer que seja o caminho que tome. E só uma aceitação de si mesmo permitirá fazer as pazes com o mundo.
Eu deveria ter gostado de “Gran Cabaret Demenzial” (Cosac Naify, 2007). As histórias curtas de Veronica Stigger, de certa forma, se parecem com o tipo de texto que eu escrevo aqui no Almanaque. O problema é uma tendência escatológica que depois de algum tempo perde totalmente a graça. Primeiro é o casal que vai se mudando em apartamentos cada vez menores até ter que ir morar no cu de um amigo. Depois é o verme que entra nos cus de todos os membros de uma família, que chamam a Baleia-sem-cu para resolver o problema. depois… chega, né? Só melhora um pouco no último texto, uma (falsa?) peça em um ato que, apesar de abusar um pouco dos personagens também nessa linha de exposição gratuita, consegue se resolver um pouco melhor.
Mesmo sabendo que vai sair uma versão mais barata, valeu a pena comprar a edição em capa dura de “Daytripper” (Panini, 2011) só para poder pegar autógrafo do Fábio Moon e do Gabriel Bá na Rio Comicon. Não preciso dizer muita coisa. Todo mundo já sabe que foi o melhor livro de quadrinhos brasileiro do ano. Os gêmeos mostram para todo mundo ver como se faz narrativa gráfica de primeira, com uma integração perfeita de imagem e texto. Nada sobra, nada falta. Se alguma coisa chega a incomodar um pouco, é justamente ser de certa forma “limpo” demais. Mas é claro que isso não atrapalha.
Se “A Dama-Morcega” (Landy, 2006) tivesse sido escrito por uma adolescente, seria um livro promissor. Vindo de uma adulta, apenas constrange. Nos melhores momentos, parece um argumento para episódio de “Além da Imaginação”. Nos piores, fanfiction de Crepúsculo, ou relato de sessão de RPG. Giulia Moon até encontra algumas boas ideias e visões originais em temas de horror e fantasia, mas desperdiça-as com um texto que não passa do pastiche. O último conto, misturando o Saci e o Menino Jesus, chega a dar pena justamente por isso: não adianta explorar temas folclóricos numa ficção fantástica brasileira se é para cair num diálogo piegas.
Foram duas revistas de “Hellblazer” nas bancas em dezembro. “Origens – volume 2” misturou algumas histórias que eu já conhecia, mas que sempre merecem ser lidas de novo, com outras que são da mesma época mas eu não conhecia. O pacto com o demônio Nergal é para reler sempre. Já as aventuras com participação do Monstro do Pântano não são tão boas, mas tem o mérito de revelar um pouco mais do passado de John Constantine. “Passagens sombrias” é um achado em termos de premissa. O roteiro de Ian Rankim recupera o que sempre foi uma das melhores características de Constantine: usar o pretexto dos demônios para crítica político-social. A arte de Werther Dell Edera acompanha bem esse conceito, inclusive com uma boa sacada gráfica na virada de roteiro que acontece no meio do gibi.
O maior problema de “O bom Jesus e o infame Cristo” (Cia. das Letras, 2010) é ser mais longo do que devia. Esticado mesmo. A tese central é ótima: em vez de um filho, Maria teve gêmeos, os dois personagens-título. Mas Philip Pullman não precisava ter explorado praticamente cada episódio dos quatro Evangelhos, mostrando em cada caso o que Jesus realmente fez e o que Cristo transformou em versão oficial para criar uma religião. Um bom editor teria cortado metade do livro. De qualquer forma, vale como uma boa discussão sobre o que é a verdade, o que é o certo, o que é o bem. No fim, Cristo parece menos infame (scoundrel, no original) do que diz o título. É fácil entendê-lo – o que, afinal, não deixa de ser um mérito do autor.
Já na reta final da trama de “O Fantasma da Ópera” (edição da Ediouro, 2005), o Persa, que até ali parecia um personagem desnecessário, incluído apenas para dar um tempero exótico, explica o livro, ao dizer que veio de uma terra que preza demais a fantasia para se deixar confundir por um truque, o qual no entanto admira. A essa altura, Gaston Leroux já tinha revelado ao leitor que o Fantasma não passava de um homem, e que os eventos de aparência fantasmagórica eram todos passíveis de uma explicação que descartasse o sobrenatural. Contudo, isso não torna a aventura menos interssante. Pelo contrário. Leroux assume o truque como truque, mas ao fazer isso assume o ônus de criar um vilão de carne e osso mais terrível que um espírito. O ponto fraco do romance, em parte explicado pela forma de pseudorreportagem, é uma certa irregularidade narrativa, que fica flagrante, por exemplo, na indecisão do autor em utilizar os verbos no presente ou no passado.

(Resenhas publicadas também no Skoob.)

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