Meninos, eu li (16)

A primeira tentativa de ler “O jogo da amarelinha” tinha sido mais de vinte anos atrás. Na época não consegui por vários motivos. Um deles foi a incapacidade de entender tantas referências espalhadas. Mas esse problema nunca pode ser totalmente resolvido, no máximo atenuado. Não acredito que alguém consiga captar todas as piscadas de olho que Cortázar distribui pelas seiscentas e tantas páginas. O problema maior era a inadequação: não era o livro que eu esperava que fosse. Dessa vez, com uma atitude diferente, deu para, se não compartilhar, pelo menos entender a devoção de tanta gente por Rayuela. Além de ser um monumento do ponto de vista de forma, estrutura, e tal, tem o texto, que é impressionante. Nos primeiros capítulos, eu me peguei lembrando frases que tinham ficado guardadas no meu cérebro desde aquela tentativa anterior. E isso não é coisa que qualquer autor consegue.

No breve período em que eu assinei uma coluna no “Jornal dos Sports”, eu dizia com orgulho que era o mesmo jornal de João Saldanha, Nelson Rodrigues e o maior de todos, Mario Filho. Mas também José Lins do Rego, que eu sabia que tinha sido cronista esportivo mas não conhecia de fato. Esse “Flamengo é puro amor” (José Olympio, 2008) preencheu a lacuna. Verdade que não se tratava de um supercraque no nível dos outros três, mas era um tremendo cronista. Corajoso, bem-humorado, simples. Falta um Zelins no jornalismo esportivo de hoje. Aliás, falta um Zelins no jornalismo. Falta um Zelins.

Quando Will Eisner cria uma grande corporação que se chama simplesmente Multinational Corporation, você tem a confirmação de que está diante de uma fábula à mandiera clássica. Os personagens que vão se apresentando como arquétipos só reforçam a sensação. “Life on another planet” (Kitchen Sink, 1995) não envelheceu por isso. Mesmo que o cenário da Guerra Fria e da ameaça do confronto entre as superpotências tenha sido superado antes mesmo de a série original ter sido reunida num volume encadernado, a aventura do cientista lutando para evitar que o sinal vindo do espaço provoque a guerra em vez da paz continua fazendo sentido.

Depois da decepção do volume 8, “Lobos”, este “Filhos do Império” (Panini, 2011) foi um alívio, o suficiente para me motivar a continuar acompanhando “Fábulas”. Não tanto pelos rumos da trama principal, mas pelas pequenas histórias secundárias (a dos ratinhos cegos, por exemplo, é impagável), que no fim das contas acabam sendo o que Bill Willingham faz de melhor. Ou, no que vem a dar no mesmo, as microhistórias dentro da história principal, como é o caso da participação especial de Papai Noel e sua explicação de como consegue visitar todas as casas na noite de Natal.

Não conhecia Cees Nooteboom. Peguei “A seguinte história:” (Nova Fronteira, 2008) para ler porque era curtinho. Valeu a pena! A história do professor Mussert começa ameaçando uma fantasia/sci-fi em Lisboa, vira um drama em Amsterdã e depois, a bordo de um navio sobre o Amazonas, dá um nó nos gêneros e puxa o tapete do leitor. As referências e metáforas que pareciam simplórias de repente se embaralham da mesma forma que as constelações que o capitão do navio aponta. Deu vontade de ver o que mais ele fez. Dá para encarar um romance mais encorpado agora.

Bom… Já pode falar mal da Lúcia, Ale? Pode, Telinha? Porque “As aventuras do vampiro carioca” é ruim. Ruim de doer. A intenção era uma paródia, ou homenagem, ou coisa parecida, ao “Vampiro de Curitiba” do Dalton Trevisan. Só que a Lúcia Chataignier não passa nem perto disso. A autora não tem um pingo de respeito pelo seu protagonista, que parece so estar ali para ser caricaturado, ridicularizado. Nem de longe lembra a picardia do Trevisan. Ainda por cima, passei mal tentando (sem sucesso) descobrir qual era a lógica de colocação de vírgulas ao longo do texto, se é que existia alguma.

Eu confesso que não me lembro muito bem da animação do Miyazaki. Mas a leitura de “O castelo animado” (Record, 2007) me deu a impressão de que era outra história, apenas vagamente assemelhada (o verbete na Wikipedia confirma). Na verdade, o que me motivou a ler o livro não foi o filme, e sim o fato de que Diana Wynne Jones era uma das autoras preferidas (e uma influência assumida) do Neil Gaiman. É muito fácil entender por quê. Ela brinca com regras, expectativas e clichês de um jeito que faz o leitor chegar à última página achando que esse sim é, ou pelo menos deveria ser, o formato básico e universal de um conto de fadas.

(Publicado também no Skoob.)

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