Meninos, eu li (12)

Uderzo bem que mereceu a homenagem que recebeu pelos seus 80 anos. Mas “Asterix e seus amigos” (Record, 2008) mostra como os últimos álbuns da série poderiam ter sido melhores. Bastava que o desenhista tivesse a humildade de, após a morte de Goscinny, encomendar roteiros a quem soubesse escrevê-los. Como Boucq, responsável por uma das melhores histórias da coletânea. É claro que outras são bem fracas, especialmente por dependerem da referência a personagens praticamente desconhecidos no Brasil. Mesmo assim, o já citado Boucq, Manara (infinitamente superior à sua versão para os X-Men), Vicar (num crossover brilhante com a Família Pato, da Disney) Turf (poético e comovente com o irmão gêmeo de Obelix) e a dupla Van Hamme/Vance (da série XIII) fazem o álbum valer a pena.

Normalmente, quando se atira para todos os lados o mais comum é errar quase tudo. Ainda mais atirando estacas de madeira. Porém, Raymond McNally e Radu Florescu acertam mais do que erram nesse “Em busca de Drácula e outros vampiros”. A pesquisa histórica é consistente o bastante para permitir uma compreensão do personagem Vlad Tepes, o Impalador (apesar de alguma ingenuidade em certas interpretações dos autores). A descrição dos lugares onde o príncipe viveu é saborosa e atiça a vontade de passar férias na Transilvânia. O capítulo sobre Bram Stoker é esclarecedor para quem já leu “Drácula”, e desperta a curiosidade de quem não leu. Finalemente, os anexos, com bibliografia e filmografia comentadas, apresenta um punhado de tesouros (concordando-se ou não com algumas avaliações dos autores). A única derrapagem séria é a tentativa de psicologia de botequim, forçando uma associação do comportamento de Dracul à impotência sexual.

A parte mais divertida de ler “Juízo” (7 Letras, 2005) foi verificar o que João Ximenes Braga acertou ou errou em suas previsões sobre o mundo de 2011. No varejo, errou quase tudo: travestis continuam usando silicone e fazendo ponto na Glória; a Casa da Suíça não virou templo; reality shows ainda são produzidos; não elegemos um presidente evangélico em 2010; não há um terceiro revival do pior dos anos 80 (na verdade, o primeiro nunca terminou); a internet se popularizou, inclusive entre religiosos. As duas previsões nas páginas finais eu não vou comentar: primeiro, porque seria um spoiler; depois, porque só aconteceriam em outubro de 2011. De qualquer forma, espero que erre de novo. No atacado, ele acertou: existe uma carolização da política, um avanço do conservadorismo religioso, aliado a outras forças reacionárias. Saindo da política e voltando à literatura, o grande problema do romance é a dificuldade de encontrar nele uma voz narrativa convincente, até porque o autor hesita o tempo todo entre ser ou não ser o seu protagonista-narrador.

O prêmio da Secretaria do Audiovisual para pesquisa teórica foi bem dado. “O filme nas telas” (Terceiro Nome, 2010) radiografa bem os problemas da distribuição cinematográfica no Brasil. Os casos analisados – de “2 filhos de Francisco” a “Cinema, aspirinas e urubus” – mostram em números a diferença de tratamento entre blockbusters e miúras. Faltou um acompanhamento da carreira dos filmes em outros mercados, mas para uma obra que nasceu como dissertação de mestrado está acima do esperado. A outra falha da autora é considerar que os filmes se “pagam” com recursos públicos, e que assim não há necessidade de se recuperar na bilheteria o investimento feito na produção. Por fim, magoa um pouco quando ela diz que precisou driblar a burocracia da Ancine para obter os dados necessários à pesquisa. A gente pode não ter toda a informação, mas não sonega o que tem.

Fazia tempo que eu não lia poesia, então resolvi recomeçar pegando leve. “Panacéia” (Nankin, 2000) foi o aquecimento de que eu precisava. Não é que Glauco Mattoso seja um poeta menor. Pelo contrário: nesse quarto livro de sonetos, ele mostra tanto domínio da técnica que se permite virar pelo avesso a estrutura clássica dos dois quartetos e dois tercetos. Subverte a métrica, a rima, e tudo o que pode, mostrando a mesma ousadia dos temas (inclusive seus fetiches) e do vocabulário. O que motivou mesmo a escolha foi a familiaridade que Glauco imprime à sua poesia, falando do banal sem ser banal ele mesmo, muito pelo contrário.

Fazia também muito tempo que eu não lia um romance tão ruim. Eu espero que Ana Maria Machado tenha feito coisa bem melhor, porque “Para sempre” (Record, 2001) é muito fraco. No meio da leitura, já irritado, tentei imaginar que era um problema apenas de inadequação, e que o livro não era destinado a leitores adultos, e sim a adolescentes. Não justifica: leitores adolescentes merecem coisa bem melhor que um amontoado de clichês (personagens, situações, diálogos, tudo é clichê). A autora ainda usa sua personagem professora de literatura para tentar empurrar citações e referências que nada acrescentam ao romance. Perda de tempo completa.

(Publicado simultaneamente no Skoob)

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