Dramatis Personæ (125): Jetro

Furtava bolsas de correspondência dos carteiros. Desprezava os vales, cartões, cheques e outros valores, que restituía intocados. Seu alvo eram as cartas pessoais. Em especial as escritas por mulheres.

Abria cada envelope com cuidado, dentro de um ritual que incluía música ambiente (Schumann, de regra), a luz de um abajur roxo e um cálice de conhaque. Cheirava o papel antes de desdobrá-lo, dedicando-se a examinar a caligrafia e o tipo de tinta usado. Era o bastante para deduzir, quando não inventar, detalhes sobre remetente e destinatário. Quando a imersão estava completa, lia enfim a carta, como se para ele tivesse sido escrita. Vivia paixões intensas, e não menos sinceras por serem emprestadas.

Hoje, intercepta e-mails. Mas não é a mesma coisa. Às vezes acha mais prazeroso reler alguma das cartas roubadas da sua coleção.

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