Biblioteca de Babel (66): Os contos de Jayme Quiroga

Depois de obter algum sucesso com Cartagena, seu romance de estreia, Quiroga nunca mais publicou. Numa entrevista, quexou-se do valor ínfimo que recebia por cada exemplar vendido, e ainda menor nas versões digitais. Previu que, com a popularização do livro eletonico, e sua fácil reprodução, não haveria mais remuneração para os autores.

Continuou escrevendo, no entanto. Agora se dedica aos contos, todos manuscritos. Cada caderno com uma nova história é leiloado e o comprador se torna também seu único e exclusivo leitor.

É claro que os cadernos podem ser passados adiante. Quiroga, porém, toma o cuidado de inserir em cada um deles uma fórmula aprendida com monges nepaleses¹, de forma que quem se desfaça do caderno esqueça para sempre do que leu. E ninguém abre mão da memória de um conto de Quiroga. Seria melhor perder um rim, ou o polegar direito.

Sem acesso às obras², os críticos apenas especulam a trajetória do autor. A única indicação que encontram para embasar suas teorias é a evolução dos valores atingidos nos leilões. Calle Luna, o conto mais recente, atingiu os dois milhões de euros. Contudo, as variáveis como a conjuntura econômica, o câmbio, as eleições, as estações do ano, o número de palavras da obra e a temperatura das águas na Corrente do Atlântico dificultam tais especulações, tornando-as mais próximas de uma arte do que da ciência que deveria ser a crítica.


¹ Aparentemente, cada texto é, ele mesmo, construído em torno da fórmula mágica, que varia de conto para conto.
² A fórmula também impede a reprodução. Da única vez que se tentou, a obra reproduzida se tornou um lixo tamanho que nem o mais severo dos desafetos admitiu que pudesse ser um texto de Quiroga.

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