Meninos, eu li (15)

Ninguém duvida de que Luiz Gonzaga Assis de Luca entende de cinema, e mais ainda do setor de exibição. Mas “Cinema digital: um novo cinema?” (Imprensa Oficial de São Paulo, 2004) sofre de alguns problemas sérios. O menor deles é o fato de já ter sido escrito há sete anos e  estar um pouco defasado em relação à evolução tecnológica. Assim, a descrição de projetores e aparelhagens de compressão e envio de arquivos acaba funcionando como curiosidade ou referência de época, mal levando em consideração, por exemplo, a revolução do 3D. Os problemas mais graves são o texto mal escrito a ponto de incomodar a compreensão, revelando a ausência completa de um revisor que transformasse a dissertação acadêmica num livro de fato, e a abstinência do autor em ir mais fundo nas implicações políticas trazidas pela digitalização das salas.

Elie Wiesel mostra “O Golem” (Imagem, 1997) como uma fábula judaica em que as perseguições funcioname como pano de fundo mas o que de fato importa é a consciência da justiça. Porque o Golem ganha a vida por meio da palavra do rabino, os seus extraordinários poderes são apenas uma extensão da extraordinária sabedoria do seu criador. Os judeus do gueto se salvam graças a essa sabedoria e esse senso de justiça que se encarna em ações.

Cristiane Dantas venceu o concurso Literatura para Todos com esse “Madalena” (Ministério da Educação, 2006). Merecido. Literatura para adolescentes com qualidade, respeito à inteligência do leitor, estímulo à leitura e à escrita. A trajetória de Madalena, ao longo de décadas e contada por diversos pontos de vista, é carregada de verossimilhança na personagem principal e nos secundários, mesmo que alguns deles sejam mal esboçados ou fiquem perigosamente próximos do estereótipo.

O nome de Clive Barker na capa é um chamariz que funciona. Só depois de abrir “O ladrão da eternidade” (PixelMedia, 2006) é que você descobre que a adaptação é assinada por Kris Oprisko e Daniel Hernandez. Mas não fiquei decepcionado. Pelo contrário. A versão em quadrinhos funciona muito bem numa história que tem pouca coisa de original: menino acha que sua vida é um lixo, menino vai parar num mundo encantado, menino descobre que mundo encantado é uma cilada, menino conta com a ajuda dos amigos verdadeiros para enfrentar seus medos e voltar para casa. Dentro desse esquema batido, Barker, seguido por seus adaptadores, consegue adicionar elementos suficientes para criar uma fábula atraente.

“Homem-Aranha Noir” (Panini, 2011), de Fabrice Sapolsky e David Hine, é de certa forma tudo aquilo que um gibi de super-heroi deveria ser. Mostra um personagem conhecido numa situação diferente, vivendo uma aventura de fato e não uma série de lutas sem sentido. A ambientação na Nova York dos anos 30 revitaliza o Aranha, seus aliados e seus inimigos. Foi uma forma inteligente de recontar sem ser repetitivo uma história já mil vezes repetida, do jovem Peter Parker adquirindo seus poderes após uma picada de aranha, e aprendendo a lidar com dilemas éticos. Deu vontade de ler o “X-Men Noir” também.

Eu me lembrava de muito pouca coisa do filme “O Mahabharata”. Basicamente, a história de Ganesha e a cena em que Arjuna reconhece Vixnu no alto da montanha. Mas lembrava bem da vontade que deixou de conhecer o épico. A adaptação de Jean-Claude Carrière (Brasiliense, 1994), lançada naquela época, cumpre bem a função. Carrière, autor do roteiro do filme, é honesto ao explicar como cortou violentamente o poema para apresentar a história central. Foi eficiente ao mostrar a luta dos Pandavas pelo trono como um pretexto para refletir sobre o dharma e suas peculiaridades, entre elas a de que às vezes é preciso esquecê-lo para cumpri-lo.

Depois que a Pixel me deixou na mão no meio da publicação seriada de “As Fúrias”, anos atrás, tive que comprar essa edição encadernada da Panini (2011) para saber o que aconteceria com Lyta Hall. Mike Carey não é nenhum Neil Gaiman, mas deu um prosseguimento decente à saga de Sandman. Ao lado do desenhista John Bolton, teve como ponto alto a subversão do conceito de deus ex-machina para resolver o conflito.

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