Meninos, eu li (13)

“Fábulas” tem sido a melhor história em quadrinhos que encontro nas bancas, mas esse volume 8, “Lobos” (Panini, 2011) foi uma decepção. A narrativa continua ótima, inclusive superando alguns problemas de edições anteriores, a arte é sempre de alto nível. Só que Bill Willingham resolveu transformar a saga das Fábulas em peça de propaganda de direita. Bigby Lobo defendendo as ações de Israel contra os palestinos foi muito duro de engolir. Como se não bastasse, as Fábulas resolveram invocar a proteção de Deus. Foi como se uma pessoa muito legal e divertida de repente se revelasse uma completa cretina. Fico esperando o que virá no próximo arco de histórias. Criacionismo? Virgindade? Homofobia?
Três anos de Aliança Francesa me fizeram supor que o único livro de Jacques Prévert fosse o onipresente “Paroles”. Esse “la pluie et le bon temps” (em edição da Folio, 1975) não é tão bom. Alguns dos poemas mais longos são até cansativos, ou talvez seja o meu francês que anda enferrujado demais para apreciar. Mas é sempre Prévert. Tem os jogos de palavras, as aliterações, as sequências quase cinematográficas, o humor (como na pergunta sobre quantas árvores foram derrubadas para a impressão de panfletos contra o desmatamento). Acima de tudo, tem a postura radicalmente libertária. É o que basta.
Eu tenho uma teoria de que o talento literário diminui de pai para filho. Veja os Veríssimos, os Sant’annas, os Dumas, os dois Plínios. Até nas histórias em quadrinhos: Dick e Chris Browne, Laerte e Rafael Coutinho. Não sei se na linhagem matriarcal também funciona assim; se for, então Adriana Falcão deve ser uma grande escritora, porque a filha Tatiana Maciel teve uma estreia de cair o queixo com esse “O homem dos sonhos” (Agir, 2007). A estrutura não chega a ser exatamente inovadora, mas é incomum o bastante para deixar o leitor inquieto. Para contrastar, o texto flui suave, redondo. A identificação com o não-personagem F#23107 vai aumentando gradativamente, criando a consciência de sermos todos também “desprotagonistas”. Até mesmo o fim é necessariamente anticlimático, o que só melhora o resultado.

(Publicado simultaneamente no Skoob)

2 Respostas para “Meninos, eu li (13)

  1. Que coisa boa ler isso! Fiquei muito feliz. Obrigada pela resenha.
    Um beijo,
    Tatiana

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