Dramatis Personæ (119): Ataulfo

É o pior barbeiro da cidade. E, no entanto, o seu salão vive lotado. Tudo por causa da excelente conversa que acompanha cada (catastrófico) corte de cabelo. Quem se levanta da cadeira de taulfo vai ter que passar as próximas semanas usando chapéu, ou peruca, para disfarçar o estrago.

Alguns ainda tentam evitar o pior:

– Só apara as pontas, Ataulfo.

Quem disse que funciona? Ataulfo não ouve pedidos. Os cortes que executa são os que lhe vêm à cabeça, quase sempre inspirados pelos causos que conta.

Alguns fãs de sua prosa já tentaram ouvi-lo fora do salão. Em vão. No armazém, na praça, mesmo no botequim, Araulfo se fecha. Só consegue falar em seu habitat, nas suas mãos a tesoura e a navalha, que manipula nos gestos largos com que acompanha a própria fala.

Quando resolve raspar a barba de alguém, é um perigo. Quase certamente o freguês vai sair fatiado.

E o caixa não para de tilintar.

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