Arquivo do mês: junho 2011

Dramatis Personæ (123): Genário

É terapeuta de casas.

Sua abordagem holística mistura elementos da psicanálise, do feng-shui e da Bauhaus. Num dos seus casos mais bem sucedidos, acabou com uma infestação crônica de baratas depois de promover apenas três sessões e pintar duas paredes de vermelho.

O mais importante, explica, é ouvir as casas.

Dramatis Personæ (122): Edvina

Durante anos foi uma das atrações do Grande Circo de Vladivostok, com seu número em que mostrava habilidade como domadora de feras invisíveis.

Com a proibição do uso de animais em espetáculos circenses, perdeu o emprego. Passou à clandestinidade, levando seus animais por estradas secundárias, escondendo-se dos fiscais ambientais. Apresentava-se somente em vilarejos miseráveis e mafuás de terceira categoria.

As péssimas condições de trabalho e a baixa renmuneração que obtia aos poucos foram cobrando seu preço. Um dia, numa apresentação em que apelou à ousadia para tentar reverter a decadência, Edvina enfiou a cabeça na boca de um faminto tigre invisível.

A cabeça, arrancada pelos dentes afiados da fera, desapareceu no ar.

A fiscalização mais bonita da cidade

hermes.jpg Relator
Esse é o auto de infração
Não tem mais reparação
Instrução não é tão simples quanto pensa
Ela tem que demonstrar a procedência
Cabe o detentor
Cabe uma defesa inteira
Quase sempre é choradeira
Cabem sanções
E vai para o relator

Bestiário (94): Merluni

O ralato das viagens de Simbad, o Marinheiro, conta entre outros casos a sua aventura com o Pássaro Roca, uma ave tão grande que era capaz de carregar elefantes em suas garras. Por mirabolante que seja, a história tem base na realidade. Sua origem é o merluni, natural das Ilhas Maurício.

Não se trata, porém, de um pássaro gigantesco. Ao contrário, o merluni (do malgaxe m’rlu, tromba, mais o sufixo diminutivo -ni) é um elefante-pigmeu. Tão pequeno que um abutre ou condor pode, com algum esforço, abater e carregar um filhote. O que muitas vezes acontece quando algum deles deixa a proteção das florestas do arquipélago.

Foi a caça indiscriminada que levou à extinção da espécie. Não por Rocas, porém, e sim por humanos. As minúsculas mas afiadas presas de marfim dos merlunis eram usadas como pontas de flecha pelas tribos Bihari.

Essa garota é papo-firme

Não se deixe enganar pelo título.

Nunca fui a garota papo-firme que o Roberto falou

Cristiane Lisbôa é tremendona. É uma brasa, mora. E finalmente resolveu atender aos apelos dos fãs que não aguentavam mais esperar um livro novo. Quem estiver em São Paulo nesta segunda-feira, se perder esse lançamento (com show da Tulipa Ruiz, ainda por cima), é porque não entende nada: nem da vida, nem do amor, e principalmente nem das mulheres que mentem em voz baixa e temm predileção por chás e purpurinas jogadas ao vento.

Fabrício Carpinejar já disse: “Espiar o que as outras vidas estão fazendo (e o melhor: não estão fazendo) é a obsessão de Cristiane Lisbôa. Espiar faz parte de um enquadramento fechado, perigoso, proibido, com a liberdade restrita ao campo de visão, o que transforma o ato em um jogo sedutor de adrenalina”. E Santiago Nazarian também sacou que “Lisbôa chega para deixar clara a diferença. (…) Encontramos uma escritora de fato, de talento inegável, lirismo e inteligência”. Não sou eu que vou discordar, né?

Se você, como eu, infelizmente não puder ir a São Paulo para o lançamento, pode ficar torcendo para a moça dar as caras na sua cidade. Ou, se não der para esperar, encomendar logo o seu na Livraria da Travessa. Eu não sei se aguento.

Biblioteca de Babel (62): Leopoldeia

Provavelmente a obra literária mais ambiciosa do século XXI, a Leopoldeia é uma recriação do clássico romance Ulysses, de James Joyce.

Na nova versão, as andanças de Leopold Bloom pelas ruas de Dublin são recontadas na forma de um poema épico de 12.110 versos, em que um herói grego, ao longo de vários anos, tenta voltar para casa, cruzando os mares e enfrentando diversos perigos.

Criptoetimologia (38): Pirulito

As primeiras receitas de pirulito eram uma mistura de gelatina, suco de frutas, amido e muito açúcar. Um punhado era espetado num palito e, enquanto secava, de cabeça para baixo, tomava uma forma semelhante à de uma pequena chama.

É daí que vem o nome original do doce, Pírulo – do  grego pyros, fogo, mais o sufixo diminutivo -olo. Mais tarde, reforçando o caráter de guloseima destinada às crianças, a palavra ganhou um segundo diminutivo (-ito).