Meninos, eu li (17)

Confesso que esperava mais de “A Miniatura” (Objetiva, 2005). Elisa Palatnik faz tudo certinho, inclusive com a virada de enredo na altura recomendada pelos melhores manuais de narrativa. Mas ficou devendo justamente o que está fora do manual, aquilo que deveria fazer o leitor realmente se interessar pelos personagens. No fim, a autora acaba na mesma situação de seu personagem, criando reproduções da realidade em escala reduzida absolutamente fieis, porém sem vida e sem motivo aparente.

Patrícia Galvão, para mim, era a Carla Camuratti declamando “No meu quintal tem um pessegueiro/Com flores cor de rosa/Onde chupei-te a boca/Pensando que era fruto”. Também sabia da sua ação política, mas não fazia ideia do que ela tinha sido capaz até ler “Parque Industrial” (edição “cerejinha” da José Olympio, 2006). É literatura militante de primeira. Quase um manifesto. Você termina o livro e quer levantar uma bendeira, deflagrar uma revolução. Ainda mais porque, em diversos trechos, as relações entre a elite paulistana (inclusive seus intelectuais de esquerda) e a classe trabalhadora descritas por Pagu parecem não ter mudado nada, oitenta anos depois.

Assim é covardia. Roger Mello, além de ser um ilustrador de primeira, ainda mostrou que conhece o outro lado e escreveu “Zubair e os labirintos” (Companhia das Letrinhas, 2003). O resultado foi um livro-objeto, um livro-brinquedo que parte de uma realidade terrível (o caos de Bagdá ocupada) para criar uma pequena fábula, algo entre Borges e Xerazade, sobre o poder da imaginação. Altamente recomendável para crianças e adultos.

Mas a melhor leitura do mês foi mesmo “Os Malaquias” (Língua Geral, 2010). De arregalar os olhos. Andréa del Fuego começa cozinhando a sua história em fogo lento, num falso romance regionalista que aos poucos se revela outra coisa, completamente diferente. Quando você se dá conta, já está hipnotizado por um redemoinho que vai girando cadavez mais rápido e mais intenso, para arrematar deixando o leitor suspenso no ar, sem chão e sem paraquedas. Não foi á toa que venceu o Prêmio Saramago. Vou ficar na expectativa dos seus próximos livros.

(Resenhas publicadas também no Skoob.)

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s